Ano 17

Lúcia Rocha

Impossível não se emocionar ao falar com dona Lúcia Rocha – ela também se emocionou em alguns momentos da conversa -, essa guerreira de 86 anos, em  luta permanente para preservar   uma das mais memoráveis páginas do nosso cinema: a produção artística do cineasta  Glauber Rocha, seu filho. Nome de ponta do Cinema Novo, brilhante momento do cinema brasileiro e que projetou nossa produção cinematográfica em nível internacional, Glauber Rocha é um gênio da nossa cultura e produziu muito: filmes, roteiros, desenhos, cartas. Entre seus filmes, clássicos como a trilogia da terra, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Terra em Transe” e “A Idade da Terra”, que estão sendo restaurados - "Terra em Transe" está sendo relançado em várias capitais..

Todo o material produzido por Glauber Rocha está reunido no Tempo Glauber, fundado e cuidado com mãos zelosas por Lúcia Rocha. Personagem fundamental do moderno cinema brasileiro, Lúcia Rocha foi incentivadora do filho cineasta, “O Cinema Novo nasceu dentro da minha casa”, e agora responsável pela preservação de sua memória. Se a vida tem sido dura com Lúcia Rocha, seus filhos morreram jovens  e no auge da criação,  ela também lhe foi generosa dando-lhe outra artista fundamental do nosso cinema: sua filha, a atriz Anecy Rocha, musa inconfundível do cinema brasileiro e ícone desse site.

Dona Lúcia Rocha nasceu em Vitória da Conquista, no dia 16 de janeiro de 1919. Com o fascínio do filho, Glauber Rocha, pelo cinema, ingressou no universo cinematográfico de corpo e alma, ajudando o filho a produzir seus filmes. Em 1999 ganhou bela biografia, “Lúcia, a mãe de Glauber”, de José Roberto Arruda, ed. Geração Editorial. Em entrevista exclusiva ao Mulheres, Lúcia Rocha fala sobre os filhos, o Tempo Glauber, e sua luta para manter vivo todo um acervo essencial para a cinematografia mundial. 

 

Mulheres do Cinema Brasileiro: A trajetória do moderno cinema brasileiro se confunde com a trajetória da senhora. A senhora é chamada, carinhosamente, por muitos, como a mãe do Cinema Novo, não é isso? 

Lúcia Rocha: Eu fui marcada por isso. É que o Cinema Novo nasceu dentro da minha casa. O Glauber era o guru de todos, e lá em casa se reuniam o Cacá (Carlos Diegues), o (Paulo César) Saraceni, o Leon (Hirszman), o Joaquim (Pedro de Andrade), o (Arnaldo) Jabor, o Nelson Pereira (dos Santos). Outro que freqüentava muito a minha casa era João Ubaldo (Ribeiro). Todos ficavam meio em volta dele. 

Anos mais tarde, quando o filme “A Idade da Terra” foi lançado, e foi muito mal lançado, pois até hoje muita gente não o conhece, os jornais acabaram com ele e diziam que o Glauber era um impostor, era um ignorante, não tinha cultura, que era um louco. E o Glauber me disse uma coisa que nunca mais esqueci. Ele disse assim: “não importa não minha mãe, eles têm a cultura, a sabedoria, mas eu fico com a minha loucura, porque os loucos herdam a razão”. O Glauber quando vivo era chamado de louco, e eu  até acho que era loucura mesmo, mas era uma loucura santa. 

Antes de morrer, o Glauber me pediu para cuidar das coisas dele, para reunir seus filmes. Com tanta coisa que me aconteceu, depois de passar pelo sofrimento com a morte dos meus filhos e do meu marido, eu nem sei como resisti - entre essas perdas, a morte trágica de Anecy Rocha, ao cair no fosso de um elevador. No início eu fui muito acusada, de que não ia conseguir. O Orlando Senna me ajudou na criação do Tempo Glauber, mas depois, é compreensível, teve que se afastar. Eu continuei, viajei muito, catei artigos no mundo todo. Não venci tudo porque a falta de dinheiro é a maior dificuldade. Mas ainda assim o “Tempo Glauber” está aí. 

Mulheres: O Tempo Glauber não tem patrocínio, não tem ajuda? 

Lúcia Rocha: Tem muita gente que até poderia ajudar, mas eu acho que eles têm medo, medo de ver esse vulcão. Eu conto com algumas ajudas. Em 2003 a Brasil Telecom me ajudou na restauração dessa casa. O Walter Salles também me deu uma ajuda particular, ele não gosta muito que se fale sobre isso, para a nossa sala de computadores. Eu tenho um patrocínio pequeno da RioFilme, mas que me ajuda bastante. Porém, tem cinco meses que eles não liberam a verba. Teve também uma ajuda do MINC. Mas é tudo com muita dificuldade. Agora está se falando por aqui em fazer uma Ong de amigos doTempo Glauber. A gente recebe muita visita aqui, mas a gente não cobra, daí que através dessa Ong as pessoas poderiam contribuir da forma que for possível. 

Mulheres: Seus filhos, o cineasta Glauber Rocha e a atriz Anecy Rocha, são personagens fundamentais da história do cinema brasileiro. Quando eles eram crianças a senhora chegou a imaginar, em algum momento específico, o tamanho do espaço que eles teriam no nosso cinema? 

Lúcia Rocha: Não teve um momento específico não, mas começando pelo Glauber, eu via que ele era uma criança diferente. Enquanto os meninos ficavam às voltas com os brinquedos da época, como bola de gude, ele ficava ligado aos estudos, gostava de escrever poemas.  Até que aos nove anos eu tive uma surpresa ao ser chamado pelo diretor de sua escola, que era um colégio americano, prebisteriano, o Instituto 2 de Julho. O diretor me disse que tinha encontrado um gênio entre seus alunos e me mostrou o Glauber. O Glauber tinha escrito uma peça, “Ilito Doro”, um título em espanhol que quer dizer "Menino de Ouro". Era a história de um garoto de origem real que se apaixonava por uma plebéia.  

Ele montou a peça, dirigiu e atuou. Daí não parou mais, aos 17 fez “Pátio” e “A Cruz na Praça”, aos 18 “Barravento” e aos 23 “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Tem 24 anos que ele foi embora, mas está aí, ligado pelo Brasil. Agora mesmo, eu acabei de chegar da França, das festividades do Ano Brasil/França. Eles exibiram a cópia restaurada de “Terra em Transe” e foi um sucesso extraordinário. Muita gente veio me falar o quanto Glauber é genial. Foi realmente um sucesso de espantar, que me fez crer de vez que ele é mesmo um cidadão do mundo. 

Eu fico cuidando das coisas dele aqui no Tempo Glauber. São 80 mil documentos, entre livros, roteiros, peças, cartas, fotografias e também uma faceta pouco conhecida dele que são os desenhos. Vem muita gente aqui, na verdade, mais gente do exterior que brasileiro. 

Mulheres: O que a senhora acha disso, do fato de ter mais visitante estrangeiro que brasileiro? 

Lúcia Rocha: Não sei. Quer dizer, agora até que tem tido mais brasileiro, as faculdades têm se interessado mais. Eu acho que o Brasil tem medo do Glauber. O Glauber morreu aos 42 anos, mas ele fez muita coisa. E ele viveu no exílio, ele ficou sete anos no exílio quando foi botado para fora do Brasil. Foi na época do “Terra em Transe”, o filme foi censurado, e é aquela coisa,  o Glauber não tinha medo de falar as coisas. Já se passaram 24 anos e os jovens de hoje, de vinte e poucos anos, não tiveram acesso à obra dele. Já na Europa ele escreveu muito, fez três filmes maravilhosos. Eu acho que a Europa entende o Glauber melhor.  

Mulheres: A Anecy Rocha é uma atriz maravilhosa do cinema nacional. E com ela, como a senhora percebeu o seu talento? 

Lúcia Rocha: A Nécy era uma atriz nata. Aos quatro anos já dançava balé e virava de ponta à cabeça. Ela adorava recitar, ela foi uma grande declamadora. Teve uma escritora de teatro que há pouco tempo disse que ela é uma musa do cinema brasileiro. Ela fez 16 filmes. Era uma pessoa carinhosa, muito generosa, tinha um humor fantástico, era uma alegria só. Não é corujice minha não, você pode perguntar para qualquer pessoa que a conheceu que ela vai te afirmar isso. Você chegou a conhecê-la? 

Mulheres: Infelizmente não, mas a considero uma atriz excepcional. Ela é mesmo uma autêntica musa do cinema brasileiro e no site eu faço uma homenagem a ela. Ela dá nome a uma das salas do site e sua foto está na página principal ao lado das outras homenageadas, em uma cena de “A Grande Cidade”. 

Lúcia Rocha: A Anecy fez curso de teatro, era aluna aplicada, sempre bem classificada, e daí fez grandes filmes. Tem “A Lira do Delírio” (Walter Lima Jr), por exemplo, que é uma obra-prima. Tem  “A Grande Cidade”, pelo qual ela foi a primeira atriz a receber o Urso de Prata no Festival de Berlim. Ela era uma menina espetacular, tenho lembranças dela, muitas saudades. Ela teve aquela morte triste, até hoje eu detesto elevador, ele, que levou minha filha lá para o fundo. Até hoje eu não consigo compreender essa morte dela, mas aconteceu não é, era o que Deus tinha para ela. 

Eu tive outra filha que morreu e que também era gênio. Ela era mais nova que o Glauber, morreu aos 14 anos, de leucemia. 

Mulheres: A senhora se lembra da sensação que teve ao ver a Anecy pela primeira vez na tela do cinema?

Lúcia Rocha: A primeira vez que a vi foi em “Menino do Engenho” (Walter Lima Jr). Aquele papel lindo, de uma garota que acaba virando tia daquele menino. E teve também “A Grande Cidade”, em que ela tem aquela grande coragem para defender o seu grande amor. A cena em que ela atravessa o portão e leva aquele tiro, quando ela cai... que atriz fantástica, que desempenho ótimo para uma atriz iniciante.  

Tem também “O Amuleto de Ogum” (Nelson Pereira dos Santos”), premiado no Festival de Cannes. No filme ela faz o que se chama hoje de  garota de programa, está fantástica, muito natural. Há pouco tempo eu vi o filme e eu senti os telespectadores fascinados com o trabalho dela.  

Mulheres: Como a senhora vê essa continuidade com os seus netos envolvidos com o cinema, como o Erik e a Paloma Rocha? 

Lúcia Rocha: Eu vejo com uma alegria muito grande, todos têm cinema na veia. O Erik é muito inteligente, fez o “Rocha que Voa”, mas agora foi para Bauru, em São Paulo, e não anda querendo voltar. A Paloma se comprometeu em recuperar os filmes e está fazendo isso junto à Petrobrás. Não é uma garota, é uma senhora de 43 anos, mas esse trabalho é fundamental, porque para mim, com 86 anos, as coisas já não ficam tão fáceis. 

Além deles tem o João Rocha, que é quem cuida aqui do Tempo Glauber junto comigo, ele é o responsável pela divulgação, eu sou a presidente e ele dirige a divulgação. Ele está fazendo um filme, “Profana”, que é um primeiro filme, sem financiamento, apenas ele a Renata Rocha, que é diretora. Ela é Rocha também, mas não é dos nossos rochas. Ele está produzindo, lutando. 

Mulheres: Dona Lúcia, muito obrigado pela entrevista, a senhora é peça fundamental tanto na produção desses filmes essenciais da nossa cinematografia como agora na  preservação deles e de nossa memória. 

Lúcia Rocha: Muito obrigada Adilson, é como está lá na Bíblia, a medida da felicidade é em Deus que a gente encontra, e também a vontade de viver.

 

Entrevista realizada em maio de 2005.

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 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.