Ano 18

Daniela Fernandes

Daniela Fernandes nasceu em Belo Horizonte. É graduada em Comunicação Social com habilitação em Produção Editorial e pós-graduação em Gestão Cultural. Sua trajetória profissional está intimamente ligada ao audiovisual: “Eu fui para o festival participar de uma mesa do Fórum Mineiro do Audiovisual e foi nesse momento que uma chavinha virou e aí eu pensei comigo mesma que era isso que eu queria fazer. Engraçado que a chave  vira não para a exibição, no sentido de você fazer um curta e exibir, mas da parte política. Essa chave virou justamente em uma discussão política sobre o audiovisual brasileiro e mineiro”.

Daniela atua muito nos bastidores do cinema, em entidades e organizações, participando, discutindo e fazendo propostas para as políticas públicas do setor. Entre elas estão a ABD MG - Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas na seção Minas Gerais, a ABD Nacional, o CND -  Conselho Nacional de Cineclubes, a Curta Minas, o Fórum dos Festivais. “Na trajetória são várias entidades, tanto nacionais quanto regionais, então essa participação na construção política já vem desde cedo. Agora, nesse exato momento, eu sou vice-presidente do Sindicato da Indústria de Audiovisual de Minas Gerais, o Sindav, estou no primeiro mandato na diretoria”.  

Em 2005, ela chega à Curta Circuito - Mostra de Cinema Permanente, primeiro trabalhando na comunicação e nos últimos anos como diretora. Além dele, está à frente também do Matula, festival que une cinema e gastronomia, e passagem também pelo Cinefoot, entre outros. A Curta Circuito é uma das mais queridas e importantes  realizações cinematográficas de Belo Horizonte e com repercussão nacional.” Quando eu chego em 2005 para a Curta Minas eu começo a fazer estágio na comunicação da Associação junto com a comunicação do Curta Circuito, eu entro na quinta edição do Curta Circuito. Enfim, estou há alguns anos, se não me engano são 17 anos no Curta Circuito. Foi um processo de crescimento mútuo, ao mesmo tempo que a gente crescia, evoluía, a gente sentia que o projeto também ia construindo uma essência, ia se moldando. Talvez em umas edições anteriores, o Curta Circuito não tinha uma cara específica como ele tem hoje, uma identidade muito forte”.

Daniela Fernandes conversou com o Mulheres do Cinema Brasileiro, em entrevista em que repassa sua trajetória, a formação, a atuação em entidades e organizações, a Curta Circuito, os outros projetos, as parcerias com curadores, a restauração e a preservação do cinema brasileiro, as políticas para o setor, e muito mais.



Mulheres do Cinema Brasileiro: Para começar, nome, cidade que nasceu, data de nascimento e formação. 
 
Daniela Fernandes: Daniela Fernandes Alves, nasci em Belo Horizonte, em 2 de dezembro de 1981. Eu sou graduada em Comunicação Social com habilitação em Produção Editorial e pós-graduação em Gestão Cultural. 
 
MCB:  Como se deu a sua aproximação com o cinema em termos profissionais? 
 
DF: Em 2005, eu tinha acabado de fazer um curta pela faculdade e era o período do Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte. Eu fui para o festival participar de uma mesa do Fórum Mineiro do Audiovisual e foi nesse momento que uma chavinha virou e aí eu pensei comigo mesma que era isso que eu queria fazer. Engraçado que a chave  vira não para a exibição, no sentido de você fazer um curta e exibir, mas da parte política. Essa chave virou justamente em uma discussão política sobre o audiovisual brasileiro e mineiro.  
 
MCB: Por que a atuação no cinema brasileiro, em específico? 
 
DF: Minha atuação é bem bastidor, né, a gente trabalha com política no audiovisual. A minha mãe era sindicalista e acho que está um pouco no sangue nosso essa questão do ativismo, tanto que eu comecei a seguir a mesma linha dela em uma associação para defender os interesses da classe. Aí eu entro para a parte política, conheço algumas pessoas que foram fundamentais para esse crescimento meu na parte política: Claudio (Constantino), André Carreira, Guilherme Fiuza. Todos eles estavam presentes nesse fórum, nesse encontro, enfim, que foi importante. A sala estava cheia e ali me deu um, não consigo explicar, mas me deu um clique, e aí eu pensei: “É isso!”. 
 
MCB: Você atua muito nos bastidores do cinema, em entidades e organizações, participando, discutindo e fazendo propostas para as políticas públicas do setor. Gostaria que citasse essas entidades e falasse um pouco a respeito dessa vertente. 
 
DF: Eu tenho uma jornada, nesses 17 anos, em várias instâncias, em várias associações. Eu começo na Curta Minas,  eu me identifico com a Curta Minas ABD MG, que é a Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas na seção Minas Gerais. Eu começo na Curta Minas como estagiária de comunicação e, ao mesmo tempo, eu vou entrando nesse circuito político. Depois da Curta Minas, eu coordenei um projeto de comunicação nacional com a ABD nacional, era um projeto chamado DOC TV, e eu coordenei todas  as ABD na parte de comunicação desse projeto. Logo em seguida, eu viro diretora da ABD nacional no mesmo período, também, em que eu tinha uma atuação dentro do cineclubismo, em que eu viro diretora de comunicação do CNC. 

Logo depois que termina a ABD, a gente realiza a Jornada de Cineclubes aqui em Belo Horizonte e aí eu me torno a diretora de comunicação do CNC -  Conselho Nacional de Cineclubes. Na atuação da Curta Minas, eu fui presidente por três mandatos. Enfim, tem uma parte no meu trabalho que era muito ligada ao acervo e à pesquisa e memória do cinema brasileiro. Também fiz parte da ABPA - associação de preservação na Cineop - Mostra de Cinema de Ouro Preto. Dentro da atuação na Curta Minas, eu também trabalho no Curta Circuito e essa parte de acervo para mim é super importante. Passei também pelo Fórum de Festivais. A gente teve algumas questões com o Conselho Nacional de Cineclubes e aí nós, enfim, direcionamos para um outro lado político e entramos para os Fóruns dos Festivais,  eu fico dois mandatos no Fórum, Na trajetória são várias entidades, tanto nacionais quanto regionais, então essa participação na construção política já vem desde cedo. Agora, nesse exato momento, eu sou vice-presidente do Sindicato da Indústria de Audiovisual de Minas Gerais, o Sindav, estou no primeiro mandato da diretoria.  
 
MCB:  A Curta Circuito - Mostra de Cinema Permanente atingiu a maioridade total, 21 anos. Como e quando chegou à Mostra? Há uma parceria contínua também com o Cláudio Constantino, como ela se deu? 
 
DF: Quando eu chego em 2005 para a Curta Minas eu começo a fazer estágio na comunicação da Associação junto com a comunicação do Curta Circuito, eu entro na quinta edição do Curta Circuito. Enfim, estou há alguns anos, se não me engano são 17 anos no Curta Circuito. Foi um processo de crescimento mútuo, ao mesmo tempo que a gente crescia, evoluía, a gente sentia que o projeto também ia construindo uma essência, ia se moldando. Talvez em algumas edições anteriores, o Curta Circuito não tinha uma cara específica como ele tem hoje, uma identidade muito forte. Em 2005, o Cláudio vem para coordenar o Curta Circuito e ser presidente da Curta Minas, ele começa a reestruturar, ele começa do zero, toda essa política de reestruturação do Curta Circuito é muito do Claudio. A gente acaba setorizando e se profissionalizando nas partes do Curta Circuito, então tem uma equipe de curadoria, uma equipe de comunicação, uma equipe de produção, uma equipe de exibição. O Claudio pegou o que era muito bom em cada um e foi colocando eles nos momentos chaves, e aí a gente constrói uma linha editorial para o Curta Circuito que não existia. Era muito vinculada à logomarca da Curta Minas e a gente modifica isso, criamos uma identidade própria para o Curta Circuito. 

A gente vai conversando com os nossos patrocinadores, então tem a Usiminas, tem a Telemig Celular, que foram duas empresas muito importantes com as quais trabalhos. Teve essa estruturação toda a partir de 2005 e aí cada um ficou em um lado, em uma área que era a sua de interesse e de trabalho.  Como venho da produção editorial, ela pensa em tudo, né, um produtor editorial pensa desde o rascunho até o trabalho realizado, até o suporte final. E isso a gente fez no Curta Circuito, ao longo do tempo fomos evoluindo, a gente tinha uma filipeta e dessa filipeta virou um A3 frente e verso que fizemos um cartaz e um folder dentro com dobra, aí depois vieram os cartazes maiores, depois o Caderno de Crítica, já são 19 cadernos até agora produzidos. Então a gente vai crescendo juntos, né, aprimorando, e você tem a certeza que o seu projeto está crescendo junto com você, em constante evolução. Isso para mim é fundamental, a gente vê esse processo evolutivo do Curta Circuito e o processo evolutivo nosso mesmo também. 

Eu conheci o Cláudio em 2005, durante o Fórum do Audiovisual Mineiro, no Festival de Curtas. Eu não conhecia ele, não sabia da atuação dele na parte política, ele já tinha um histórico, era presidente da ABD daqui de Minas. Me lembro que o conheci reclamando do site da Curta Minas, que eu achava que era um site difícil e pouco atrativo. Eu estava em uma fase da faculdade em que a gente aprendia muito com essas ferramentas digitais e aí eu entrei criticando um pouco isso, sentindo falta desse atrativo, enfim, me disponibilizando para trabalhar. Temos uma parceria de 17 anos, são muitos projetos. Não são só os ligados ao audiovisual, mas tem projetos também que fizemos junto com o SESI, tem alguns outros paralelos. Enfim, é uma parceria bem interessante, eu acho que se não fosse não estaríamos há 17 anos juntos, né? Eu acho que a gente se complementa, sabe, eu acho que o Cláudio pode ser uma versão masculina  minha, assim de brincadeira. É que a gente se complementa mesmo, às vezes tem um raciocínio que vamos construindo juntos, fechando a ideia juntos, então deu liga.  
 
 
MCB: Imagino que sejam muitos momentos especiais nessa trajetória. Poderia citar alguns? 
 
DF: Tem vários momentos especiais, mas um deles é o Tostão. Quando a gente consegue enfim a verba, porque foi uma verba direta do BDMG para fazer a restauração de dois filmes, que iria ser o Tostão, a Fera de Ouro, do Ricardo Gomes Leite e Paulo Laender,  e o Rebelião em Vila Rica, do Renato e do Geraldo Santos Pereira, são diretores mineiros. A do Rebelião era uma cópia que estava se perdendo,  uma cópia que estava em uma situação bem delicada. A gente quis restaurar a cópia do Tostão e  utilizou isso quando todo mundo estava voltado para o futebol,  era  vésperas da Copa do Mundo no Brasil e precisavamos fazer com que o projeto tivesse a visibilidade que ele merecia. Hoje em dia não gostamos tanto assim do futebol da Seleção Brasileira, mas teve uma época que tínhamos orgulho. 

Restauramos o Tostão com muita dificuldade,  temos uma colaboração incrível do Ernani Heffner, que é o conservador da Cinemateca do MAM, junto com a equipe da Labocine, da Sílvia, e com a Rob Filmes também, que restaura toda a parte sonora do filme. A trilha é a primeira do Milton Nascimento e do Fernando Brant para o cinema, então tinha uma carga muito pesada de importância, não só da trilha, mas, enfim, de alguns recursos, posicionamentos de câmera, som direto, captação via helicóptero, tinham várias coisas que davam ao filme uma defesa muito boa, ele foi precursor de algumas coisas que, para nós, era importante também. A gente indo para Milão, recebendo uma Menção Honrosa no FICTS, que é uma Federação Internacional de Cinema de Esportes, pela restauração do Tostão. Eu acho que foi um dos momentos mais emocionantes para nós nessa história e poder, enfim, fazer com que o filme tivesse o seu momento, que não teve, infelizmente, no início de 1970. A gente queria que ele tivesse um outro final, um final mais feliz.

O Curta Circuito tem vários momentos, o Nelson Pereira dos Santos foi uma sessão incrível. O Zé do Caixão também, o Mojica (José Mojica Marins), ele ficou com a gente uns três, quatro dias, então foi um processo muito lindo e muito incrível, depois viramos amigos dele, construímos esse laço. Teve também o Nelson Xavier, com o Rainha Diaba, que foi uma das sessões mais lindas do Curta Circuito, uma das sessões que eu adoro de paixão. O Nelson ficou um tempo aqui com a gente, então é tão bom quando o convidado fica mais tempo, porque aí podemos conhecer, e o Nelson é uma figura encantadora. Veio ele e a Via Negromonte, que era a esposa dele, duas pessoas incríveis, foi um momento mágico.

Outro momento é quando somos selecionados  pelo Brasil Design Awards e ganhamos um prêmio,  na categoria Design Informativo Prata, pelas peças gráficas do Ciclo do Cinema Popular , que fizemos  com um grupo daqui de Belo Horizonte e tem esse trabalho reconhecido. É  importante dizer também que o Curta Circuito tem essa preocupação gráfica, muito de mim e do Claudio, o Claudio é formado em Belas Artes, e era uma coisa que eu sempre procurei no Curta Circuito, essa evolução gráfica. Belo Horizonte tem um celeiro incrível de mentes criativas e maravilhosas e poder fazer parceria com ilustradores, artistas, com o cenário cultural de Belo Horizonte, que é muito rico, então para nós é um prazer enorme. 
 
MCB: Você integra duas empresas, a Le Petit e a Frutilla Filmes. Poderia falar sobre a atuação delas? 
 
DF: Eu tenho a Le Petit, que esse ano fez dez anos, e, recentemente, há uns quatro anos, eu tenho a Frutilla Filmes. Basicamente, eu montei essa duas empresas para pegarem nichos específicos, então a Le Petit ela fica com a parte de difusão, com a parte de exibição, com as mostras de cinema, e com as partes gráficas também. Porque as nossas peças tiveram uma receptividade muito grande, a gente começou a fazer peças gráficas para outros festivais,  fizemos, durante uns oito anos, as peças gráficas do Cinefoot, a gente fez a elaboração da linha editorial do Cinefoot, a última foi no ano passado. Nós já fomos convidados para fazer o  Imagem dos Povos também. Então a Le Petit fica um pouco nessa linha editorial e nessa linha de festivais. A Frutilla Filmes veio de um desejo, depois da política a gente quer produzir também, momento em que o Brasil estava bem efervescente, estava com feiras, mercados, então estava bem movimentado no setor aqui em BH. Então tinha projetos de programa para TV, de série, e aí resolvemos criar a Frutilla para ficar com esses projetos de TV, essas séries, os documentários. Então dividimos essas empresas, cada uma  com sua proposta e seu propósito.  
 
MCB: Tostão, a Fera de Ouro, do Ricardo Gomes Leite e Paulo Laender, foi restaurado por projeto seu. Por que o filme está fora de circulação? Quais outros filmes foram contemplados nesse projeto de restauro ou de remasterização? 
 
DF: O Tostão foi um momento especial para a gente, mas um momento também de muito desconforto. Eu me lembro que o Geraldo Veloso falava assim “Vocês não vão conseguir. Porque o Tostão tem vários produtores, vai ser um trabalho terrível que vocês não vão dar conta”. O não dar conta eu já não tenho essa palavra no meu vocabulário, então vamos tentar, tentamos e conseguimos, conseguimos a verba direto, o apoio dos nossos parceiros da Cinemateca do MAM, da Labocine e da Rob Filmes. Então começamos a restaurar e depois, com a restauração, a gente recebeu esse prêmio em Milão. Logo em seguida, o detentor, que é o irmão de um dos diretores, do Ricardo Gomes Leite, ele meio que delimita sessões do filme. A gente tinha a proposta de restaurar o filme, mas fazer duas cópias, uma para preservação e a outra para a difusão, que era, exatamente, para o filme ter a visibilidade que ele não teve e que ele merecia ter em momento tão propicio, em que os astros estavam ligados. Era a questão da Copa do Mundo,  estava todo mundo olhando para o Brasil,  era uma visibilidade, uma estratégia que a gente tinha planejado. 

A gente tomou um banho de água fria e ele acaba nos restringindo de exibir o filme, ele foi exibido em um Curta Circuito e em Milão, depois recebemos convites de vários outros festivais, Beijing, Berlim, e todos eles são negados pelo detentor, que conseguiu reunir todos os produtores e ter, enfim, o filme na mão. O que deixa a gente triste é que a preservação é feita, mas a circulação é quebrada, então preservar para ficar na gaveta e não exibir,  não difundir, isso é bem terrível para nós. Então foi isso, a gente não se fala mais, é uma parte de muito orgulho na minha carreira, de ter feito, de preocupação com o resgate do cinema nacional, mas, infelizmente, tem gente com a cabeça ainda muito, muito pequena, né, então vamos esperar. Eu acho que o filme não é maldito como algumas pessoas falam, eu acho que uma dia ele vai ter a vez dele, enfim, a visibilidade que ele merece. Temos a certeza que, pelo menos, daqui há cem anos, vai estar ali preservado, resguardado, e isso para a gente acalma, acalenta um pouco o coração. 
 
A gente também consegue verba para restaurar o Rebelião em Vila Rica, só que diferente do Tostão, que estava na Cinemateca do MAM, a do Rebelião em Vila Rica estava na Cinemateca Brasileira. Infelizmente, naquele momento tinha acabado de ter uma crise da Cinemateca, na Associação dos Amigos da Cinemateca, e são revistos vários contratos. Um deles era o bloco da Vera Cruz em que os filmes estavam, no pacote da Vera Cruz. Então não existia possibilidade alguma de a gente mexer no filme, estava se passando por questões contratuais, e aquele acervo ficou trancado, um acervo que ninguém mexe, ninguém exibe. Tivemos que devolver esse dinheiro, nós tentamos todos os recursos possíveis, mas aí a gente perde por esse momento tão delicado da Cinemateca, que culmina agora nesse ano com o fechamento dela. Enfim, a gente vendo a nossa história sendo queimada e é muito triste isso. Eu acho que a ABPA, Associação Brasileira de Preservação Audiovisual,  tem uma importância fundamental nesse sentido de tentar resguardar, sabemos que o CTAV também está com problema, então enfim, são lutas por várias frentes. 
 
MCB: Você também tem projetos sobre cinema e futebol e cinema e gastronomia. Gostaria que falasse a respeito. 
 
DF: Eu estou há 17 anos no Curta Circuito e trabalhei durante oito anos no Cinefoot, junto com o Antônio Leal, que é um parceiro incrível do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, a gente quebra um pouco essa questão do machismo no meio do futebol, que é um meio muito machista, mas, que agora, enfim, com os anos, a gente tem conquistado o nosso espaço. Então poder realizar um Festival de Cinema de Futebol aqui sendo mulher foi um privilégio, terminou no ano passado. Eu fiz um trabalho lindo, que era sobre a memória do futebol feminino na cidade, em Belo Horizonte. Então eu crio o Cinefoot Mulheres junto com o Antônio, eu faço esse especial dedicado ao futebol feminino em Belo Horizonte e encontro mulheres incríveis, parceiras incríveis. enfim, eu acho que eu saio bem do Cinefoot, deixando a minha cota feminina. Enfim, todo meu trabalho para essa equipe muito legal do Cinefoot e o Antônio Leal, um parceiro incrível. 
 
Eu sempre tive vontade de fazer Festival de Cinema e Comida, eu falava assim “Minas Gerais tem tanto essa coisa da comida, né? A comida mineira.” Eu não entendia porque não existia um festival de cinema e comida. Eu conheço o Guilherme Lobão, um curador de Brasília, que é da Abraccine, Associação Brasileira de Críticos Cinematográficos, e ele é também um especialista em comida, em gastronomia. Eu crio com o Claudio o “Matula”,  que vem de uma coisa muito forte na minha vida, muito da minha memória emotiva.. Eu fiquei um ano isolada, eu sou diabética, e eu fiquei trancada sozinha em casa durante um ano. Esse processo foi muito doloroso e eu me lembro que toda vez que o Claudio vinha me visitar e trazia as coisas para mim, ele trazia comida, e a comida era uma forma de afeto, de dizer “Olha, tem uma comida boa para você”. Por ser diabética, eu tenho várias restrições alimentares e aí a comida veio como um acalanto. E acho que era uma forma também de homenagear a vovó, a minha vó Ivone, mãe da mamãe, ela não está mais aqui, ela faleceu tem uns três anos. 

A vovó era de Pompeu, região ali de Guimarães Rosa também, e ela falava muito esse dialeto de Guimarães Rosa. Quando a gente estava doente, a vó falava assim “Vou mandar uma matulinha para você”. E aí vinha aquela matulinha na marmita de metal e embrulhada em um pano de prato. Aí me veio essa coisa na cabeça assim, "Vou fazer o “Matula” em homenagem à vovó". E era um momento de cura também, eu estava passando por um problema de saúde, depois de tanto tempo isolada, e era, ao mesmo tempo, em que eu estava curando as minhas feridas. Foi surpreendente a boa recepção que as pessoas tiveram do “Matula”, eu não esperava que ele fosse tão bem quisto assim. E que bom que ele foi, né, porque é um pouco de afeto em um momento tão difícil da vida da gente, tão solitário e tão pesado, era uma forma de suavizar. Criamos uma linha editorial muito tranquila, um site que fosse tranquilo, teve as pesquisas com o Guilherme Lobão, as oficinas, as palestras, e tudo fazia uma lógica de cinema e comida, de afeto, então foi um prazer. Eu tenho muita sorte em escolher curador, porque eu tenho o “Matula” com o Guilherme Lobão, e a Andrea Ormond comigo no Curta Circuito,  já há cinco anos. 

A Andrea sempre foi uma inspiração para mim, na época em que a gente começava a fazer os cadernos de críticas sempre tinha uma referência dela, do blog “Estranho Encontro”, que eu amo de paixão. Enfim, eu acho ela a mulher incrível do cinema, da crítica do cinema brasileiro, como pesquisadora, então ter ela como curadora também é um sonho e é uma parceria incrível também, a gente tem rendido bons Curtas Circuitos, boas temporadas, esse toque feminino para a gente é muito importante. Encontrar parceiros que nos ajudem a colocar coisas novas, a propor coisas novas. Eu acredito muito que o “Curta Circuito” e o “Matula” são projetos de equipe, não são projetos de uma pessoa só, é de um grupo que se dedica, que gosta do que faz, que tem afeto, então eu tenho muita sorte. 
 
MCB: Voltando à Curta Circuito. Nas últimas edições, o projeto agregou a Andrea Ormond, crítica, pesquisadora e escritora de grande destaque no país. Assim como também o escritor e pesquisador Carlos Ormond. Como se deu essa parceria? 
 
DF: Quando o Cláudio sai da coordenação do Curto Circuito e eu passo pra ser diretora, no nosso aniversário, na décima quinta edição. Precisava ter uma oxigenada, então eu vou para a diretoria, o Cláudio fica comigo na produção executiva, que é uma área importante para ele e para mim também, que ele esteja nessa área. E aí eu sinto a necessidade de ter na curadoria uma voz feminina. Eu já era fã da Andrea e do Carlos, dos textos, enfim, dos livros, a gente já tinha se encontrado antes em São Paulo, quando nós fizemos o Curta Circuito lá e ela foi. Foi lindo o debate, foi incrível ver aquela mulher, aquela pesquisadora, aquele conhecimento sobre cinema brasileiro, aquilo foi lindo. Um dia, estava no Rio, eu e o Cláudio, e nós os chamamos para almoçarem conosco e eu fiz a proposta “Olha, eu não vejo o Curta Circuito com uma curadoria que não seja sua, você topa entrar na minha equipe?” Ela topou, para minha sorte e minha alegria, é uma honra ter a Andrea e o Carlos, tudo o que eles fazem pelo cinema nacional, é um prazer enorme e um orgulho enorme. A gente sempre gosta de falar para os estudantes, têm poucas pessoas que ainda trabalham com a questão da memória do cinema brasileiro, memória crítica, e a Andrea é uma delas, o blog dela é uma preciosidade sobre a filmografia brasileira, sobre a crítica, então é muito orgulho, fico muito feliz dos dois,  temos uma sintonia ótima.  
 
MCB: Como se dá a escolha dos temas das edições da Curta Circuito? 
 
DF: A gente costuma se reunir duas vezes ao ano para pensar em temporadas, então, às vezes, pensamos em três anos de temporadas e aí já fechamos a temática. A desse ano, da música, ela já vem de um trabalho e de uma proposta da Andrea e do  Carlos desde 2018. Então já tinhamos o “Violência no cinema brasileiro”,  aí veio o “Fé, Magia e Mistério”, e o “Musica”. “Música” foi importante porque a gente veio de um momento energeticamente bem pesado, o “Fé, Magia e Mistério” veio lindamente nesse ciclo e nesse momento que  a gente virou de cabeça para baixo com a pandemia. Tivemos que reconfigurar todo o festival, toda a mostra, então a gente virou do avesso. É bom  que quando viramos do avesso  a gente descobre que pode ser o lado certo, e deu super certo também essa questão do on-line, foi muito feliz nesse processo também. É um processo mais dolorido,  mas foi um processo bem criativo e bem forte. 

Vínhamos de duas curadorias com uma carga emocional muito forte, que foram o “Violência” e o “Fé”, a gente precisava de ter um momento também em que pudéssemos dar uma respirada, ter também um momento de leveza dos temas. Não é o Curta Circuito de música, são histórias de músicas, são personagens, e a Andrea e o Carlos foram muito felizes nessa construção da curadoria. Tem essa experiência com uma parceria que a gente fez com o Musimagem, que é a Associação Brasileira de Compositores de Músicas para Audiovisual, A gente também traz um outro olhar, nós trabalhamos muito o olhar crítico com os nossos cadernos, enfim, com os nossos posicionamentos,  mas queriamos também a visão dos compositores, então  pensamos nessa parceria, que os debates seriam mais ricos se tivessem esse olhar do compositor, uma pessoa que veio para fazer a música do filme, a concepção musical do filme. Foram  bate papos incríveis, que vocês poderão ver durante essa edição, com quatro musimágicos super  importantes. A gente constrói esse debate de uma forma bem suave e, ao mesmo tempo,  temos um olhar crítico sobre a obra audiovisual. Foi uma parceria muito legal do Curta Circuito com o Festival Musimagem, a gente adora fazer parcerias, acreditamos muito no poder do coletivo, a gente acha que pode crescer junto, não tem nenhum tipo de competição, é um agregando e um dando valor para o outro, enfim, crescendo juntos.   
 
MCB: Para terminar as duas únicas perguntas fixas do site. A primeira: Qual o último filme brasileiro a que você assistiu? 
 
DFA: O último filme que eu vi, na verdade eu revi de novo, foi  Bete Balanço, do Lael Rodrigues, eu adoro Bete Balanço, foi tão bom rever esses filmes. Eu acho que quando a gente propõe essa revisitação à filmografia brasileira, a gente tem tantos momentos incríveis, de memória, a oportunidade de ter acesso de novo a essas obras é incrível. Eu adoro a Débora Bloch, ela é a Bete Balanço, ela mergulha,  ela canta, ela dança, ela interpreta,  eu acho incrível. Então foi ótimo rever o filme, escrito também por uma roteirista mulher, enfim, é um filmaço.

MCB: Por fim, qual mulher do cinema brasileiro, de qualquer época e de qualquer área, você deixa registrada na sua entrevista como uma homenagem e o porquê? 
 
DFA: É difícil pensar em uma mulher, porque foram tantas mulheres fazendo parte da minha vida no audiovisual e que foram tão importantes para mim. Eu penso em três nomes, três mulheres que eu acho que foram os pilares da minha formação, de quem eu sou hoje. Me lembro, muito no início, da Dona Edna Fuji, dos congressos de cinema, Congresso CBC, Congresso Brasileiro de Cinema. A força dela, e a força política também, o quanto ela foi solidária, associativista, ajudando um monte de gente, enfim, prestando esse serviço para a comunidade audiovisual. Então eu tenho um olhar muito, muito querido para a Dona Edna Fuji, que fez parte também dessa minha essência, desse trabalho do coletivo. Outra mulher é a Solange Lima, baiana arretada, eu aprendi muito com ela na parte política. A Solange é uma mulher guerreira, batalhadora, uma produtora do audiovisual, uma mulher extremamente política, as costuras que ela fazia, na defesa de leis, indo para os congressos, conversando com os congressistas, enfim, essa parte política, mas  que não é só política do audiovisual mas política em si, de você ir para o congresso, de você ir para a assembleia,  é importante na minha trajetória. Tinha me esquecido de dizer, mas um  momento importante é quando a gente aprova a Lei do Audiovisual, em que nós fomos uma das redatoras da Lei e principais articuladoras e influenciadoras dentro da Assembleia Legislativa. Ninguém acreditava que iria sair em tempo recorde, tínhamos três meses para aprovar uma lei e passar por todas as instâncias, todas as comissões, as votações de dois turnos, e aí temos todos os votos. Em 2018, a gente acredita que aquele momento é um marco fundamental para o audiovisual mineiro, é uma conquista muito forte nossa e vejo muito de mim em Solange. Porque a Solange ia para os Congressos, articulava com os ministros, pegava algumas emendas para ajudar no audiovisual. Eu venho desse trabalho de construção dentro da Assembleia, eu me via muito da Solange assim, do espelho dela.

E por último,  a mulher que mais me influenciou, eu fico com a voz embargada, que é a Débora Ivanov,  para mim é uma honra poder conviver com ela, poder ser amiga e trabalhar com ela. Conheci Debora quando ela era  produtora ainda, antes de entrar para a Ancine. Faço parte de uma associação, ela não é regulamentada, mas é uma associação forte das mulheres do audiovisual, a Débora concebeu, idealizou.  A gente tomou a frente em São Paulo, na Mostra de Cinema de São Paulo, no Fórum das Lideranças Femininas do Audiovisual. Foi uma explosão incrível de mulheres incríveis em um momento em que precisávamos de estar muito unidas, de saber que a gente não estava sozinha, esse Fórum foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida. Hoje, a gente brinca e fala que ela é nossa mãe, porque ela é guerreira, ela é batalhadora.
 
Essas três mulheres fizeram um pilar da minha linha política do audiovisual e a luta pelo coletivo, então essas três mulheres nunca me deixaram esquecer que existe o coletivo, que existe um bem comum e essa luta pelo coletivo. Essas três mulheres são muito representativas para mim. Muito se fala das atrizes, muito se fala das diretoras, mas pouco se fala das mulheres na política, né, e como essas mulheres são fundamentais na construção de políticas públicas, nesse trabalho e nessa defesa pelo coletivo, então muitas delas ficam no limbo. A gente é importante também, não deixa de ser mulheres do cinema porque a gente é da política, enfim, eu acho que fazemos parte de um conjunto importante, de luta e guerrilha mesmo. A política é dura, mas ela é fundamental para que a gente exista, enfim, saber que não se está sozinho, essa parte do coletivo é uma parte que me emociona muito.  

MCB: Muito obrigado pela entrevista.
 
 
Entrevista realizada por whatsapp no dia 13 de outubro de 2021.
Foto: valwander fotografias
 

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Sala 
 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.