Ano 17

Rossana Foglia

Rossana Foglia é cineasta e roteirista com formação em cinema e arquitetura pela USP. Ainda nos tempos da escola, conheceu o cineasta, roteirista e dramaturgo Rubens Rewald, com quem é casada: "Então, a gente se conheceu na ECA, no curso de cinema. Quando a gente se formou nós começamos a escrever juntos. O Rubens tem uma ligação mais forte com o teatro do que eu. E eu comecei a trabalhar com ele nessas peças, foram três peças".

A estreia no cinema, como diretora de curtas, foi em 1991, com "Rosas Mortas". Uma década depois, estreia em dupla: co-dirige e co-roteriiza com Rubens Rewald o premiado curta "Mutante", em 2002: "Aí foi muito complementar, porque o Rubens também trouxe pra mim uma prática de dramaturgia, roteiro, a gente começou a se debruçar mais sobre o roteiro, a gente fez muitas versões. E eu acho que eu também trouxe um pouco pra ele essa questão da linguagem do cinema, de pensar a linguagem. E essas coisas foram se mesclando, às vezes, assim, até talvez no curta os papéis estivessem um pouco separados. Mas hoje, depois que a gente partiu para o longa, já tava muito mesclado. A gente até aprendeu um com o outro e a gente discute tudo isso".

Rossana Foglia e Rubens Rewald estão lançando nova parceria, dessa vez no formato longa, com o filme "Corpo", protagonizado por Leonardo Medeiros e Rejane Arruda: "quando surgiu essa história do corpo preservado, que corpo seria esse? O corpo de uma guerrilheira E aí começa uma pesquisa sobre isso, a gente foi ler, e a coisa que mais interessou nessa história de guerrilha, pensamento de esquerda, contracultura, foi a idéia de abandonar a própria identidade".

Rossana Foglia esteve, ao lado de Rubens Rewald e da atriz Rejane Arruda, na "11a Mostra de Cinema de Tiradentes", onde o filme "Corpo" disputou o Prêmio Aurora para filmes de estreantes. Rossana Foglia conversou com o Mulheres e falou sobre sua trajetória, o encontro com Rubens Rewald, os primeiros trabalhos no teatro e nos curtas, e sobre a estréia em longa-metragem com o filme "Corpo". Falou também sobre o olhar feminino no cinema.

 

Mulheres do Cinema Brasileiro: A sua formação é de cinema na USP, não é isso?

Rossana Foglia: Isso, eu fiz cinema e arquitetura na USP.

Mulheres: A gente sabe que o cinema agrega outras tantas manifestações, como a música, a literatura e a própria arquitetura. Isso acabou refletindo no cinema que você veio a fazer? Essa ligação entre o cinema e a arquitetura?

Rossana Foglia: Sim, sim, sim. Eu estou sempre pensando no espaço, no tempo, na forma, a forma pra mim é um ponto de partida no processo criativo.

Mulheres: Eu não tinha feito essa ligação, mas assistindo ao seu filme, “Corpo” (co-direção com Rubens Rewald), e pensando agora a partir do que você falou, a questão do espaço está muito presente mesmo. Você acha que é assim mesmo, isso veio da direção sua e do Rubens, ou está no inconsciente?

Rossana Foglia: Eu acho que está na formação mesmo, não tem como não discutir enquadramento, não tem como, pra mim, discutir continuidade de espaço, descrição de espaço. Tem até um prazer nisso, como descrever e usar o espaço, gramaticamente.

Mulheres: Como é essa co-direção entre você e o Rubens? Porque vocês também têm trabalhos no teatro.

Rossana Foglia: Então, a gente se conheceu na ECA, no curso de cinema. Quando a gente se formou nós começamos a escrever juntos. O Rubens tem uma ligação mais forte com o teatro do que eu. E eu comecei a trabalhar com ele nessas peças, foram três peças.

Mulheres: Você pode citar os nomes?

Rossana Foglia: Posso. A primeira foi “Narrador”.

Mulheres: Quando?

Rossana Foglia: “Narrador” foi em 1994. Depois a gente fez “O Gabinete de Joana”, foi uma coisa mais intensa pra mim, tem até um filme dentro da peça, isso foi em 1996. E depois a gente fez uma outra peça “Ante-Câmera”, que foi em 1997.

E aí a gente partiu para o primeiro curta juntos. A gente já tinha feito audiovisuais, a gente já tinha feito curtas na escola.

Mulheres: Você fez antes dessas co-direções o curta “Rosas Mortas”.

Rossana Foglia: “Rosas Mortas”, antes dessas co-direções com o Rubens. Foi o meu primeiro curta.

Mulheres: Eu gostaria que você falasse um pouco sobre ele.

Rossana Foglia: Era um curta assim, feito dentro da escola, era um encontro entre duas mulheres em diversas situações. Ele é de 1991.

Mulheres: E aí vocês dirigem o “Mutante”, em 2002,que é o primeiro de vocês dois juntos. Como foi essa passagem da co-direção do teatro para o cinema? Como foi dividir esse espaço no cinema?

Rossana Foglia: Aí foi muito complementar, porque o Rubens também trouxe pra mim uma prática de dramaturgia, roteiro, a gente começou a se debruçar mais sobre o roteiro, a gente fez muitas versões. E eu acho que eu também trouxe um pouco pra ele essa questão da linguagem do cinema, de pensar a linguagem. E essas coisas foram se mesclando, às vezes, assim, até talvez no curta os papéis estivessem um pouco separados. Mas hoje, depois que a gente partiu para o longa, já tava muito mesclado. A gente até aprendeu um com o outro e a gente discute tudo isso.

Mulheres: Vocês são casados desde quando?

Rossana Foglia: A gente é casado desde 96, mas com idas e vindas.

Mulheres: Há vários entendimentos sobre o curta. Tem gente que acha que é um formato específico com uma estética propícia, tem gente que acha que é um exercício para um longa. Como você vê o curta?

Rossana Foglia: Eu acho assim, não tem como você virar diretor de cinema se você não faz curta-metragem, porque é no curta que você começa a explorar a linguagem, ele te obriga isso, porque no curta não cabe você às vezes contar uma história, ou você construir um personagem. Então você potencializa a linguagem.

Mulheres: E como foi essa passagem para o longa? Além, lógico, de toda a estrutura, como o formato interferiu no seu olhar?

Rossana Foglia: O “Mutante” foi muito importante. Eu acho que o “Corpo” não seria o que ele é se eu não tivesse feito o “Mutante”. E às vezes eu digo “longa é tão difícil, eu devia ter feito mais curtas” (risos). Mas é isso, eu tenho até vontade de fazer mais curtas, porque curta é mais imediato, uma semana, três dias de gravação, uma idéia que você tem. Você explora outras estruturas mais poéticas, e experimenta, experimenta mesmo. O curta tem que se resguardar, tem que ser isso, experimental, iniciático.

Mulheres: O processo de o “Corpo” começou quando?

Rosanna Foglia: Eu começo a contar assim, você vai escrevendo coisas, guardando. Eu tenho o meu file lá no computador com as minhas idéias. O que isso vai virar, um argumento de um filme, de um audiovisual, isso a gente não sabe. Mas eu começo a contar quando o projeto ganha alguma coisa. Ele tem um começo, o argumento, eu sentei e fechei um argumento para o concurso da prefeitura, então começa aí.

Mulheres: E isso foi quando?

Rossana Foglia: Isso foi no final de 2002. O argumento foi premiado no concurso da prefeitura e eu passei 2002 e 2003 escrevendo o roteiro, os primeiros tratamentos. No final de 2003 o roteiro foi premiado no concurso do MINC de baixo orçamento. Daí, a gente filmou já no final de 2004, ficou dois anos finalizando.

Mulheres: Você disse no debate que se interessou, naquele momento, pelo assunto da identidade. Para vocês construírem essa história, já que o roteiro é de vocês dois, qual a premissa básica? A gênese da discussão estava na identidade, na perda dela?

Rossana Foglia: São alguns elementos que naquele momento me interessavam. Eu estava lendo muito Borges (Jorge Luís), a questão da narrativa, do jogo narrativo. Me interessava construir um quebra-cabeça, brincar com a história do como contar, dos duplos, das duplicações. E a história, que história a gente reconta. Daí quando surgiu essa história do corpo preservado, que corpo seria esse? O corpo de uma guerrilheira E aí começa uma pesquisa sobre isso, a gente foi ler, e a coisa que mais interessou nessa história de guerrilha, pensamento de esquerda, contracultura, foi a idéia de abandonar a própria identidade.

Mulheres: Como vocês pensaram sobre isso, essa questão do corpo preservado, que é fundamental dentro do filme pra construir todo o entrecho.

Rossana Foglia: A idéia de um corpo preservado... eu tinha visto um documentário sobre medicina legal e tinha isso, isso acontece, e me interessei. Também achei muito interessante a coisa do legista, desse personagem legista, que desvenda, que estuda o corpo, as vísceras. E também falar de corpo. E aí foi indo, foi construído não por um tema inicial, mas por elementos que nos interessava, daí foi surgindo o argumento.

Mulheres: Por mais que haja essa cumplicidade, mesmo com os trabalhos no teatro, a relação pessoal, como é dirigir um longa junto? Você teve que abrir mão de alguma coisa que você gostaria muito ou não? Como é?

Rossana Foglia: É difícil. Eu acho que a gente conseguiu porque a gente treinou algumas coisas no teatro, porque também um conhece muito bem o outro. Então eu acho que a gente chegou até no limite disso. Agora daqui pra frente talvez seja melhor partir para caminhos individuais, pelo menos dar uma pausa. Mas assim, o que se ganha é que tudo é muito discutido, então o “Corpo” é um filme que tem tantos detalhes, eu acho que vem muito disso, dele ser minuciosamente discutido. Em contrapartida isso pode até cercear algumas coisas, né? As intuições, a coisa que se deixa extravasar, o que você arrisca sem saber bem porque, mas até nisso a gente ta começando a se soltar. A gente se conhece e não tá competindo, né? (risos). E a cumplicidade tem que ser absoluta.

Mulheres: Como foi a escolha do elenco?

Rossana Foglia: Foi escolhido pela gente, teste. Aí também tem divergências, claro, opiniões diferentes. Mas o ganho é que fica tudo muito argumentado.

Mulheres: Para o personagem feminino vocês já pensavam em uma atriz não tão conhecida, ou foi o teste que determinou? Porque o Leonardo Medeiros já tem uma carreira consagrada no cinema.

Rossana Foglia: É, a gente queria, eu acho que é sempre interessante, eu acho que é um desafio para o diretor trabalhar com pessoas não conhecidas, porque aí você vai ter que escolher, arriscar, e vai ter mesmo que dirigir o ator, é difícil.

Mulheres: Há toda uma discussão agora sobre os preparadores de elenco. É difícil fazer direção de atores?

Rossana Foglia: Então, a gente teve essa passagem pelo teatro, mas eu também não tenho uma formação, às vezes eu acho que eu ainda tenho que buscar mais instrumentos para dirigir ator. Mas assim, eu já tenho uma bagagem, já dá para começar, dá para seguir, intuir algumas coisas. E o Rubens mais do que eu, nessa parte mais do que eu, tem mais interesse. Então eu acho que dá para trabalhar juntos na direção de atores.

Mulheres: o “Corpo” tem um elenco feminino muito interessante. A Rejane Arruda trouxe um frescor para o filme; já a Louise Cardoso está muito bem naquele personagem. E tem também a Regiane Alves, que a gente já se acostumou a ver nas novelas, fazendo no filme uma personagem de uma forma muito sutil. Escolher um ator deve ser muito difícil mesmo, e é muito importante, não é?

Rossana Foglia: É importante porque se você erra pode ser catastrófico (risos). É importante, você tem que confiar, tem que acreditar no ator. É delicado, é um momento crucial da direção a escolha do elenco, a cara do filme. E como trabalhar os atores também.

Mulheres: É, porque tem muitos atores que precisam, e muito, da mão do diretor.

Rossana Foglia: E tem uns que, até ao contrário, propõe mais do que você tá colocando, te trás coisas.

Mulheres: Depois de presenças pontuais, a mulher na direção de longas teve um boom mesmo foi na Retomada. Como você vê isso, você que faz parte desse momento?

Rossana Foglia: Isso é natural né? Nós vivemos em uma sociedade moderna, então, é claro, as mulheres têm que estar fazendo cinema. E eu acho que tem até um interesse pelo olhar feminino, até por contraste, por volume de produção. Então eu posso contar uma coisa, eu posso tratar um tema de um jeito diferente, um olhar diferente. Eu acredito que é saudável e necessário.

Mulheres: Você acha que existe então um olhar feminino no cinema? Seria na estética, nos temas abordados? Isso é um ponto polêmico na discussão sobre a presença da mulher na direção de filmes.

Rossana Foglia: É que é assim, o autor vem antes do sexo né? Então o autor vai construir sua sensibilidade própria. O olhar, a formação, vem antes, então a gente tem que ficar atento. Mas eu acho que existe, como você disse, temas, talvez assuntos que podem ser mais explorados, ou que seja interessante ver como uma mulher trata, como os homossexuais tratam, como também a questão racial. Eu acho que é até interessante que tenha todo mundo fazendo cinema.

Mulheres: Qual foi o último filme brasileiro que você assistiu?

Rossana Foglia: Deixa eu ver... é porque é assim, eu estou com um bebê de um ano, então tá difícil... Qual foi o último?.... Eu saí para ver um filme... Ah, claro, eu saí para ver um que eu queria muito, que é o “Jogo de Cena” (Eduardo Coutinho).

Mulheres: Eu sempre convido minhas entrevistadas para homenagearem uma mulher do cinema brasileiro de qualquer época e de qualquer área.

Rossana Foglia: Eu admiro muito a Suzana Amaral, acho que é um trabalho incrível, uma trajetória fabulosa, que tem um filme que eu adoro, que é “A Hora da Estrela”, um filme incrível. Fica Suzana Amaral, que é a que veio de imediato, sem pensar.

Mulheres: obrigado pela entrevista.

Rossana Foglia: De nada.


Entrevista realizada em janeiro de 2008, na "11a Mostra de Cinema de Tiradentes".
Foto: Paulo Filho

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Sala 
 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.