Ano 17

Paloma Rocha

Paloma Rocha é cineasta. Filha de Glauber Rocha e enteada de Rogério Sganzerla, Paloma Rocha acompanhou as homenagens aos dois cineastas que a Cineop - 3a Mostra de Cinema de Ouro Preto promoveu. O evento reuniu as famílias dos cineastas, vistos por muitos como ferozes opositores, já que o primeiro foi do Cinema Novo e o segundo do Cinema Marginal:: "eu sempre via as duas obras e achava que uma complementava a outra, uma tinha esse olhar mais épico, mais político sobre os problemas do Brasil, e o outra detalhava quais seriam esses problemas". Paloma saudou a iniciativa: "eles perceberam isso e resolveram homenagear os dois juntos aqui hoje, o que é um fato histórico".

Paloma Rocha vivenciou perdas trágicas:: o pai, Glauber, morreu aos 42 anos; a tia, a atriz Anecy Rocha, morreu tragicamente ao cair no fosso do elevador; o padrasto, Rogério, foi vítima de um câncer fulminante. Paloma comenta: "Então fica para mim essa experiência da tragédia, eu tento remontar essa questão da vida, do que é vida, do que é trabalho, do que é arte, entendeu? Essa coisa de ir até as últimas conseqüências. Só que quando eu chego na última conseqüência, eu falo “não, não vou nessa compulsão até lá, eu vou parar aqui e vou criar uma ponte, vou dar um salto”.

Paloma Rocha está a frente do Tempo Glauber, espaço que abriga toda a obra de seu pai. É um trabalho gigantesco: "Eu acho o Glauber um homem de extrema generosidade porque ele deixou horas e horas de fala dele, contando ele mesmo o próprio processo. Deixou os escritos, as pistas, quatro mil fotografias. Ele deixou as várias versões dos roteiros dos filmes. Ele conta todo o processo, todo o método de direção e de criação do período dele. Quer dizer, está tudo ali documentado e a gente colocou em DVD, estamos dando acesso.".

Na Cineop, além dos filmes dos dois cineastas e de outros interligados, teve também a exibição de dois filmes de Paloma, co-dirigidos com seu marido, o cineasta Joel Pizzini: "Abry" e "Anabazys". Paloma Rocha participou também de debates, ao lado de familiares como a mãe Helena Ignez, a avó dona Lúcia Rocha, os irmãos Djin e Sinai Saganzerla e Eryk e Pedro Rocha.

Paloma Rocha conversou com o Mulheres. Na entrevista, ela fala sobre a relação com Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, o trabalho a frente do Tempo Glauber, a sua carreira, a parceria com Joel Pizzini, a tia Anecy Rocha, e outros assuntos.


Mulheres do Cinema Brasileiro: Como você vê essa homenagem que a Cineop faz a dois cineastas até então vistos mais como opositores, Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, sendo que o primeiro é seu pai e o segundo seu padrastro?

Paloma Rocha: Então, essa é a pergunta que não quer calar. Eu tenho dito nas minhas declarações que é um momento de celebração muito grande porque de fato eu acredito , eu acho que eu sou também um pouco mentora , eu venho falando sobre isso. Há uns três anos eu já tinha falado com a minha mãe. Já tinha sido feito uma homenagem na Suíça, onde, coincidentemente, se passou o “Terra em Transe” e onde se passou “O Bandido da Luz Vermelha”. Eu venho falando sobre isso, brincando e falando que o meu próximo projeto ia se chamar “O Bandido em Transe”. Porque eu sempre via as duas obras e achava que uma complementava a outra, uma tinha esse olhar mais épico, mais político sobre os problemas do Brasil, e o outra detalhava quais seriam esses problemas. E ainda brincava , achando que se Paulo Martins não tivesse morrido ele teria virado o Bandido da Luz Vermelha, ele teria ido para a luta armada, ele teria, enfim, partido para a sua própria revolução pessoal. E achava que a Janete Jane, ela poderia, se tivesse tomado um ácido, a Sara (risos) poderia ter sido a consciência do Bandido. Mas são coisas muito domésticas, isso é papo de cozinha, dentro de casa.

Então eu venho falando isso por esse motivo, porque eu acho sempre muito primário a maneira que se lê a história do cinema brasileiro, quando se chega nesse ponto, quando se chega nessa briga, nessa polêmica. É uma mania brasileira, quer dizer, não se discute os pontos da polêmica, dos motivos estéticos, fica discutindo quem brigou com quem, vira tudo uma novela. E isso é uma coisa que me incomodava pessoalmente, mesmo porque muitas vezes também atacavam o Glauber: “ah, porque o Glauber é uma instituição do Cinema Novo“. E não tem nada a ver. Tudo bem que o Glauber fez, foi o principal articulador do Cinema Novo, e, na verdade, representa o Cinema Novo até hoje, junto com Joaquim Pedro, Leon Hirszman, e tantos outros, o Cacá Diegues. Mas no final da trajetória dele, ele acabou sozinho, esse grupo não fazia mais parte da vida dele. E eu via a reaproximação dele até bastante solitária do Rogério, quando ele voltou do exílio, apesar de todas as questões e tal, eu vi os dois conversando algumas vezes, e vi conversando também em outros momentos na minha juventude. Mas não porque eu tenha sido testemunha pessoal, mas é porque eu acho que, independentemente do meu testemunho pessoal, te ter visto ou não ter visto eles conversando, de fato as obras dialogam entre si. E elas ficam, elas ficam como uma lição de cinema e, sobretudo, uma lição do método e uma lição do modo de produzir, do método de criar.

Porque se vivia aquilo, não como “ah, vou fazer um filme, vou montar uma produção, ou fazer um roteiro”. Não tinha esse negócio, era a vida deles, resolver um filme era resolver a própria vida. Fazer aquele filme era um ato de existência, tanto é que eu acho que era um sentimento compartilhado com os artistas, com os revolucionários da época. E por isso morrem de uma maneira jovem, adoecidos, até pela impossibilidade de continuar produzindo, dentro daqueles padrões, daqueles moldes, na hora que o mundo mudou. Tem uma coisa que o Paulo César conta do Glauber. Eles foram assistir um filme, só estou me esquecendo do nome do filme agora, um filme americano de sucesso que estava na época . Quando saíram, o Glauber disse para o Paulo César “você sabe fazer isso?” , o Paulo César falou “não”, ele falou “então nós estamos fudidos” (risos). Entendeu? Ou seja, o que eu acho que também contextualiza um pouco o que eu estou dizendo.

Então eles dois são ímpares. Eu não estou com isso querendo botar panos quentes ou omitir qualquer discussão, qualquer polêmica que tenha havido. Mesmo porque eu acho que ela é saudável, ela é salutar. Mas o que eu quero dizer é exatamente o que move esses dois homens a fazer o cinema que fizeram, que são cinemas ímpares, cada um no seu estilo. E fundamentais pra gente, para a própria sobrevivência do cinema brasileiro. Então é nesse aspecto. E aí eu fico muito contente que isso esteja acontecendo nesse momento, porque eu achava que o negócio estava ultrapassado. É como se eu fosse fazer a releitura da história do Brasil, entendeu? E você precisa rever, reler a sua própria história. Eu acho que isso é um avanço, e a jovem crítica brasileira, que é a turma da Contracampo, o Cléber, o Ruy. O Ruy saca porque ele trabalha dentro do Tempo Glauber, convive comigo. E aí começaram a sacar isso. Porque rola um certo oportunismo também porque os filmes ficam em guetos, então têm as pessoas que vivem de estudar isso, de defender essa idéia. Mas aí realmente a coisa não flui.

Então eu acho que com essa iniciativa da Cineop e do Cléber, da jovem crítica e da Cotracampo, e de toda a sociedade, de todo mundo que está envolvido, eles perceberam isso e resolveram homenagear os dois juntos aqui hoje, o que é um fato histórico. E você vê que a homenagem que foi feita também foi muito especial. Eu esqueci ontem de agradecer as pessoas no cinema, mas a maneira que foi feita, a montagem, a intervenção da música eletrônica, a banda de música, o berimbau, a comunhão das cenas, tudo convivendo num grande plano de fundo, que é você ter generosidade com a sua própria história e se aceitar. É um pouco o que o Gustavo Dahl estava falando hoje, o Brasil não conhece o Brasil, o Brasil não aceita o Brasil, O Brasil não acredita no Brasil. Então isso tudo é muito importante. E é muito importante desse ponto de vista pessoal, porque como eu disse ontem, como um desabafo, eu não agüentava mais toda essa encheção de saco.

Agora com os filmes restaurados, hoje eu abri os jornais e tinha foto do “Dragão da Maldade”, que entrou em cartaz em Belo Horizonte. É uma iniciativa que estamos fazendo de acreditar nesses filmes, de conseguir parcerias na distribuição comercial para essas obras, de colocar elas na roda. A Folha de S. Paulo fez um debate semana passada em São Paulo, foram 80 pessoas. Então é o que Silvio Da-Rim estava falando, existe um interesse, inventaram que não se tem esse interesse, mas esse interesse existe.

Mulheres: Pode-se até gostar ou não, mas é impossível ficar indiferente tanto ao cinema de Glauber quanto ao de Rogério, e também às pessoas, aos depoimentos deles. Como foi conviver em meio a esse caldeirão e como isso refletiu na sua trajetória agora como cineasta?

Paloma Rocha: Olha, pra mim foi sempre muito chato, desconfortável, não é uma coisa agradável você viver em um caldeirão como você bem observou, né? Nesse aspecto, assim do que era às vezes a convivência, a briga, conviver no meio disso tudo era muito desagradável. Agora, era muito agradável por outro lado, a convivência com cada um deles individualmente sempre foi muito prazeirosa. Eu acho que isso influencia. O que é fica? Fica a maneira de se viver a vida, de encarar os problemas, entendeu? A maneira de você encarar a arte, de você encarar a sua profissão, a sua atividade, como ser humano, como artista, como uma contribuição. Aquilo que você está fazendo está contribuindo, então fica para mim isso. Para mim não interessa fazer um delay estético, inatingível, que não vai comunicar com ninguém. Então isso talvez tenha me trazido um pouco, pela educação que tive mesmo, de dar voz, enfim. Eu estava falando sobre isso hoje, quer dizer, a gente não faz uma coisa pensando no que ela vai dar, o resultado. O ato de fazer é mais importante, quer dizer, a sua concentração, a sua energia é colocada no fazer, no ato. Você investir todas as oportunidades que você tem, das circuntâncias com os atores, das circustâncias econômicas, transformar toda aquela dificuldade em matéria para sua criação.

Às vezes as coisas ficam um pouco difíceis, você tem recessões econômicas muitos violentas e você não consegue levar o projeto adiante. Mas até onde der, transformar sua dificuldade em criação, isso foi uma coisa que aprendi com eles. É que não existia separação entre a obra e a vida, é tudo uma coisa só, é tudo uma questão de vida ou morte. Agora fica para mim também a experiência da tragédia, essa fica muito forte na minha vida, de ver essas pessoas que eu amei profundamente, tem a minha tia, Anecy Rocha, tudo isso, pessoas que se retiram do cenário muito jovens. O caso de meu pai, aos42 anos, com 10 longas-metragens e não sei quantos curtas, mais 70 mil documentos, etc.

Rogério também nos deixa de maneira fulminante, sem avisar. Em seis meses aparecem dois tumores na cabeça fulminantes. Com uma diferença em relação ao Glauber, ele ainda teve tempo de se despedir da família. O Glauber foi de um dia para o outro, ele estava em Sintra quando aconteceu, passa, inclusive, o filme de Paula Gaitán hoje. Eu não estava lá, mas para mim durou doze horas de aviso: “está chegando, está muito mal”. Quando eu cheguei demorou quarenta minutos, e ele morreu, eu estava do lado, estava do lado dele quando ele morreu.

Então fica para mim essa experiência da tragédia, eu tento remontar essa questão da vida, do que é vida, do que é trabalho, do que é arte, entendeu? Essa coisa de ir até as últimas conseqüências. Só que quando eu chego na última conseqüência, eu falo “não, não vou nessa compulsão até lá, eu vou parar aqui e vou criar uma ponte, vou dar um salto”. Eu preciso sobreviver, e aí, de uma certa maneira, internamente, eu me aproprio dessas responsabilidades, dessa herança, dessa bagagem, que já um grande peso e agora mais leve. Para fazer essa passagem trazendo comigo essas pessoas, essa história. Ontem eu até estava falando com o Joel, que a gente tem um papel importante no sentido de que a gente está a “curar”, nós somos os curadores da obra, e estamos tentando curar também os problemas que envolveram essa obra. Então eu tento curar o problemas de Glauber com os militares, a má interpretação. No “Anabazys” a gente aborda essa questão, o Glauber se defendendo das acusações, que ele apoiou os militares porque ele acreditava que o grupo nacionalista ia fazer a abertura de maneira democrática e não de uma maneira lenta e gradual. Que eles conduziriam o Brasil a uma democracia e não porque ele tinha se aliado aos militares, porque ele sempre viveu exilado.

Então você oferece a oportunidade. Na restauração do “Barravento” a gente reincorporou o Luiz Paulino dos Santos, que também tinha aquela polêmica. O Luiz Paulino hoje convive com a gente, tem uma declaração dele, está no DVD. Porque tem uma crítica especializada que enche o saco (risos), “É, porque tem o Luiz Paulino”. Então é o seguinte: “veja o DVD que o Luiz Paulino está lá contando a própria versão dele (risos), entendeu?” Quer dizer, no sentido de que existe o direito também das coisas, de haver uma união para haja esse salto, para que a gente possa estabelecer essas pontes, essas relações. Porque há um hiato. Vivi com quatro anos o golpe, a ditadura toda depois, o hiato. Quer dizer, se não reconstruir essa ponte e eu sendo quem sou, pelo fato de ser filha do Glauber, tenho uma responsabilidade enorme. Além da minha existência ser completamente impregnada disso, eu resolvi transformar essa impregnação então em alguma coisa que me ajudasse também a me libertar disso e que também desse a responsabilidade social, pública, que eu tenho com essa obra. Porque eu sei que Glauber, pelo amor que ele me deu, e da minha relação de amor e de afeto, eu não posso deixar isso abandonado, e também porque acho a obra extraordinária. E é a mesma coisa com Rogério.

Mulheres: E a diretora nasce como?

Paloma Rocha: Ah, ela nasceu faz tempo....

Mulheres: Mas como? Como você descobriu...

Paloma Rocha: Não se dá comigo desse jeito.

Mulheres: Sei, foi mais orgânico.

Paloma Rocha: É, não se dá comigo dessa maneira. Você está compreendendo? Eu até tenho uma certa dificuldade, e aí tem gente que fala: “ah, por causa do mito, por causa do pai” Não se dá mesmo dessa maneira, entendeu? Porque, por exemplo, a minha trajetória. Eu comecei com teatro, fazia teatro como atriz, que era algo que eu gostava, eu gostava muito do palco, e dirigir teatro, e não sei o quê. E hoje eu dirijo uma instituição. É enorme, então eu acho que faço um grande longa-metragem todos os dias, em projeto interminável, em que eu tenho ali um elenco de pessoas e funcionários, pessoas que eu tenho que pagar, que tem que gerir projetos, que eu tenho que estimular. É um exercício diário de convivência humana que é como se você estivesse trabalhando com atores, com personagens, guardando suas devidas proporções. Muitas vezes para você poder conduzir e dirigir uma equipe, você precisa ter lá também seu jogo de cintura, nos intertícios da personalidade de um, do outro e tal.

E tem esses documentários, desde 1987. O, o primeiro foi o “Romanceiro do Cristo”, que também foi a partir do meu pai, sempre movida muito por essa necessidade de contar essa história. Talvez por enquanto eu tenha sido a diretora de uma história só, que é a minha história. Hoje à tarde eu estava dando uma entrevista para a TV e me ocorreu uma coisa que era mostrar a pessoa que eu conheci. Então eu acho que o meu trabalho de direção se dá na medida em que eu consigo mostrar as coisas da maneira como eu as vejo. E eu acho que é muito simples. O resto é uma série de técnicas que você tem que dominar.

Eu passei nove anos na TV Globo, eu fui assistente de direção na TV Globo. No Governo Collor eu fui trabalhar lá como assistente de direção e lá fui ficando. Eu tinha duas filhas pequenas e então criei minhas filhas ali, batendo ponto. Nunca dirigi na Globo, nunca deixaram, talvez eu nunca quisesse, talvez eu só quisesse mesmo aprender. Talvez eu tenha ido lá para descobrir quem tivesse matado o meu pai. Porque eu tive uma educação que foi o seguinte,. O Glauber me colocou para falar inglês numa escola americana quando eu tinha quatro anos de idade porque ele queria que eu aprendesse a língua do colonizador. Entendeu? (risos) E aí quando ele morreu, eu fui aprender a língua do colonizador pela segunda vez. E foi uma experiência muito difícil pra mim porque eu não era muito aceita ali naquele meio. Não abriam mão do meu trabalho porque eu era competente e me impunha, ganhava a simpatia de um e de outro. E tinha um sentimento de independência muito grande porque eu tinha muito brio desse negócio de ser filha de Glauber, ter visto tudo do jeito que eu vi e não virar uma pessoa dependente, achando que o mundo me devia alguma coisa, entendeu? Ficar pedindo comida na casa dos outros, ficar vivendo de favor.

Então para mim era uma questão de dignidade me manter, e trabalhar na Globo virou para mim um grande desafio, de onde eu tirei muitas coisas, porque eu descobri a atividade capitalista. No cinema e na televisão é a capacidade de você resolver problemas e vários ao mesmo tempo. Então eu ia todo dia para o set, eu tinha trezentos figurantes, 40 pessoas no elenco, três diretores, quatro continuístas, não sei quantas câmeras. Então você vai desenvolvendo sua atividade. Muito da minha formação vem disso aí, a parte mais prática, que foi fundamental agora para poder administrar o Tempo Glauber e fazer esse projeto que começou com o cinqüentenário da Petrobrás.

Teve um proponente que me desviou verba, eu pensei que ia perder tudo. Esse trabalho ocupa uma média de treze horas por dia e várias atividades relacionadas a esse mesmo tema. Porque o Glauber é uma loucura, se você botar 30 pessoas ali trabalhando, hoje tem 24, você vai trabalhar de oito da manhã à meia-noite do mesmo jeito. Porque tem atendimento internacional, atendimento nacional, os próprios projetos que estão sendo realizados agora, a formação do banco de dados, projeto com equipe multidisciplinar com o arquivo nacional. Então vai desde a criação, ali da coisa mais lúdica, mais onírica, da delicadeza que é o “Abry”, que é uma câmera de um ccd, nos momentos da minha vó com a vida no fio da navalha, literalmente, até uma coisa institucional com o arquivo nacional, multidisciplinar, de ser absolutamente preciso e impecável na execução da descrição dos documentos que tem que ser na regra internacional dos arquivos. Então tem os profissionais envolvidos nisso, quer dizer, na verdade eu lido com tudo isso, então eu vou de um extremo ao outro, porque senão não acontece.

Mulheres: E como é co-dirigir? E ainda no seu caso com o Joel Pizzini, seu marido.

Paloma Rocha: Também não tem isso. Com o Joel é o seguinte. Ele é uma pessoa muito competente, muito criativo, a gente se casou e tal porque é o seguinte. Nesse meu olhar, ou seja, mostrar a pessoa que eu conheço, o papel dele é, muitas vezes, de enxergar como um lapidador, como se fosse aquilo ali uma relação muito bruta, entendeu? Então a gente divide bem o trabalho. Ele tinha muita resistência disso no começo. Eu falava “não, não tem nada disso, vamos fazer juntos, não tem problema nenhum, isso é problema de ego, não tem esse negócio, o importante é que fique bom, eu preciso que você me ajude”. E aí eu fui enrolando ele (risos). Ele se convenceu, fez o primeiro, fez o segundo, e está no quinto. Mas ele faz as coisas dele sozinho e eu faço as minhas outras coisas sozinha também, que é administrar esse negócio todo, fazer banco de dados, site, exposição. É isso.

Mulheres: Assistindo ao “Abry” ontem eu adorei rever as cenas da Anecy Rocha, que está linda em “A Lira do Delírio”. Você tem também esse interesse em recuperar esses trabalhos da Anecy? Porque ela é uma atriz extraordinária, mas muita gente ainda não conhece os trabalhos dela.

Paloma Rocha: Tem. A Anecy é a minha madrinha, eu fui criada por ela. Na verdade, a gente tem essa necessidade de fazer isso, mas a gente ainda não consegui chegar até lá. Mas... para mim talvez seja mais difícil. Eu fiquei pensando nisso outro dia, por que eu não consigo organizar, “ah, é por falta de tempo?”... È mais difícil. É mais difícil para mim, é mais difícil para a minha avó... Mais difícil por questões mesmo todas. Entrar em contato com a história toda.

Mulheres: Há alguns anos eu entrevistei a dona Lúcia e, apesar de todas as tragédias pelas quais ela passou, eu percebi que foi difícil para ela falar da Anecy.

Paloma Rocha: É barra pesada. Então, tem alguns filmes, como o “Menino de Engenho”, que o Walter restaurou, tem “A Lira do Delírio”, tem o “Brasil Ano 2000”, tem os filmes que estão com o Cacá, tem o filme com o Khouri. Na verdade, talvez haja uma certa dificuldade de reunir isso, mas isso é uma besteira, é uma falta realmente de iniciativa nossa. Também pelo volume de coisas que o Glauber deixou, a produção do Glauber é muito maior e aí ficou ali para eu fazer. Não dou conta de fazer tudo, mas a gente quer fazer. Outro dia a gente passou “A Lira do Delírio” no Tempo Glauber. Depois também porque teve questões ali, pessoais, da família com o Walter, que demoraram anos para serem superadas entendeu? E que até hoje não foram completamente, hoje existe uma convivência formal, inclusive ele vem aí. Mas a gente vai fazer. Inclusive tem o nome da sala lá no Tempo Glauber, o nome é dela, chama Sala Anecyne. A gente vai fazer sim.

Mulheres: Uma curiosidade que eu tenho. Por que a Anecy não fez filmes com o Glauber?

Paloma Rocha: Eu acho que o Glauber não trabalhava muito com a família não. A Rosinha trabalhou com ele.

Mulheres: A Helena Ignez.

Paloma Rocha: Só o “Pátio”. A Anecy fez o “Menino de Engenho” com o Walter, ele fez o “Terra em Transe”. Aí depois ele fez o “Dragão” e depois foi para fora, né?

Mulheres: É porque poderia ser um encontro tão interessante.

Paloma Rocha: Exatamente. Talvez tenha sido falta de oportunidade. Trajetórias também, personagens.

Mulheres: E o Tempo Glauber? Ele está agora garantido?

Paloma Rocha: Não, garantido não está não. A Cinemateca Brasileira não está garantida.

Mulheres: Mas não está mais naquela fase mais complicada de anos atrás, não é isso?

Paloma Rocha: Não está porque nós estamos há quatro anos fazendo uma gestão lá. Às vezes bastante difícil, dura, mas a gente reformou, tem um acervo climatizado. A gente está com um projeto chamado Revitalizando a Cultura que vai se encerrar agora, não o projeto, mas o recurso, em que a gente está recatalogando toda a documentação, restaurando alguns documentos. Dentro do Tempo Glauber foi montado um pequeno laboratório digital, um laboratório de restauração de papéis e de fotos. Tem o apoio do arquivo nacional. Toda a documentação chamada de PI, produção intelectual dele com quase onze mil itens, já está toda digitalizada, ela está duplicada. Foi feito um arranjo arquivístico em relação a todo esse material, tem princípios de conservação, a gente trabalha com profissionais lá dentro, está sendo feito um banco de dados em LPO3, que são aqueles discos e também em DVD. Esse banco de dados foi desenvolvido a partir do banco de dados do Siam, que é o sistema internacional de arquivos. Foi feito um mini-sian a partir de um projeto que foi desenvolvido com a UERJ, do Centro de Cidadania Barbosa Lima Sobrinho, está alimentando esse banco de dados.

Tem o site que está em quatro línguas, tem esse projeto Coleção Glauber Rocha, da Petrobrás, que foi administrado por uma outra produtora, mas que nós estamos concluindo agora, onde foi também bem ou mal digitalizado todo esse acervo que está compondo os extras. Eles nos deram orçamento para fazer restauração de quatro filmes, duas películas e quatro DVDs, várias cópias distribuídas no Brasil e no mundo. Um dos quatro documentários virou o “Anabasys” que é um filme em 35mm, os outros viraram seriados de TV. Então o volume de coisas que apareceram... Eu acho o Glauber um homem de extrema generosidade porque ele deixou horas e horas de fala dele, contando ele mesmo o próprio processo. Deixou os escritos, as pistas, quatro mil fotografias. Ele deixou as várias versões dos roteiros dos filmes. Ele conta todo o processo, todo o método de direção e de criação do período dele. Quer dizer, está tudo ali documentado e a gente colocou em DVD, estamos dando acesso.

Agora, paguei as contas do mês passado... Vou começar a cortar o pessoal agora, começar a desmobilizar a equipe, captar um pouco do Fundo Nacional de Cultura, que segura até dezembro. E eu estou lutando. Foi feita uma exposição, eu mandei um projeto para o Centro Cultural Banco do Nordeste, que está na Bahia, foi feito pelo governo baiano. O governo baiano queria fazer uma filial do Tempo Glauber na Bahia, mas aí vai faz, mas não faz, porque tudo é difícil, porque as pessoas não sei o quê e tal.... Mas aí não dá para ficar parado.

Ontem eu fui em Furnas, vamos trazer a exposição para São Paulo, para o Rio de Janeiro, tem que movimentar. Os recursos para a cultura nesse ano não são muito promissores, porque a nossa principal incentivadora, que era a Petrobrás, está com problemas. Então diversificou nas outras estatais, tudo através da Lei Rouanet, e aí fica esse negócio, vai que não vai. Na maioria do meu tempo eu procuro solução, é quase uma obsessão, entendeu? Então eu fico o tempo todo me movimentando e as coisas acontecem com muita velocidade. A obra é muito fértil, você lança um filme e o filme pega, o filme dá público, você faz três cópias e o filme entra em circuito, e está nas capas dos jornais como se fosse um filme novo, que tivesse sido lançado com trinta ou trezentas, e fica ali pau a pau. A energia é colocada na hora em que está sendo feita a coisa, na hora em que você está pensando na idéia, por onde que ela vai sair, entendeu? E não “ah, se vai ter bilheteria, que fulano, borderô, estatística”. E é um exercício de convencimento muito grande. O Joel é muito bom nisso, ele pesquisa, manda os catálogos, pega matéria com Visconti, com Rosselini. Ele ajuda muito no poder de convencimento, da importância da obra do Glauber.

Mulheres: E da obra do Rogério é a Helena que cuida?

Paloma Rocha: A Helena e as minhas irmãs, Sinai e Djin, do jeito delas. Djin está dividindo a atividade dela também como atriz. Minha mãe na frente, e Sinai também. Sinai é que fez a exposição de Helena no centro Cultural da Caixa Econômica.

Mulheres: Qual foi o último filme brasileiro que você assistiu?

Paloma Rocha: Se não me engano foi “Desafinados”.

Mulheres: Eu sempre convido minhas entrevistadas para homenagearem uma mulher do cinema brasileiro de qualquer época e de qualquer área.

Paloma Rocha: Eu vou homenagear a minha tia, Anecy, pelos motivos todos que a gente já sabe. Pelo papel todo que ela teve no cinema brasileiro, pela beleza dela, pela contribuição que ela deu.... Pelo anjo que ela é, que ela se transformou.

Mulheres: Muito obrigado pela entrevista.



Entrevista realizada em junho de 2008,na "CINEOP - 3ª Mostra de Cinema de Ouro Preto".
Foto: Alexandre C. Mota/Universo Produção

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Sala 
 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.