Ano 17

Sara Silveira

A produtora Sara Silveira foi a grande homenageada da "2a Mostra CineBH", que aconteceu em Belo Horizonte de 30 de outrubro a 4 de novembro. Realizada pela Universo Produção, a CineBH, que teve como tema a produção independente no cinema brasileiro, fez uma escolha justíssima. Afinal, Sara Silveira é hoje uma das mais importantes produtoras brasileiras e seu nome está associado a grandes momentos do cinema nacional. Com Carlos Reichenbach, de quem é amiga e sócia na Dezenove Produções, teve um encontro fundamental em um dos grandes filmes do diretor, "Filme Demência": " Eu me encontrei com ele casualmente (...) Nós ficamos conversando durante quinze, vinte minutos, e daí gerou toda a nossa amizade, tudo o que aconteceu na nossa vida. Porque eu fiz esse filme (“Filme Demência”), depois fiz direção de produção do “Anjos do Arrabalde”, e depois já me transformei em produtora com ele no “Alma Corsária”.

A paixão de Sara Silveira pela produção vem da infância, depois fez cinema, saiu do Brasil, e na volta começou para valer na atividade. Sara Silveira nasceu em Porto Alegre, mas se radicou em São Paulo. No início trabalhou com nomes como Roberto Santos e João Batista de Andrade. Além de produzir os filmes de Carlos Reichenbach, produziu muitos outros, sendo inúmeros feitos pela nova geração do cinema, como Beto Brant ("Ação Entre Amigos"), Laís Bodanzki ("Bicho de Sete Cabeças"), Anna Muylaert ("Durval Discos") e Marcelo Gomes ("Cinema, Aspirinas e Urubus"): "Eu nem sei como se formam (essas parcerias). Na verdade são meninos que fazem curtas que eu gosto, eu vejo curtas que eu gosto e aí me dá vontade de produzir. Eu gosto de meninos talentosos, disciplinados, que me dêem pouco trabalho (risos). Porque diretor de cinema dá muito trabalho para a gente. E com esses meninos são muitas idéias, muitos hormônios novos, muita energia. Ás vezes é por razões afetivas, às vezes por roteiros com histórias boas, às vezes porque fizeram bons curtas, às vezes por uma indicação de alguém. Eu estou ali aberta e predisposta a produzir filmes de pessoas que eu julgo interessantes e disciplinadas, eu abraço, eu não tenho uma fórmula, nem sei como eu faço".

A Mostra CineBH apresentou uma faceta pouco conhecida de Sara Silveira: a de cineasta. Na abertura da Mostra foi exibido um curta-metragem que ela dirigiu com Guilherme Marback, "Espeto", de 2006. Mas Sara tem uma opinião formada sobre a experiência de dirigir filme: " Não, não me interessa. Eu fiz uma pequena experiência, uma incursão, porque também queria dividir isso com um amigo que estava louco para dirigir uma história que a gente pensou juntos, por isso nós dividimos a direção. Mas não é a minha raia, a minha praia é produzir. Eu não posso ficar presa num set, me alucina, eu tenho que ficar solta, porque se me colarem em algum lugar eu piro, eu enlouqueço. E produção é isso, eu preciso estar aqui, eu preciso estar ali, eu preciso estar acolá, eu preciso estar em qualquer lugar do mundo. Um set de filmagem prende você, a direção é estafante por isso, além de assinar a obra, né?. Essa é a ousadia maior e que talvez eu não tenha".

Sara Silveira esteve em Belo Horizonte para receber todas as homenagens da Mostra CineBH e conversou com o Mulheres. Enquanto caminhávamos pela Praça Duque de Caxias em Santa Tereza, bairro tradicional e boêmio da capital e que virou a Vila do Cinema com as instalações da Universo Produção para abrigar toda a Mostra, Sara Silveira falou um pouco sobre a paixão pelo cinema e, sobretudo, pela produção, falou, claro, sobre o meste Carlos Reichenbach, seu grande parceiro e amigo, sobre a nova geração de cineastas, e outros assuntos.

 
Mulheres do Cinema Brasileiro: Como foi que o cinema te fisgou?

Sara Silveira: O cinema me fisgou com a minha infância. Eu fui criada dentro de um cinema em Porto Alegre, eu tinha um primo, o Carlinhos, que era gerente do Cinema Avenida, um cinema que acabou e virou bingo. Bom, essa é a minha história, você me perguntou como eu fui fisgada e eu fui fisgada assim, para início de conversa.

Mulheres: E quando virou profissão?

Sara Silveira: Há muitos anos. Virou profissão depois que eu me formei, que eu estudei. Eu fui embora do Brasil, e quando voltei eu resolvi fazer cinema de novo, em 1982. Aí eu decidi, porque eu já tinha me formado, já tinha feito meus cursos e eu decidi que eu queria. Na verdade, uma vez que eu já tinha uma formação, era fazer o que eu queria fazer, que era o cinema. Porque era uma coisa que eu já tinha em toda a minha infância, o fato de ter vivido dentro do cinema, eu tinha aquele sonho, aquela imagem com o cinema. Foi mais ou menos assim.

Mulheres: E aí você faz trabalhos com o Roberto Santos, com o João Batista de Andrade, e tem esse encontro fundamental com o Carlos Reichenbach no “Filme Demência”. Tempos depois vocês montam a Dezenove Filmes. Relembre um pouco para a gente esse percurso.

Sara Silveira: Eu me encontrei com ele casualmente, porque eu vinha de um filme em que eu tinha tido um acidente de carro, eu estava toda quebrada. Minha família queria que eu voltasse para o Rio Grande do Sul, mas eu não queria voltar. Eu continuei tentando, querendo fazer cinema. E teve uma pessoa que tinha trabalho no filme que eu tinha me acidentado e que estava fazendo a contabilidade desse filme na Boca do Lixo, que era produzido pelo Eder Mazzini. Aí ela me chamou, dizendo que estavam precisando de uma pessoa de produção, eu fui lá e me apresentei. Não tinha ninguém, porque eles tinham saído e eu encontrei o Carlão. Nós ficamos conversando durante quinze, vinte minutos, e daí gerou toda a nossa amizade, tudo o que aconteceu na nossa vida. Porque eu fiz esse filme (“Filme Demência”), depois fiz direção de produção do “Anjos do Arrabalde”, e depois já me transformei em produtora com ele no “Alma Corsária”. Mas fiz muitos filmes antes disso, fiz muita direção de produção.

Mulheres: Quantos filmes a Dezenove já produziu?

Sara Silveira: Uns 20, 19... é mais ou menos por aí. Quinze com certeza.

Mulheres: A parceria com o Carlão já é antiga, e, por isso, vocês já têm uma sintonia afinada. Mas e no caso da parceria com esses novos cineastas, Beto Brant, Marcelo Gomes, Anna Muylaert? Como se dá a sua escolha de parceria com esses novos nomes que vão surgindo?

Sara Silveira: Eu nem sei como se formam. Na verdade são meninos que fazem curtas que eu gosto, eu vejo curtas que eu gosto e aí me dá vontade de produzir. Eu gosto de meninos talentosos, disciplinados, que me dêem pouco trabalho (risos). Porque diretor de cinema dá muito trabalho para a gente. E com esses meninos são muitas idéias, muitos hormônios novos, muita energia. Ás vezes é por razões afetivas, às vezes por roteiros com histórias boas, às vezes porque fizeram bons curtas, às vezes por uma indicação de alguém. Eu estou ali aberta e predisposta a produzir filmes de pessoas que eu julgo interessantes e disciplinadas, eu abraço, eu não tenho uma fórmula, nem sei como eu faço. Eu sempre digo que nem sei como eu escolho os meus filmes. Normalmente são filmes de autor, porque todos escrevem seus roteiros, são filmes pensados por eles mesmos e normalmente pensados junto comigo. Não que eu interfira na vida de nenhum diretor, a não ser para o próprio bem-estar dele. Às vezes eu digo “me deixa interferir que vai ser mais fácil para você”.

Mulheres: Uma característica muito forte na produção atual é a gente ter um número crescente de mulheres na produção. Como você identifica essa particularidade? Ontem mesmo na hora em que recebeu sua homenagem você disse que produção tem que ser muito macho para fazer porque é um trabalho árduo.

Sara Silveira: Mas as mulheres são macho, essa é que é a verdade. As mulheres são muito mais machas que os homens, as mulheres são muitos mais empreendedoras que os homens. E eu acho que tem também uma coincidência, um caminho paralelo do próprio caminho da mulher, do próprio caminho do feminino que está se estabelecendo no mundo e se tornando expoente em qualquer setor da atividade de trabalho. Eu acho que no cinema houve um boom, uma coincidência, uma coincidência de talentos de várias mulheres que estão produzindo cinema brasileiro. Em São Paulo são várias mulheres, em São Paulo são poucos os produtores. No Rio também tem uma quantidade grande de mulheres na produção. O sucesso da mulher é porque ela é empreendedora, mulher toma conta de casa, de filho, lava, passa, vassoura, faz tudo. Homem faz tudo isso? De jeito nenhum.

Mulheres: Atualmente você está envolvida em quais trabalhos?

Sara Silveira: Eu acabei de rodar, foi a finalização do filme de “Ponto Org”, que é o filme da Patrícia Moran, que é uma mineira. Eu estou em finalização do filme “Os Famosos e os Duendes da Morte”, do Esmir Filho, que é um menino de São Paulo, que rodou em julho e agosto. Estou finalizando o filme “È Proibido Fumar”, de Anna Muylaert, a mesma que fez o “Durval Discos”. Nesse momento eu estou aqui em BH recebendo essa homenagem, mas amanhã de manhã estou partindo para Brasília, pois eu estou na minha penúltima semana de filmagem de um filme chamado “Insolação”, do Felipe Hirsh.

Mulheres: Nós tivemos a oportunidade de assistir ao curta “Espeto” aqui na Mostra CineBH que você co-dirigiu com o Guilherme Marback. Você não tem vontade de repetir a experiência como diretora?

Sara Silveira: Não, não me interessa. Eu fiz uma pequena experiência, uma incursão, porque também querida dividir isso com um amigo que estava louco para dirigir uma história que a gente pensou juntos, por isso nós dividimos a direção. Mas não é a minha raia, a minha praia é produzir. Eu não posso ficar presa num set, me alucina, eu tenho que ficar solta, porque se me colarem em algum lugar eu piro, eu enlouqueço. E produção é isso, eu preciso estar aqui, eu preciso estar ali, eu preciso estar acolá, eu preciso estar em qualquer lugar do mundo. Um set de filmagem prende você, a direção é estafante por isso, além de assinar a obra, né?. Essa é a ousadia maior e que talvez eu não tenha.

Mulheres: E a homenagem aqui na Mostra CineBH?

Sara Silveira: Essa homenagem foi bacana porque é uma lembrança com o trabalho de produção, que é uma figura, é uma eminência parda, que quase não aparece nos filmes. Mas tem um trabalho relevante, da maior importância, que é a segurança para os diretores. Ainda mais eu que trabalho para os meus diretores, para que o sujeito tenha o conforto, a confiabilidade e a tranqüilidade para ele desenvolver a arte dele, poder fazer a obra dele. E eu tendo orgulho de mostrar para a tela e para o público, que é o tão sonhado objetivo, que o filme da gente seja visto.

Mulheres: Qual foi o último filme brasileiro que você assistiu?

Sara Silveira: O último que eu assisti... Eu assisti quatro agora, porque eu aproveitei que fui ao Festival de Roma... o último que eu assisti foi o documentário sobre o Caetano, em Roma (“Coração Vagabundo” – Fernando Grostein/2008). É, foi esse, porque eu cheguei essa semana e não fui ao cinema ainda.

Mulheres: Eu sempre convido minhas entrevistadas para fazerem uma homenagem a uma mulher do cinema brasileiro de qualquer época e de qualquer área. Quem você homenageia?

Sara Silveira: Uma mulher do cinema? Uma grande atriz chamada Betty Faria, que eu acho que é um patrimônio da arte da atuação do Brasil. Minha grande amiga. Se tem alguém que eu poderia homenagear é a minha querida amiga Betty Faria.

Mulheres: Obrigado pela entrevista.

 
Entrevista realizada em novembro de 2008, durante a 2ª Mostra CineBH.
Foto atualizada.

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 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.