Ano 17

Lúcia Fares

Recentemente,  a produtora Lúcia Fares, do Grupo Novo de Cinema e TV, esteve em Belo Horizonte para o lançamento de “Filme de Amor”, 26º filme de Júlio Bressane e o primeiro em que ele contou com uma equipe de produção  – até então ele mesmo cuidava da produção de seus filmes. Gentil, doce e próxima, ao mesmo tempo podia se perceber seu olhar atento para tudo que estava acontecendo á volta, característica-mor de uma produtora.

Mineira, Lúcia Fares começou sua carreira no audiovisual em Belo Horizonte, atuando na esfera do vídeo. Sua trajetória cinematográfica se deu em 1987, quando se envolve com as produções “Jorge, Um Brasileiro”, de Paulo Thiago, e “ O Grande Mentecapto”, de Oswaldo Caldeira. Anos depois integra a equipe de “ Menino Maluquinho”, de Helvécio Ratton, marcando seu encontro com o produtor Tarcísio Vidigal e o Grupo Novo de Cinema e TV.

É sobre esses e outros assuntos, como a “ Brazilian Cinema Promotion, onde ocupa o cargo de Diretora Executiva, que Lúcia Fares conversa com o Mulheres, em entrevista por e-mail.

 

Mulheres do Cinema Brasileiro: Como começou sua trajetória no cinema e como foi seu encontro com o produtor Tarcisio Vidigal e seu ingresso no Grupo Novo de Cinema e tV?

Lúcia Fares: Embora graduada em jornalismo, trabalhei com publicidade, produção e roteiros de vídeos institucionais antes de ter meu primeiro contato com o cinema que aconteceu  em 1987, em Belo Horizonte .

Naquele ano, excepcionalmente, dois cineastas  mineiros que viviam no Rio foram filmar em BH. Nessa oportunidade trabalhei pela primeira vez  como produtora de figuração no longa -metragem  “Jorge um Brasileiro”, de Paulo Thiago .e logo em seguida fiz a produção do elenco de apoio e figuração do outro longa Ö Grande Mentecapto de Oswaldo Caldeira. Infelizmente, a pretendida continuidade da  carreira  foi interrompida pelas medidas anticinema do Governo Collor. Somente  em 1993, com a dita retomada, tive a oportunidade de integrar a equipe de produção do filme o “Menino Maluquinho” de Helvécio Ratton produzido pelo Grupo Novo de Cinema e TV.

A partir deste trabalho, mudei-me para o Rio onde fui  convidada por Tarcísio Vidigal para dividir a produção executiva do Menino Maluquinho 2 dirigido por Fernando Meirelles e Fabrizia Pinto -  uma experiência determinante para mim  por ter tido a oportunidade de estar totalmente envolvida em todas as instâncias  da realização de um filme e também por constatar que minha escolha  era definitiva.

Depois do lançamento de Menino Maluquinho 2, continuei trabalhando com Tarcisio Vidigal , na execução de todos os projetos realizados pelo Grupo Novo de Cinema (“Rocha que Voa” de Erik Rocha “Filme de Amor”de Julio Bressane “O Homem de Lagoa Santa” de Renato Meneses “1972”deJosé Emílio Rondeau “Lula, A trajetória de um Vencedor”(Cosme Coelho)

Ao longo destes 9 anos, participei também da implementação do pioneiro projeto de distribuição internacional do Grupo Novo de Cinema e atualmente ocupo o cargo de Diretora Executiva da Brazilian Cinema Promotion.

Mulheres: Você, que teve experiências destacadas com cineastas mineiros, como Paulo Thiago, Oswaldo Caldeira e Helvécio Ratton, como vê a regionalização do cinema brasileiro hoje?

Lúcia Fares: Historicamente a atividade cinematográfica sempre se concentrou no eixo sul agregando as mais tradicionais produtoras de cinema e um grande número de técnicos, prestadores de serviços, estúdios, laboratórios. Esta concentração também se refletiu  na destinação de recursos das grandes empresas localizadas na região. Para mim, é inadmissível  que um país com a diversidade cultural  do Brasil não consiga implementar essa descentralização  de recursos privando grandes talentos da realização cinematográfica e limitando o crescimento de uma industria que se possa chamar de genuinamente nacional. Prefiro acreditar que estamos caminhando, ainda que muito lentamente, no sentido de reverter este panorama para que todas as regiões tenham a oportunidade, de formar técnicos, produzir e distribuir seus filmes.

Mulheres:  E a Brazilian Cinema Promotion, qual o seu papel no panorama cinematográfico?

Lúcia Fares:  A Brazilian Cinema Promotion tem um papel precursor e fundamental  na promoção do nosso cinema no mercado externo. Fruto de um trabalho ininterrupto, em meio a tantas limitações, saímos da estaca zero e conquistamos uma rara visibilidade para o cinema brasileiro no exterior revertendo positivamente para o mercado interno. Temos tido uma média de participação em 100 eventos por ano, nos mais diferentes países – como China, Filipinas, Croácia, Eslováquia, além de marcar presença festivais das Américas, Europa e Ásia. 

Mulheres: O cinema brasileiro tem avançado sua penetração no mercado internacional? Em prêmios dá para acompanhar, mas como está em exibição?

Lúcia Fares: Somente o Programa de Promoção Internacional do Cinema Brasileiro executado pela Brazilian Cinema Promotion e o Grupo Novo de Cinema e TV realizou o feito inédito de lançar 20 títulos brasileiros em 14 capitais do mundo. Este ano lançamos 3 filmes em DVD nos Estados Unidos (Homem do Ano, Crônicamente Inviável e Amores Possíveis) .Podemos afirmar que a crescente inserção do cinema brasileiro no mundo nas mais diversas mídias (cabo, satélite e DVD) é uma realidade.

Mulheres: Quais são as dores e as delícias de produzir filmes brasileiros?

Lúcia Fares: Para mim que estou envolvida desde o primeiro passo do projeto de um filme,  considero a “grande delícia” vê-lo pronto e principalmente exibido. Acho que isto é uma  satisfação ímpar. As dificuldades ou as dores de uma produção cinematográfica são  inerentes ao processo e as considero completamente compatíveis com as dificuldades encontradas  na execução de projetos em diferentes setores no Brasil.

Mulheres: O Grupo Novo de Cinema e TV deu um passo importantíssimo e louvável ao produzir o “Filme de Amor” dirigido por um cineasta fundamental para a história do Cinema Nacional, que é o Júlio Bressane? Como foi, e como está sendo essa experiência?

Lúcia Fares: O Grupo Novo vem caminhando no sentido de buscar projetos que garantam uma variedade de filmes de qualidade. Produzir projetos comerciais para poder produzir filmes de arte. Investir nos jovens talentos e valorizar os diretores experientes. Portanto produzir um filme de Julio  Bressane representou de fato um passo importantíssimo nesse sentido.

Acho que ele é um dos raros diretores que pela importância e marca autoral e investigativa de seu trabalho deveria ter  sempre um produtor para poupá-lo das desgastantes questões cotidianas de uma produção Mas o Júlio autor, um verdadeiro intelectual, jamais se eximiu  das questões de produção -  ao contrário, trouxe  para nós o melhor de sua enorme experiência na realização de seus filmes. Costumo dizer que trabalhando com o Julio tivemos  a rara oportunidade de vivenciar somente o lado bom da produção de um filme. O caminho natural agora é o de repetir essa experiência e por isso produziremos seu próximo longa, Cleópatra.

Mulheres: Quais são os novos projetos?

Lúcia Fares: Estamos envolvidos em muitos projetos que se encontram em diferentes fases. Estamos finalizando o “1972“de José Emílio Rondeau e o Homem de Lagoa Santa de Renato Menezes. Este ano iniciaremos a produção de Cléopatra de Júlio Bressane e a do  longa metragem de Rafael Conde , “Zé”. Filmaremos no segundo semestre o longa do “veterano Geraldo Sarno “Gavião, o cangaceiro que perdeu a cabeça”. Ainda em fase de captação, temos o documentário  Balzac também dirigido por Geraldo Sarno


Entrevista realizada em junho de 2004.
Foto: Pepê Schettino

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 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.