Ano 17

Soia Lira

Maria Auxiliadora Lira de Souza nasceu em Cajazeiras, Paraíba, no dia 6 de março de 1962. Mas foi como Soia Lira que ela se tornou uma das mais aclamadas atrizes de seu estado e com projeção nacional. Quem a viu no teatro em "Vau da Sarapalha", do Grupo Piollin, com direção de Luiz Carlos Vasconcelos, jamais se esqueceu de sua interpretação arrebatadora - e foram plateias de várias cidades brasileiras e também da Espanha, Alemanha, Inglaterra, Portugal e, Bélgica: "eu não tinha noção de que esse espetáculo e também o meu personagem fariam esse grande sucesso. Depois que a gente estreou em João Pessoa, a primeira vez que saímos com o “Vau” foi para o Festival de São José de Rio Preto, no interior de São Paulo. E ganhamos todos os prêmios, porque na época o festival tinha premiação para Melhor Ator, Melhor Atriz, e o espetáculo arrebatou todos os prêmios - Melhor Direção, Melhor Espetáculo. Eu ganhei Melhor Atriz Coadjuvante, porque no espetáculo eu não sou a atriz principal. E voltamos para João Pessoa com esses prêmios todos, e aí começou aquele bochicho de que o espetáculo era muito bom e entramos em cartaz em João Pessoa com a casa lotada. Porque antes de viajar a gente ficou em cartaz durante dois meses e não dava ninguém no teatro. A gente apresentava para duas pessoas".

Soia Lira começou a carreira artística no teatro ainda criança, ao lado dos irmãos Buda Lira, Nanego Lira e Bertrand Lira, "Eu comecei a fazer teatro lá, em Cajazeiras, nessa cidadezinha, desde criança e com outras pessoas da minha idade.  A gente começou a brincar, era como se fosse uma brincadeira, a gente não tinha uma pretensão que isso poderia chegar onde chegou". O encontro com o ator e diretor Luiz Carlos Vasconcelos foi fundamental: "O Luiz Carlos começou a fazer um trabalho com a gente, ele ficou tão fascinado, porque eram crianças fazendo espetáculo para adulto, e a gente tinha uma garra tão grande que ele ficou admirado".

Duas décadas depois, com o espaço no teatro já consquistado, foi a vez de Soia Lira ser projetada também no cinema como Ana, a mãe de Josué (Vinícius Oliveira), em "Central do Brasil", de Walter Salles: "Eu me lembro que quando eu cheguei lá eu era a Ana mesmo, porque eu cheguei tão acanhada. Eu já tinha mais de 20 anos de teatro, mas mesmo assim eu fui sem acreditar que eu ia trabalhar com a Fernanda Montenegro. Era um sonho, que eu não acreditava, mas que ao mesmo tempo, eu falava, “não, mas eu faço teatro, eu vivo isso”. E quando você chega perto dessas pessoas, porque você tem uma imagem pela televisão que invade sua casa, você vê que são pessoas como você, os mesmos medos, as inseguranças".

Durante o final de setembro e início de outubro, Soia Lira esteve em BH, onde seu grupo, o Piollin, apresentou o espetáculo "A Gaivota - Alguns Rascunhos", dirigido por Haroldo Rego, e também para um intercâmbio com. a Cia Clara de Teatro, de Belo Horizonte.

A atriz conversou com o Mulheres no pátio do Palácio das Artes e a entrevista só é publicada agora (um mês e meio depois) porque o site está passando por mudanças estruturais. Durante a ótima conversa, Soia Lira falou sobre os primeiros tempos no teatro, no Grupo Mickey e depois Grupo Terra, do Piollin, e do fenômeno "Vau da Sarapalha". Fala também dos trabalhos no cinema e de diretores como Luiz Fernando Carvalho e Walter Salles, e de filmes como "Central do Brasil" e "O Quinze".



Mulheres do Cinema Brasileiro: Você começou sua carreira artística no teatro, ainda em Cajazeiras. Como foi esse começo?

Soia Lira: Eu comecei a fazer teatro lá, em Cajazeiras, nessa cidadezinha, desde criança e com outras pessoas da minha idade.  A gente começou a brincar, era como se fosse uma brincadeira, a gente não tinha uma pretensão que isso poderia chegar onde chegou. Eram doze crianças, uma faixa etária de oito a 13 anos,  e a gente começou a brincar de fazer teatro no quintal da casa de Eliezer Rolim, que era o diretor do grupo na época. Ele passou um tempo fora estudando em uma cidade vizinha, porque era um colégio interno e ele estudava lá, e aí quando voltou para Cajazeiras ele formou esse grupo. E era assim, a gente não fazia só teatro, a gente dublava música, era época do Silvio Brito, Marcélia Cartaxo era quem dublava. A gente fazia uma mistura de dança com teatro, a gente nem sabia o que era teatro, a gente falava  drama, não tinha bem essa coisa de teatro na cabeça da gente.

A minha influência foi dos meus irmãos, o Buda Lira e Nanego Lira, e outro irmão, Bertrand Lira, que faziam “A Paixão de Cristo”, que era o grande evento da época em Cajazeiras.  Era o grande teatro, representar a história de Cristo na Semana Santa. E eu, criança, assistia aquilo. Para mim era um grande espetáculo, era na rua, ao ar livre, e essa influência foi indo, foi indo, e a gente acabou formando esse grupo de jovens. O que a gente fazia era a trajetória de vidas reais, todo ano chegava um bando de ciganos na cidade, e a gente ia pesquisar, ia visitar esses ciganos que ficavam na periferia. Daí a gente  começava a escrever sobre a história desses ciganos. Então botava no papel e do papel no palco. E sempre tinha um cabeça que era o Eliezer, que escrevia os textos. A gente falava sobre a seca, pegava uma música de Luiz Gonzaga, “A Triste Partida”, e escrevia e fazia uma peça de teatro.

Então isso foi indo e o grupo, na época, chamava-se Grupo Mickey porque a gente via muito aquelas histórias, Mickey, Tio Patinhas. Eu me lembro que numa época tinha um festival lá em Cajazeiras, que era o Festival Universitário, e Luiz Carlos (Vasconcelos) foi dar um curso lá.

Mulheres: Isso foi quando?

Soia Lira: Isso foi em 1976.

Mulheres: Esse período que você relatou antes do Luiz Carlos entrar em cena foi que época?

Soia Lira: Quando a gente começou a fazer teatro foi em 1973, por aí. Quando a gente conheceu o Luiz Carlos foi em 1976. Ele foi a Cajazeiras, onde tinha um grande festival, que era o Festival Universitário, e ele foi dar um curso. Só que a gente não podia assistir, quem foi é o diretor, o Eliezer. Ele foi fazer esse curso de uma semana e falou para o Luiz Carlos sobre a gente, e ele disse que queria “conhecer esses meninos”. E acabou vindo no outro dia. O Luiz Carlos começou a fazer um trabalho com a gente, ele ficou tão fascinado, porque eram crianças fazendo espetáculo para adulto, e a gente tinha uma garra tão grande que ele ficou admirado. Ele não acreditou e correu para outra sala para chamar outro diretor, que na época era o Fernando Teixeira, que é um dos grandes diretores da Paraíba, para presenciar aqueles meninos fazendo aquela coisa grandiosa.

Depois de ganhar um prêmio de Melhor Ator em um festival na Bahia ele voltou para João Pessoa, onde criou um festival infantil. Eu me lembro que nós fomos à João Pessoa durante cinco anos, todo ano tinha esse festival. A gente participava e todo ano a gente levava um espetáculo, montava e levava. E aí a gente começou a amadurecer, já estávamos com 13, 18, 19 anos. E a gente mudou de Grupo Mickey para Grupo Terra.

Eu me lembro que o Luiz Carlos perguntou “mas o que vocês querem, é teatro?” Porque a gente fazia mil coisas, não era só um espetáculo. Aí a gente começou a tomar consciência do que gente fazia. Eu me lembro que ele dizia assim “vocês tem o mesmo procedimento de Eugênio Barba, que Grotowski faz”, e a gente não sabia, não conhecia, na época a gente não estudava, não tinha noção de quem eram esses grandes mestres. A gente morava no interior, estudava ainda em colégio, mas aí a gente começou a tomar consciência. E foi aí que nesses festivais, que a gente ia todo ano, que a gente começou a tomar consciência da responsabilidade do que a gente tinha em mão.

Eu me lembro que depois de Cajazeiras e João Pessoa, a gente começou a viajar para fora da Paraíba.

Mulheres: Dá para você citar os nomes de alguns dos espetáculos dessa fase?

Soia Lira: No Mickey a gente teve “O Bando de Ciganos”, “A Seca”, “A Procura da Flor Verde”, que eram todos textos da gente, era coletivo. O Eliezer escrevia, mas era um texto coletivo. A gente fazia também espetáculo de rua, a gente levava para a periferia. Depois, no Grupo Terra, a gente levou para os festivais  “O Beiço de Estrada” e “Os Pirralhos”, aí a gente já estava mais maduro e mudou de Grupo Mickey para Grupo Terra.

Mulheres: “O Beiço de Estrada” já é direção do Luiz Carlos?

Soia Lira: Não, era de Eliezer. Só que quando a gente ia para esses festivais juntavam vários grupos do interior, tinha gente de Pombal, Souza, Patos, da faixa etária da gente. Eu me lembro que o Luiz Carlos invadiu um mosteiro que tem lá em João Pessoa, uma igreja do século passado, e a gente se hospedava lá. Era ele, Everaldo (Pontes), Buda já morava em João Pessoa, tinha outros diretores, esses professores davam aula para a gente. Luiz Carlos assistia aos espetáculos que a gente levava e dava uns toques no que podia melhorar o trabalho. Eu me lembro que, na época, no Inacen, Instituto de Artes Cênicas, tinha um cara que veio do Rio de Janeiro, o Marcelo. Ele foi para a Paraíba, assistiu “O Beiço de Estrada” e adorou. O Inacen fazia um circuito em cada região e fazia um intercâmbio, e daí os espetáculos daqui do sudeste iam para o nordeste e a gente vinha para cá, Rio e São Paulo. Eu me lembro que a primeira vez, a gente tinha 19, 20 anos, e viemos para São Paulo, Rio, Curitiba, e o espetáculo foi o maior sucesso.

A crítica em São Paulo fez o maior elogio ao espetáculo e foi aí que a Suzana Amaral viu a Marcélia Cartaxo e a convidou para fazer “A Hora da Estrela”. Eu me lembro que a gente veio aqui para Minas, em Ouro Preto, com esse espetáculo, “Beiço de Estrada”. E depois teve “Até Amanhã”, que foi o último espetáculo que o grupo fez, já tem 12 anos isso.  E foi aí que Marcélia saiu do grupo. Teve uma confusão, a gente era tão inocente, porque a gente achava que Marcélia teria que trazer a gente para o sul. Marcélia ganhou o prêmio em Berlim, aquela confusão toda, e o grupo se desfez.

Eu voltei para Cajazeiras. Eliezer ficou em São Paulo, outras pessoas foram para João Pessoa. Meus irmãos Nanego, Buda e Bertrand já ficaram em João Pessoa. Eu me casei e passei  cinco anos sem estar nos palcos.  Eu tinha 22 anos na época. Eu sofri muito, toda vez que ia ver um espetáculo eu chorava, ficava emocionada, porque queria  estar ali naquele tablado, representando. Depois de um tempo, o Luiz Carlos foi embora para o Rio, e aí voltou com a idéia de montar “Vau da Sarapalha”. Eu me lembro que já estava com um filho de dois anos e meio e ele chegou e disse, “Soia, estou com um espetáculo legal, vamos montar?” E eu disse “mas eu estou casada, estou com filho, estou morando no interior”, e ele “ah, vamos montar esse trabalho.” E acabou que eu fiquei em João Pessoa.

Mulheres: E aí já como Grupo Piollin?

Soia Lira: Já Grupo Piollin. O Grupo Terra se desfez depois de cinco anos, e Luiz Carlos voltou para João Pessoa para montar “Vau da Sarapalha”. Então pegou essa geração, eu, Nanego, Everaldo, Servilio de Holanda.

Mulheres: Tinha o Escurinho também.

Soia Lira: Sim, o Escurinho era músico, lá de João Pessoa. Ele convidou Escurinho para fazer a música, que é ao vivo. E aí eu acabei ficando em João Pessoa e com isso o casamento se foi, né (risos). Eu nem sabia que “Vau” ia ser esse boom.

Mulheres: Isso foi quando?

Soia Lira: Foi em 1992. A estréia foi em 27 de março de 92.

Mulheres: “O Vau da Sarapalha” é uma marca registrada do Piollin e, inclusive, projetou os atores nacionalmente. Você fez muito sucesso. Eu sei que o Walter Salles te convidou para o “Central do Brasil” (1998) porque ele te viu no espetáculo, não é? Eu gostaria que você falasse um pouco mais sobre esse trabalho nos palcos.

Soia Lira: Como disse, eu não tinha noção de que esse espetáculo e também o meu personagem fariam esse grande sucesso. Depois que a gente estreou em João Pessoa, a primeira vez que saímos com o “Vau” foi para o Festival de São José de Rio Preto, no interior de São Paulo. E ganhamos todos os prêmios, porque na época o festival tinha premiação para Melhor Ator, Melhor Atriz, e o espetáculo arrebatou todos os prêmios - Melhor Direção, Melhor Espetáculo. Eu ganhei Melhor Atriz Coadjuvante, porque no espetáculo eu não sou a atriz principal. E voltamos para João Pessoa com esses prêmios todos, e aí começou aquele bochicho de que o espetáculo era muito bom e entramos em cartaz em João Pessoa com a casa lotada. Porque antes de viajar a gente ficou em cartaz durante dois meses e não dava ninguém no teatro. A gente apresentava para duas pessoas. Depois desse sucesso, o teatro ficou lotado, a gente inaugurou um espaço que tem lá no Piollin, fizemos um galpão e estreamos o espetáculo lá.

Depois fomos para Brasília e foi um mês de casa lotada, ficamos no Teatro Garagem. Começou um bochicho nos jornais, aquela coisa toda. E aí fomos para o Rio, ficamos dois meses, e no Rio a Bárbara Heliodora fez altos elogios, e daí é que vieram os grandes diretores para ver, o Luiz Fernando Carvalho. O Walter não tinha assistido nessa época.

O primeiro trabalho que eu fiz foi para a televisão. O Luiz Fernando Carvalho viu “O Vau da Sarapalha” e me convidou para fazer “A Mulher Vestida de Sol”, de Ariano Suassuna. Na época era uma Terça Nobre, foi meu primeiro trabalho na televisão.  Eu acho que isso foi em 1994. Aí o “Vau” começou a viajar, a gente passou muito tempo fora viajando pelo Brasil, depois fomos convidados para um festival na Espanha, em Katze, e de lá fomos para Granada, Madrid. Depois fomos para Alemanha, Argentina, Portugal, Inglaterra, Bélgica. Viajamos bastante para outros países.

Eu lembro que um dia o Walter Salles foi à João Pessoa e a gente fez um ensaio para ele e o assistente dele, o Sérgio Machado, para a gente fazer um teste para o filme, o “Central do Brasil”. Eu fiz o teste e passei.

Mulheres: O teste foi o “Vau”?

Soia Lira: Não, ele assistiu o “Vau”, e depois eu fiz o teste. Com quinze dias eu passei e depois de dois meses eu fui para o Rio para fazer o “Central do Brasil”.

Mulheres: Mas antes do “Central do Brasil”, o seu primeiro longa foi o com a Jussara Queiróz, ”A Árvore de Marcação” (1995), não é?

Soia Lira: Eu me lembro que Marcélia morava em São Paulo, e Jussara Queiróz, que é do Rio Grande do Norte, morava no Rio. Ela estudava cinema e o primeiro filme dela foi o “Árvore de Marcação”, que ela foi fazer lá no interior do Paraíba. Foi a minha primeira experiência, eu não sabia nada da linguagem do cinema, eu não entendia o que era o cinema. Eu me lembro que eu fazia a louca da cidade, era uma vilazinha, e eu fazia muito teatral. Ela dizia “não é teatro”, só dizia isso, e eu não sabia, e ela não explicava o quê que não era teatro. Eu sofria, ela gritava “não é teatro, não é teatro”. Eu estava representando e no cinema você não precisa, você não representa.

Depois eu fui convidada para fazer outro filme, uma produção lá na Paraíba, que foi com o Marcus Vilar, que é um curta, “A Árvore da Miséria” (1998). Luiz Carlos era o assistente de direção. E aí eu fui entrando nessa linguagem do cinema, entendendo mais ou menos o que era. E o “Central do Brasil” já estava fazendo o maior sucesso. “A Árvore da Miséria” foi o terceiro filme, depois do “Central”. E teve essa experiência na televisão com o Luiz Fernando Carvalho, que tem uma linguagem bem teatral, a gente passou um mês ensaiando com ele. Ele queria realmente o teatro na televisão.

Mulheres: Que é foi o que ele fez depois com “A Pedra do Reino” (2007).

Soia Lira: Isso depois de muito tempo. Depois do filme do Marcus Vilar, eu fiz um outro curta lá em João Pessoa, que foi com o Eliezer, meu antigo diretor de infância, o “Eu Sou o Servo”, que é a história do padre Biapino, em um episódio que aconteceu no interior da Paraíba. Isso já foi um média, esse filme que ele fez. Esse foi a minha quarta experiência no cinema. Depois disso veio “O Quinze” (2004), de Rachel de Queiróz.

Mulheres: Antes de entrarmos em “O Quinze”, vamos recuperar o “Central do Brasil”, do Walter Salles, que foi o filme que te projetou nas telas.  Como foi o trabalho nesse filme?

Soia Lira: Eu tive que pesquisar um pouco, ver cinema, estudar um pouco a linguagem do cinema, e o Sérgio Machado, que era o assistente do Walter, ele foi me preenchendo, estudando comigo o personagem. Eu jamais imaginei que ia passar, porque ele não fez testes só na Paraíba, ele fez testes na Bahia, em Recife, em Fortaleza, muita gente fez esse teste porque foi muito divulgado. Eu tive esse privilégio dele ter me escolhido. Eu acredito que tem muito a ver também com o momento, o momento que você está. Na época em que fui fazer o teste eu estava em um momento muito bem na minha vida, então foi tão sereno o teste que eu fiz, foi tão legal. É tanto que Luiz Carlos acha que foi melhor o teste que a filmagem. Se bem que eu gosto muito.

Quando eu cheguei para as filmagens, assim meio assustada, jamais imaginava que eu estaria fazendo um filme de grande produção. Trabalhar com Walter Salles, Fernanda Montenegro, isso me deu um medo tão grande. Engraçado que quando a gente estava ensaiando, eu, ela e o Vinicius, teve uma hora que eles repetiam muito, repetiam muito a cena, e eu achava que eu não estava legal. E aí teve uma hora que eu caí no choro, e disse “não, deixa eu volta para a minha casa, eu não sei fazer isso não, chamem outra pessoa pra fazer” (risos). E o Walter “que isso Soia, tá ótimo, tá ótimo”. Porque esses diretores quando pegam eles sugam, né, eles espremem você até tirar a última. Eu me lembro no “Uma Mulher Vestida de Sol”, a gente ensaiando numa sala, o Luiz Fernando Carvalho ensaiando, ensaiando, repetindo a mesma cena, e quando a cena realmente ficou legal ele disse “é isso aí, a gora você chegou na Teresa”, que era o nome da minha personagem. Aí a gente vai entendendo realmente o que os diretores querem, não é só representar, você tem mesmo que ver, porque sou eu que estou ali, estou entregando o meu corpo, a minha alma, meus sentimentos, não tem que representar.

Mulheres: A personagem Ana  de “Central do Brasil” te permitiu dois momentos diferentes de registro no filme. Eu me lembro que em uma cena você dita uma carta raivosa e depois você retorna dizendo que gostaria de escrever outra carta, pois havia sido muito dura.

Soia Lira: A gente teve muito ensaio, eu viajava para o interior e levava o roteiro do filme e começava a viver. A Ana representa a mulher do nordeste, que sonha que o sul vai te dar uma vida melhor, e as coisas não são bem assim. Você pode sair com uma desilusão amorosa, como ela saiu, o marido bebia muito, ela apanhava do cara, e ela acabou tendo que ir embora grávida. E num lugar desses você acaba como uma empregada doméstica.

E aí a gente vai prestando atenção na vida dos outros. Eu me lembro que quando eu cheguei lá eu era a Ana mesmo, porque eu cheguei tão acanhada. Eu já tinha mais de 20 anos de teatro, mas mesmo assim eu fui sem acreditar que eu ia trabalhar com a Fernanda Montenegro. Era um sonho, que eu não acreditava, mas que ao mesmo tempo, eu falava, “não, mas eu faço teatro, eu vivo isso”. E quando você chega perto dessas pessoas, porque você tem uma imagem pela televisão que invade sua casa, você vê que são pessoas como você, os mesmos medos, as inseguranças.

Eu me lembro que quando aconteceu esse episódio que eu chorei, que eu fiquei nervosa, porque estava repetindo, eu lembrava que no teatro você ensaia também meses e meses antes de estrear. Então o cinema tem essa coisa do ensaio Quando aconteceu essa coisa que me deu o pânico e o  Walter disse que eu estava ótima, eu vi que não era medo por não estar ótima, era insegurança daquele lugar que eu estava. Como eu vivo no teatro, eu vivo em grupo, e ali eu estava só, eu não tinha aquela base de Luiz Carlos, de Everaldo, de Nanego, eu estava realmente sozinha e com outras pessoas, eu estava com medo. Eu me lembro que fui para o hotel  e o Sérgio foi conversar comigo. Na realidade era tudo muito simples mesmo,  essa insegurança do ator.

Foi uma experiência incrível, a gente filmando dentre da estação. Eu me lembro que na cena do atropelamento, a gente filmou fora da Central, fora da estação, era um domingo. A cena foi tão bacana. Eles colocaram o ônibus parado e eu fiquei embaixo do ônibus. E aí tinha aquela multidão, os figurantes. E como era perto da favela, todo mundo que vinha da rua não entendia nada e ficava brigando com o motorista. Eu lembro que eu já estava com a maquiagem de sangue, e um cara quis roubar a minha bolsa, mas não tinha nada na bolsa. Foi bem engraçado. E o pessoal da equipe preocupado com o que estava acontecendo.

Foi muito bom trabalhar com o Walter, uma pessoa muito generosa, super carinhoso. Foi maravilhoso, foi uma experiência muito boa, tanto que depois ele gravou o “Abril Despedaçado” (2001) e fez uma pequena  homenagem para nós, eu, a Socorro (Nobre), ao Vinícius (Oliveira). Ele fez uma pequena cena, é um velório de um menino, que é o Servilio (de Hollanda) que faz, onde estamos nós três. Foi muito bom ter encontrado com ele de novo e ter feito essa cena.

Depois eu fiz “O Quinze”.

Mulheres: Como é que foi essa produção?

Soia Lira: Eu estava no Rio fazendo o “Woyzec”, uma produção de Matheus Nasctergaele, foi uma parceria da Piollin com o Matheus. Eu já conhecia o Jurandir (de Oliveira), ele fez “A Árvore da Miséria” junto comigo. Na época, eu conheci Jurandir em João Pessoa. Ele foi lá ver a peça e me convidou para fazer “O Quinze”. Eu tinha acabado de fazer a temporada no Rio, aí voltei para João Pessoa, e com um mês fui para o Quixadá. Foi uma outra experiência, como eu já estava com a história do cinema, já entendendo mais, foi muito bom, passei dois meses no Quixadá. Para mim foi um orgulho muito grande fazer um dos personagens da obra de Rachel de Queiróz. O Jurandir fez a adaptação do livro e também atuou, além de ser o diretor e o produtor também, foi uma loucura (rs). Foi uma parceria muito legal, o filme ficou bonito, eu gosto muito do filme, uma obra de arte, eu guardo com muito carinho. Foi lançado em alguns festivais, a gente foi para Gramado com este filme. E fomos para o Cine Ceará, onde ganhei o prêmio de Melhor Atriz.

Mulheres: E como foi dar vida a esse personagem? “O Quinze” é um clássico da literatura brasileira e muito lido. Ele está muito no imaginário de várias gerações.

Soia Lira: Quando o Jurandir me chamou eu ainda não conhecia o livro, aí fui ler. Eu  me lembro que meu pai e minha mãe falavam muito da seca, porque nós somos do sertão, e eles passaram por uma seca, não a de 1915, mas acho que uma nos anos 60. Eles falavam muito sobre isso. Meu personagem é a Cordolina, a mulher que sai da fazenda com o marido e os quatro filhos e vão para Fortaleza a pé. E no meio do caminho eles vão perdendo os filhos, Foram dois meses de puro sofrimento, porque eu lembro que a gente acordava às quatro da manhã para sair à cinco para filmar, a gente chegava no set de filmagem e voltava à noite. E o personagem é muito sofrimento, ela  andava léguas e léguas para chegar, e vai perdendo os filhos. É uma magia a gente entrar nesse universo de Rachel de Queiróz, eu aprendi bastante com toda essa equipe, com essa história.

Mulheres: Você começou no cinema sem saber o que era aquela linguagem e tempos depois acaba ganhando um prêmio de Melhor Atriz de cinema. Como é isso para você?

Soia Lira: É, porque aí eu já estava mais madura. É algo novo, cada coisa que você faz é uma novidade, esse tempo todo que a gente vem trabalhando. E, todo trabalho que eu faço, quando acontece de eu ganhar um prêmio ou fazer sucesso, de ter um reconhecimento, isso é muito bom, é muito rico para mim como atriz.

Muheres: E o “Pedra do Reino”?

Soia Lira: A produção foi para o nordeste fazer testes, eles já tinham feito no Rio. Na verdade, eu não passei no teste, eles fecharam o elenco e eu acabei não entrando. Eu ia fazer um filme em Fortaleza, com o Petrus Cariry (“O Grão” - 2007), e estava tudo certo de eu fazer. E uma coisa importantea dizer é que o Petrus fez a obra dele pensando em uma atriz, e ele tinha pensado em mim E quando estava tudo certo o Luiz Fernando (Carvalho) me chama para fazer “A Pedra do Reino”. Eu lamentei muito em não fazer o filme, mas na verdade a televisão te pega um pouco Eu fui substituir uma atriz da Bahia, a Rita Assemany, que é uma puta de uma atriz de Salvador, mas que não agüentou o personagem porque tem um trabalho físico, ela não suportou, talvez pela idade.

Foi muito difícil para mim porque quando eu cheguei já tinha um mês que as pessoas estavam tendo um preparo, tinham três professores, fazendo trabalho físico. O Luiz Fernando já estava trabalhando com todo o elenco e eu tive que entrar  nesse processo, e entrei meio como um peixe fora d´água. Eu não conhecia o livro, comecei a ler, mas não deu tempo de ler tudo, só a minha participação. Não tive quase muito contato com o Luiz Fernando porque quando cheguei ele já tinha trabalhado com o pessoal durante um mês, eu trabalhei com uma preparadora, e me encontrei com ele nas filmagens. Mas eu já me sentia forte e dona do terreno. Porque é assim, você vai adquirindo experiências. É claro que cada trabalho é novo, é um desconhecido, mas é como se você tivesse propriedade daquilo, você não fraqueja mais.

Foi muito bom ter feito, a gente passou dois meses em Itaperuá. Ele fez um grande cenário, muito lindo, enorme, que está lá, como museu, uma equipe enorme. Que pena que não teve um respaldo na mídia e não é todo mundo que conhece Ariano Suassuna, que é uma leitura difícil. Que pena que não teve muita audiência, mas é muito lindo o que ele fez, o cenário, a luz, é tudo muito rico.

Mulheres: Voltando ao teatro. O país tem uma tradição de grupos, e agora o teatro de grupo voltou com toda a força. Como é manter-se em um grupo de teatro, e o Piollin já tem 32 anos, com todas as dificuldades.

Soia Lira. Eu acho assim, a Paraíba, atualmente, tem uma média de 12 grupos fixos, e a Piollin, de certa forma, incentivou esses grupos. É muito difícil manter, a gente faz porque gosta, porque tem prazer em fazer, é uma garra, todos dias você estar ali. A maioria no grupo não tem emprego fixo, a gente vive disso, a gente produz o tempo todo. Essas leis de incentivo estão ajudando os grupos a se formarem, isso está sendo muito bom, em todo o Brasil. Eu acho que qualquer grupo vai dizer a mesma coisa, é a força de vontade, é o querer, o gostar de fazer o que você gosta.

Eu amo a arte, é uma coisa que vem de infância, meus pais, principalmente meu pai, ele gostava de cinema. Cajazeiras  tinha várias salas de cinema, hoje em dia não tem nenhuma, mas ele ia sempre ao cinema com a minha mãe, ele era um boêmio, adorava fazer serenata. Então você tem essa intuição, mas também tem que ter essa vontade e o querer fazer. Não é fácil manter os grupos. Hoje em dia tem uma efervescência, eu acho que a Piollin é um grupo que, de certa forma, abriu caminho para esses grupos, para esses jovens que querem fazer teatro.

Mulheres: E agora, para terminar, vamos para as duas únicas perguntas fixas da entrevista. Qual foi o último filme brasileiro que você assistiu?

Soia Lira: Bom, o último filme brasileiro que assisti foi  “Estômago” (2007 – Marcos Jorge), que gosto muito, com o João Miguel, que é u puta ator, eu gosto muito.

Mulheres: E por último, qual mulher do cinema brasileiro, de qualquer época e área, que você quer homenagear aqui na sua entrevista?

Soia Lira: Olha eu sempre cito a Marcélia Cartaxo. Eu gosto e acho que é uma mulher guerreira, para mim é mulher nota dez, pela garra, pela vontade de furar o cerco de tudo. É muito difícil, ela está nessa batalha. Então para mim é Marcélia Cartaxo.

Mulheres: Muito obrigado pela entrevista.

Soia Lira: Obrigada a você.



Entrevista realizada no dia 30 de setembro de 2009.


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Sala 
 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.