Ano 17

Maria Ionescu

Maria Ionescu é nome de destaque em produção executiva no cinema brasileiro. Formada em cinema pela ECA, na USP, fez os primeiros trabalhos ainda na Faculdade, época em que conhece o cineasta Chico Botelho, que foi um de seus professores, e com quem veio a se casar: "Logo que eu saí da ECA, eu fui fazer um documentário com ele chamado “A Longa Viagem”, em 1984/1985. Desse documentário a gente acabou namorando, se casando e abrimos uma empresa juntos, a Orion Cinema e Vídeo. Isso foi muito em função de se fazer o longa dele, “Cidade Oculta”, que teve financiamento da Embrafilme, foi um dos últimos filmes a receber esse financiamento".

Em tempos de ECA, Maria Ionescu estava mais interessada na parte técnica: "eu não pensava em ser produtora. Na verdade, eu entrei na escola com uma coisa mais focada em fotografia, que era uma coisa que eu gostava, mas acabei me interessando por som, achei que eu ia seguir uma carreira mais técnica mesmo. A produção foi pelas circunstâncias, por essa união com o Chico, que achava que eu era uma boa produtora. Eu acho que ele já estava (risos) pensando numa produtora para ele (risos)".

Maria Ionescu já trabalhou com cineastas importantes, e, dentre eles, com muitas mulheres, em curtas e longas: Suzana Amaral, Tata Amaral, Mirella Martinelli, Laís Bodanzky, Anna Muylaert, Monique Gardenberg. Mas é com Carlos Reichenbach que mantém parceria desde "Filme Demência", na década de 1980: "O Carlão é uma pessoa magnífica para trabalhar porque ele é um produtor também, ele tem muito a cabeça de produtor, às vezes ele já vem com a solução, ele nem vem com o problema". Maria Ionescu exalta também Sara Silveira, sócia de Carlos Reichebach na "Dezenove Filmes", e parceira de muitos trabalhos: "eu tenho muito respeito e muita honra em trabalhar na Dezenove, com o Carlão, nos filmes do Carlão. E com a Sara também, tem aí uma produtora que tem um trabalho muito importante dentro do atual cinema brasileiro".

Maria Ionescu esteve na "11ª Mostra de Cinema de Tiradentes" acompanhando o lançamento do filme "Falsa Loura", de Carlos Reichenbach. Em conversa exclusiva com o Mulheres falou de sua trajetória, sos trabalhos com o cineasta e marido Chico Botelho, sos trabalhos na Dezenove. Falou também sobre o momento atual do cinema brasileiro e a possibilidade de reativar sua produtora, a Orion.

 

Mulheres do Cinema Brasileiro: Como você chegou ao cinema?

Maria Ionescu: Olha, o primeiro momento foi pelo curso de cinema da ECA, eu sou formada em cinema e foi ali que tudo começou pra mim. Eu fiz alguns trabalhos na própria escola, e, fora a formação acadêmica, eu já comecei a desenvolver alguns trabalhos em curta, geralmente vinculado à escola, mas com outras inscrições, como convênios, com a Emrafilme. Comecei a partir mais pra essa coisa mais prática. Mesmo na escola, eu achei que ia fazer som, estava mais focada nessa parte técnica.

Mulheres: Isso foi quando?

Maria Ionescu: Isso foi de 1979 até 83, mais ou menos. E foi lá que conheci o Chico (Botelho) também, que era meu professor. Acabei me casando com ele, e depois do curso a gente fez alguns trabalhos juntos. Ainda na escola eu já comecei a desenvolver trabalhos com ele, fui estagiária em um longa. Quando o curso chegava ao final, eu fiz um documentário com ele. O Chico, apesar de ser conhecido mais como fotógrafo e como diretor de ficção como o “Cidade Oculta” (1986) e o “Janete” (1983), tinha um trabalho importante como documentarista. Ele tem documentários muito interessantes.

Logo que eu saí da ECA, eu fui fazer um documentário com ele chamado “A Longa Viagem”, em 1984/1985. Desse documentário a gente acabou namorando, se casando e abrimos uma empresa juntos, a Orion Cinema e Vídeo. Isso foi muito em função de se fazer o longa dele, “Cidade Oculta”, que teve financiamento da Embrafilme, foi um dos últimos filmes a receber esse financiamento. Terminando o “Cidade Oculta”, chegando ali nos anos 1990, com o Plano Collor fechando a Embrafilme, teve um momento que não se tinha mais financiamento de cinema brasileiro, a não ser de curtas. Eu acho que foi o ápice do curta-metragem, final de 1980 e início de 90.

Então, a única maneira de se fazer cinema era fazendo curtas e documentários. No nosso caso, a gente acabou fazendo uma série para o Itaú Cultural chamada “Panorama Histórico Brasileiro”. Foi um trabalho bem interessante, uma série de documentários feitos com diretores convidados. Eles dividiram a série por décadas e cada uma delas era roteirizada e dirigida por um cineasta diferente, pessoal de cinema. A gente trabalhou com o João Batista de Andrade, com o Denoy de Oliveira, com o Eduardo Escorel, com a Mirella Martinelli, com o Francisco César Filho, o Chiquinho, que dirigiu dois trabalhos.

Mulheres: O trabalho com o Décio Pignatari também está nessa série, não é?

Maria Ionescu: O Décio Pignatari dirigiu um. Foi um trabalho bem interessante. E foi numa época em que não se financiava longas, em função do Plano Collor, do fim da Embrafilme. Foi antes do renascimento do cinema brasileiro, antes da Retomada.

Mulheres: Então nessa época do curso você não pensava em ser produtora?

Maria Ionescu: Não, eu não pensava em ser produtora. Na verdade, eu entrei na escola com uma coisa mais focada em fotografia, que era uma coisa que eu gostava, mas acabei me interessando por som, achei que eu ia seguir uma carreira mais técnica mesmo. A produção foi pelas circunstâncias, por essa união com o Chico, que achava que eu era uma boa produtora. Eu acho que ele já estava (risos) pensando numa produtora para ele (risos). E eu estava seguindo uma coisa mais técnica mesmo. Eu fiz assistência de direção dele em alguns filmes e aí, naturalmente, você tendo uma produtora, começa a produzir, você começa a se envolver. No meu caso, mais na produção executiva, eu nunca fui uma diretora de produção, apesar de ter feito alguns trabalhos em curta-metragem, principalmente. Mas nunca foi o meu forte, eu atuo mais na área da produção executiva mesmo.

Mulheres: O site é visitado por pesquisadores, mas também por pessoas que querem conhecer um pouco mais o cinema brasileiro. Você poderia explicar o que é cuidar da produção executiva de um filme?

Maria Ionescu: Hoje você vê nos filmes vários produtores né? Produtor, co-produtor, produtor associado, produtor executivo. No caso da produção executiva, ela cuida de uma área, principalmente hoje, mais financeira, uma gestão financeira de um projeto. È uma área de contratações, direitos autorais. Na verdade, você planeja o filme, faz um planejamento, um desenho de produção dentro de um orçamento e tenta gerir aquilo daquela forma. A produção executiva hoje em dia é muito ligada à parte financeira, de negociações, de contratações, de direitos autorais.

No meu caso, com eu trabalho fixa, praticamente, numa produtora, eu tenho um trabalho um pouco mais amplo. Eu começo logo no desenvolvimento do roteiro, então eu já faço o acompanhamento, a formatação desse projeto para as leis de incentivo, a captação desse projeto, ajudo, não é que eu faça sozinha, e aí a execução. E sempre vinculado a uma coisa do orçamento, é uma gestão financeira também, principalmente. Mas tem todas as relações.

Um exemplo é a questão de direitos autorais. Desde o início é uma coisa que você tem que cuidar. Às vezes é uma adaptação literária, outras é por causa da música. Então tem isso também, tem toda uma, vamos dizer, burocracia, né? E você tem que ter, junto com a gestão financeira, essa papelada toda em ordem.

Mulheres: Esse seu relacionamento, de namoro e casamento com o Chico Botelho, foi durante quanto tempo?

Maria Ionescu: Foi desde o final da ECA, que foi mais ou menos 1983, 1984, até a morte dele, que foi em 1991.

Mulheres: O Chico Botelho foi um grande diretor. Eu queria que você falasse um pouco sobre o trabalho com ele. Você disse que foi assistente em alguns filmes.

Maria Ionescu: Sim, fui, no “Janete” eu fui estagiária de produção, eu cuidava da alimentação. Aí eu fiz “A Longa Viagem”, que é um documentário pouco visto dele, mas muito interessante. É um pouco sobre o movimento hippie, como é que foi, o que foi essa geração, eu fiz assistência de direção. E fiz assistência de direção no “Cidade Oculta”, que foi quando a gente criou a Orion. Eu estava grávida, inclusive, do meu primeiro filho, e ele me convidou. Eu até falei “puxa, mas eu não tenho tanta experiência para fazer um longa”. E ele disse “o que eu quero é exatamente uma pessoa com quem eu tenha uma intimidade, enfim, pra gente conversar, trocar uma idéia, sem ter aquele assistente de direção que fica me cerceando”. Dos outros trabalhos eu não participei porque eu já estava fazendo a produção executiva, e aí você tem um envolvimento com o filme que não permite você poder trabalhar no set de filmagem.

Mulheres: O “Cidade Oculta” foi muito visto e o “Janete” não. Não existe a possibilidade de lançar esses filmes em DVD?

Maria Ionescu: Eu tenho vontade. O “Cidade Oculta” é muito procurado. Eu tenho duas cópias do filme, que eu sempre tive, e elas estão em estado deplorável, assim como o negativo, ele já está se deteriorando, tem uma parte do som que já foi perdida. Eu preciso ter algum recurso para que eu possa recuperar e fazer talvez digital, que tem um custo que não é pequeno e que eu não tenho condições de bancar, particularmente. A produtora que a gente tinha juntos, ela não está ativa hoje, então eu não tenho esse recurso.

Eu realmente tenho conversado, tenho pensado em propor para algum edital, como o da Petrobrás, para recuperar o “Cidade Oculta”, que está muito deteriorado. E também o “Janete”, que por incrível que pareça, tem uma telecinagem muito precária. O “Janete” é o começo do vídeo, né? Então tem um telecine feito pela TV Cultura e não tem mais nada. Eu realmente teria que ter um investimento ou uma distribuidora que tivesse interesse e que pudesse bancar isso pra mim. Eu tenho essa preocupação porque as cópias estão despedaçando e daqui a pouco eu não vou poder mais emprestar.

Com o “Cidade Oculta” você não imagina, eu empresto o filme direto. E aí eu digo “olha, você tem que tomar muito cuidado porque só tem duas cópias”. Mas o pessoal faz questão. Eu tenho procura principalmente da nova geração, que adora esse filme, é uma coisa impressionante. Infelizmente, nosso cinema, ele... Enfim, eles estão começando a recuperar os filmes e eu acho que tem outros filmes que são prioritários né? Filmes que estão mais perdidos.

Mulheres: A sua parceria com a Dezenove foi a partir de qual filme?

Maria Ionescu: Foi a partir do “Filme Demência” (1985). Eu conheci o Carlão (Carlos Reichenbach), conheci a Sara (Silveira). Foi a primeira vez que nós três trabalhamos juntos. No “Filme Demência” tinha várias pessoas da ECA, o Zé Roberto, a Mirella, eu. O Carlão até comentou “olha, mais uma cria do Chico aqui”, porque éramos alunos dele. Como o Carlão, inclusive, já disse, ele tem mesmo essa coisa, quando ele gosta da pessoa, quando você se entende no trabalho com ele, ele gosta de permanecer com aquela pessoa em todos os filmes. E aí eu fiquei, como ficou a Sara também. A Sara de uma outra forma, porque ele propôs uma sociedade entre os dois, eu tinha minha produtora.

A Sara fez muitos filmes do Itaú Cultural, ela trabalhava na minha produtora fazendo direção de produção dos filmes do Itaú. Quando ela foi fazer o “Alma Corsária”, ela me chamou como produtora executiva. Ela sempre falava “a gente precisa fazer juntas, precisamos fazer aí um pool de produtoras”. E eu acabei voltando de uma forma que inverteu, eu agora trabalho para ela (risos). Eu desisti da minha produtora um pouco né? Falei, vou descansar e vou trabalhar com eles. Então é uma parceria de muitos anos, de muitos filmes. E também é como Carlão já falou, a gente é de um entendimento! Quando a gente começa um filme dele, ele não precisa dizer nada. O Carlão vem e a gente não precisa de muitas palavras para entender o que é preciso, o que é importante.

O Carlão é uma pessoa magnífica para trabalhar porque ele é um produtor também, ele tem muito a cabeça de produtor, às vezes ele já vem com a solução, ele nem vem com o problema. Ele fala “ah isso aqui eu percebo que é muito difícil, então eu já estou pensando em fazer dessa forma, entendeu?”. Então eu tenho muito respeito e muita honra em trabalhar na Dezenove, com o Carlão, nos filmes do Carlão. E com a Sara também, tem aí uma produtora que tem um trabalho muito importante dentro do atual cinema brasileiro.


Mulheres: Você tem uma parceria de trabalho também com o Ricardo Dias, não é? Tem um curta...

Maria Ionescu: Não, com o Ricardo Dias eu fiz um episódio de um longa que é o “Oswaldianas” (1992), em que ele dirigiu um episódio junto com o Inácio Zats, “Uma Noite com Oswald”.

Mulheres: Eu achei que você estava envolvida nos filmes dele depois também.

Maria Ionescu: Não, é a Zita Carvalhosa. Porque o Ricardo Dias foi sócio da Superfilmes, logo no início da Superfilmes. Depois ele saiu, mas continuou como diretor da casa. Eu tive um trabalho muito grande na época de curtas com a Mirella, o Chiquinho...

Mulheres: Com o André Klotzel.

Maria Ionescu: Com o André Klotzel eu cheguei a fazer alguns trabalhos, mas ele também era mais Tatu Filmes. É porque na década de 1980, 90, em que a situação estava muito complicada para o cinema brasileiro, a Superfilmes e a Orion dividiu durante muitos anos a mesma estrutura. Então até parecia que a gente fazia as coisas juntos, mas na verdade a gente só divida o espaço. Tanto que depois, quando a gente deixou de dividir, eu ainda fiz alguns trabalhos com a Zita, como diretora de produção, mas a ligação do André era mais com o Chico mesmo. Enfim, o André foi aluno do Chico, depois o Chico, na Tatu Filmes, fez a produção do “A Marvada Carne” (1985). O André Klotzel foi assistente do Chico em alguns filmes, e não sei se o Chico chegou a fotografar um curta dele.

Mas o que aconteceu mesmo é que durante muitos anos, a Orion, que era eu e o Chico, dividia a mesma estrutura na Vila Madalena com a Superfilmes, que era a Zita, o André Klotzel, o Pedro Farkas, e mais um que não me lembro agora. Daí, quem ia a uma outra produtora, via todo mundo junto ali, mas era mais uma parceria geográfica, e também de dividir, trocar idéias, projetos, porque tinha afinidade.

Mulheres: Você agora está mais envolvida nas produções da Dezenove ou tem outros projetos?

Maria Ionescu: Não, eu estou completamente envolvida com as produções da Dezenove. Têm alguns filmes que eu até assino junto com a Sara Produção, que são projetos que às vezes vêm. A gente começa às vezes muito no início do projeto. O cara tem um argumento e a gente começa a desenvolver o roteiro e depois em um filme, então isso leva anos. De certa forma, em alguns filmes, eu tenho até co-produzido, né?

E tem a minha produtora, eu estou querendo voltar com ela e fazer alguns filmes. Quando o Chico faleceu em 1991, quem herdou a Orion, fui eu e os meus dois filhos, Não é nenhuma empresa magnífica, mas herdou no sentido de que eles ficaram sócios. E hoje eles cresceram, minha filha está com 20, meu filho está com 22 anos. Minha filha está fazendo cinema e meu filho está fazendo música.

Mulheres: Quais são os nomes?

Maria Ionescu: Felipe e Helena. E eles, de certa forma, têm me estimulado “por que a gente não volta a trabalhar com a Orion, enfim, produzir algumas coisas?”. Minha filha, naturalmente, porque ela está fazendo cinema. Então vamos fazer alguns curtas. Eu estou pensando, realmente, em voltar a produzir de novo, mas é um projeto a longo prazo. Eu estou mais envolvida com os projetos da Dezenove, a gente tem projetos até 2009, com coisas em andamento. Então seria uma coisa meio paralela, para que não inviabilizasse, porque como produtor você tem uma outra responsabilidade.

Mulheres: É impressionante a presença das mulheres na produção.

Maria Ionescu: Ah, sempre foi, principalmente no cinema de São Paulo, e no Rio também. No cinema brasileiro tem muitas mulheres produtoras, às vezes produtoras dos maridos diretores, é uma tendência. A mulher é boa nessa coisa de administrar, é boa pra gerir e pra mandar também. Eu acho que as mulheres, quando elas mandam, elas valem por muitos homens (risos). A mulher é mandona. Eu acho que hoje em dias os homens estão até sendo ultrapassados pelas mulheres. E com as produtoras com certeza, eu acho que tem um histórico de produtoras.

Na minha relação com o Chico, eu fui muito para a produção porque a gente se casou, ele era o diretor, a gente tinha uma produtora para produzir os filmes dele. Era uma estrutura conveniente, não existiam grandes produtoras que pudessem abarcar o filme, então era a esposa, era uma coisa natural. Ele era o lado criativo e eu era administrativo, vamos dizer assim, as duas coisas combinavam. É claro que você precisa ter uma certa, não vou dizer vocação, mas gostar um pouco dessa coisa. Eu gosto de matemática, eu gosto de números. Mas eu acho que é uma tendência também, eu acho que começou aí. Todo mundo que é dono de uma produtora de cinema, com uma estrutura meio enxuta, sempre pensou numa mulher para fazer a produção. Então eu acho que é uma tradição no cinema brasileiro, de muitos anos. Agora é que está se dando o contrário, que têm os homens produtores, mas a grande maioria é de mulheres.

Mulheres: Como você vê o atual momento do cinema brasileiro?

Maria Ionescu: Eu acho que tem sido feito muitas coisas, tem muita gente nova aí que está de certa forma, eu não digo renovando, mas dando, trazendo novos ares. Houve um investimento muito grande nos últimos anos, o que, conseqüentemente, fez surgir muita gente nova. Com isso eu acho que a gente está com um cinema bom em quantidade, rico em temas e propostas diversas, e com muita qualidade. Tem muita gente boa, muita gente antiga fazendo, não só a nova geração. Mesmo as outras gerações têm feito trabalhos bons, Pra você ter qualidade você tem que ter quantidade, tem que ter investimento, tem que dar oportunidade para as pessoas. Você tem que dar oportunidade para diversos tipos de filmes, mesmo filmes mais comerciais, ou mais autorais, os gêneros. Tem tantas possibilidades de cinema.

O Brasil, graças a Deus, é muito diversificado, naturalmente. Então você acaba tendo um cinema muito diversificado e com muitos talentos. Eu acho que o cinema agora está começando a se mostrar. Hoje você tem momentos em que se têm muitos filmes brasileiros em cartaz, muitos filmes brasileiros que estão em destaque em relação aos filmes estrangeiros. Outro dia uma pessoa estava conversando comigo, e que não é uma pessoa de cinema, e ela me disse “olha, o que eu acho engraçado é que os bons filmes que estão em cartaz são filmes brasileiros”. Eu acho isso tão bacana. Então hoje todo mundo que ir assistir ao “Meu Nome Não É Johnny”” (2007 – Mauro Lima)

O que propiciou isso foi a produção, que as pessoas possam fazer os filmes, de todas as tendências, ter um investimento. É claro que falta essa questão da distribuição, o preço do ingresso que é caro, é muita pouca gente que pode ter acesso. Mas eu acho que o cinema brasileiro está numa época maravilhosa porque realmente são anos que a gente está crescendo, estão surgindo novos diretores, novos técnicos, novos montadores. Houve oportunidade, houve financiamento, não está focado mais só no eixo Rio-São Paulo, em determinado diretores.

Há uma preocupação em você fazer todos os tipos de filmes e também reciclar, deixar que os novos diretores possam se manifestar, possa ter condição para fazer um primeiro filme. Eu acho isso. Eu estou muito otimista. É claro que temos sofrido muito, o ano passado foi um ano sofrido, captação, um pouco de esgotamento das leis de incentivo. E pela quantidade também, porque tem muito mais gente captando e o dinheiro sempre é restrito. A gente tem algumas poucas grandes empresas estatais que fazem um financiamento mais significativo, que é a Petrobrás e o BNDS. Em São Paulo, graças a Deus, a gente tem o programa de Fomento Paulista, que tem uma boa aplicação, Mas tem muita gente, né? Então é difícil.

Mulheres: Qual foi o último filme que você assistiu?

Maria Ionescu: O último foi um filme que está aqui nessa Mostra, que é o “Via Láctea”. Eu não sou a pessoa, eu tenho uma dificuldade muito grande, porque quem trabalha com cinema não tem tempo de assistir (risos). Mas eu peguei uma época aí e assisti a uns quatro filmes, e o “Via Láctea” foi um que eu gostei muito, da Lina Chamie.

Mulheres: Eu sempre convido minhas entrevistas para uma homenagem a uma mulher do cinema brasileiro de qualquer época e de qualquer área.

Maria Ionescu: Eu preciso pensar, porque têm tantas. E depois eu escolho uma e a outra fica chateada (risos). Eu tenho que pensar... Eu homenageio a Sara, que tem uma história incrível. Eu homenageio a Tata Amaral, que é uma pessoa que tem uma trajetória que eu acompanho desde o início, eu a conheci na época do colegial. A Katinha, que é uma fotógrafa, Kátia Coelho, que eu admiro muito. Isso pra pegar pessoas antigas, que têm uma história comigo e que eu admiro muito. Essas três já bastariam.

E tem atrizes maravilhosas, Norma Bengell, Odete Lara... nossa, difícil, não dá para homenagear uma, Helena Ignez. Diretoras... Tata Amaral, Suzana Amaral também, que é uma pessoa que eu admiro muito, que foi fazer cinema depois de 50 anos e de criar nove filhos. Fez um filme maravilhoso, que foi um dos primeiros trabalhos profissionais meus, “A Hora da Estrela” (1985).

Lili Bandeira! Viu, não disse que ia me esquecer. Lili Bandeira é a homenageada, ao lado de Sara Silveira, Tata Amaral e Kátia Coelho. Tem várias pessoas que queria homenagear, mas são essas as minhas escolhidas. E tem as atrizes, mas vou deixar mais no meu universo de vida, de trajetória.

Mulheres: Muito obrigado pela entrevista.

Maria Ionescu: Obrigada.




Entrevista realizada em janeiro de 2008, na "11a Mostra de Cinema de Tiradentes".
Foto: Vébis Junior - acervo Carlos Reichenbach

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Sala 
 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.