Ano 17

Malu di Martino

O filme “Mulheres do Brasil” é o primeiro longa da cineasta Malu di Martino. Antes, ela tinha dirigido os médias-metragens “Ismael e Adalgisa” e “Sexualidades”, além de vários vídeos e documentários para a televisão. Em “Mulheres do Brasil” são contadas cinco histórias compondo um retrato geográfico do Brasil, tendo como cenário as cidades de Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Maceió e Salvador. 

Malu di Martino escalou um time impressionante de talentosas atrizes para dar vida às personagens do filme: Camila Pitanga, Dira Paes, Bete Coelho, Roberta Rodrigues, Carla Daniel, Débora Evelyn, Luana Carvalho, Thaís Garayp, Ana Beatriz Nogueira, Marília Medina, Magdale Alves e Léa Garcia. 

Malu di Martino esteve na 8a Mostra de Cinema de Tiradentes, onde concedeu entrevista exclusiva ao Mulheres. A cineasta fala sobre seus filmes, sobre seu interesse pelo documentário, e sobre a união dos universos ficcional e documental em “Mulheres do Brasil”, “Eu queria, na verdade, fazer um filme baseado na ficção, que a ficção fosse o mote principal do filme, mas que eu pudesse pontuar documentalmente. E faria isso usando depoimentos de mulheres que tivessem relação com aqueles personagens, que tivessem algum tipo de semelhança ou diferença com aqueles personagens.  Para poder fazer uma espécie de comentário documental”. 

 

Mulheres do Cinema Brasileiro: O seu filme anterior, que foi exibido em edição passada da Mostra de Tiradentes, “Ismael e Adalgisa” , é exibido na televisão, no Canal Brasil, e funciona muito bem na telinha. O que te chamou atenção para escolher falar sobre aquele tema e aqueles personagens. 

Malu di Martino: Eu trabalho para televisão há vinte anos, já fiz videoclip, já fiz milhões de trabalhos. Uma das áreas que eu mais atuo é a área de documentário de artes plásticas. Primeiro porque é o que eu gosto. Segundo, porque quando eu voltei dos Estados Unidos, para onde eu fui estudar, eu tinha participado de uma exposição chamada Geração 80, e aí o primeiro vídeo que eu fiz no Brasil foi sobre a trajetória dessa geração, da Exposição de 83 até a Bienal de 85, a décima oitava bienal. Eu comecei a trabalhar com isso, visitei várias instituições, o Centro Cultural Banco do Brasil, o Museu de Arte Moderna, o Museu Nacional de Belas Artes.  Mesmo na televisão, eu sempre trabalhei na parte documental, nunca fiz uma novela, por exemplo. 

Em 2000, a gente estava para fazer uma exposição no CCBB sobre o Ismael Néri. Quando eu conversei com a curadora, que era a Denise Matar, ela me explicou que havia feito uma proposta para uma exposição dele, mas que na pesquisa ela tinha descoberto a figura da Adalgisa Néri, que foi a sua mulher. E que ela tinha achado interessantíssimo, porque se ela tivesse descoberto antes, teria feito uma exposição chamada “Ismael e Adalgisa”. E ai, conversa daqui, conversa dali, ela me sugeriu que eu fizesse um filme sobre eles. Ela é prima da Cristhiane Torloni,  e a Cristhiane  queria muito fazer Adalgisa Néri, conhecia a história e tal. Tava ligada nisso, é  minha amiga há vinte anos. Daí, fomos e fizemos esse primeiro filme. 

O documentário para mim é uma coisa super importante, é uma coisa que está dentro de mim, sempre esteve. Então, o que eu quis, naquela época, foi misturar uma coisa com a outra. Eu parti do documentário  para a ficção. Então, o que eu tinha no filme eram depoimentos dos dois filhos do Ismael  e da Adalgisa , o depoimento da Denise, que era curadora da exposição dos cem anos do Ismael  e a biógrafa da Adalgisa, que era Ana Arruda  Calado. A partir do documentário, eu comentava ficcionalmente, eu diria que eu ilustrava o documentário com a ficção. Ou seja, eu não fugia do meu formato, da minha vontade do formato original. E foi muito bacana.  

Depois disso, eu fiz um filme chamado “Sexualidades,”   que era um filme sobre psicanálise, e foi também um média. Foi um filme também de pesquisa de linguagem, em que o roteiro foi da Helena Soares, que é uma pessoa que conhece essa linha psicanalítica que é a linha do m.d Magno, do O Grupo Novamente. A Helena fez um roteiro completamente maluco e que misturava coisas muito loucas, apesar de ser um documentário. O gênero é documentário, mas ele é um documentário que se passa às vezes numa lavanderia, outras num curral com vacas, entendeu? Ele tem uma coisa muito própria,  foi um exercício de linguagem. 

Quando eu resolvi fazer o primeiro longa-metragem e conheci a Elisa Tolomelli, eu expliquei para ela que eu queria fazer o processo contrário. Eu queria, na verdade, fazer um filme baseado na ficção, que a ficção fosse o mote principal do filme,  mas que eu pudesse pontuar documentalmente. E faria isso usando depoimentos de mulheres que tivessem relação com aqueles personagens, que tivessem algum tipo de semelhança ou diferença com aqueles personagens.  Para poder fazer uma espécie de comentário documental. 

O que acontece com “Mulheres do Brasil” é exatamente o processo contrário do que eu fiz em “Ismael e Adalgisa”. Eu diria pra você que 80% do filme é ficção e 20% é esse comentário- documentário. E  falando ainda em linguagem de cinema, eu trabalhei com Heloisa Passos, que é a fotógrafa do “Mulheres do Brasil,” também  no “Sexualidades”, e ela tem uma coisa super bacana porque ela solta muito a câmara. Ela solta, ela corre atrás com a câmara, ela faz câmara na mão, ou seja, ela faz uma câmara essencialmente documental. Ela tem essa característica. E o que a gente fez em “Sexualidades” a gente resolveu fazer a mesma coisa com o “Mulheres do Brasil”. No filme, os depoimentos são câmaras paradas, já na trama você vai ver a câmara sempre correndo atrás. E tem muita situação de rua com gente normal. Entendeu? Que é o que faz a contextualização regional do filme.  

Mulheres: Essa divisão das histórias geograficamente no Brasil é a presença desse olhar documental?  

Malu di Martino: É, porque o que aconteceu foi o seguinte: eu viajo muito por conta dessa minha coisa com a televisão. E daí, vejo muitas coisas que me deixa ressentida por  ver coisas  que o Brasil não vê , entende?  Porque o Brasil elege umas coisas,  assim de maneira geral,  e mostra aquelas regiões, aquelas coisas. Então, o Brasil vê pouco Curitiba, por exemplo. Vê mais Porto Alegre. O Brasil vê pouco Maceió, vê mais Recife. 

Então o que eu quis foi tentar trazer um pouco isso, mostrar, por exemplo,  Maceió, que é uma cidade linda, uma cidade espetacular.   E tem uma coisa em Maceió que é essa coisa bonita daquela comunidade rendeira, da qual sou fã,.  que é o pontal da barra. Maceió tem gente muito rica. Ás vezes o cinema nacional corre um pouco pra essa coisa da seca, do agreste e tal. Eu corri pra água, a minha coisa é um pouco com a água. Tanto na história da Bahia, que é na beira do São Francisco, no Bom Jesus da Lapa,  a gente tentou tirar um pouco dessa aridez. Água é um elemento feminino, né?  E que é muito forte na vida das mulheres. Tem várias explicações psicanalíticas para essa relação que a mulher tem com a água, por conta do nascimento, por conta da placenta, dessas coisas todas. Eu corro muito pra água, eu adoro. 

Mulheres: é uterina. 

Malu di Martino: Exatamente, é uma coisa uterina. Então eu procurei um pouco isso. Eu procurei mostrar isso, que é uma coisa que pouco se mostra. Então quando eu digo que Mulheres do Brasil tem uma ótica feminina, eu não quero dizer que ele é um filme feminista. Ele tem uma ótica feminina porque é um filme feito por mulheres, não haveria possibilidade de ser diferente. Mas os personagens masculinos também têm muita importância, porque estão dentro da vida das mulheres e a gente sabe disso. Uma coisa é muito ligada a outra.  

Mulheres: Eu acho que um dos grandes reducionismos que se comete  é quando se fala num tal olhar feminino. Aqui eu entendo ótica feminina porque é a história daquelas personagens, é você trabalhando com todas aquelas atrizes. Mas isso não quer dizer que é um olhar feminino, porque olhar feminino pode ser muitas vezes um estereótipo como olhar masculino. 

Malu di Martino: Exatamente. 

Mulheres: Você não pensa o público do filme como um público majoritariamente feminino, não é? 

Malu di Martino:  Não. Não é pra ser. A gente nunca teve a intenção de fazer um filme pro clube da luluzinha. O que acontece é que  como é um filme de mulheres comuns  há uma coisa muito bacana que é a identificação. Então as mulheres se identificam muito rapidamente, porque conhecem. Não que todas elas sejam parecidas, mas minha mãe era assim, minha prima também, entendeu?  Tem essa cara. E os homens também, porque eles também convivem o tempo todo com as mulheres. Eles também identificam com muita rapidez.  E é muito gozado isso. 

Toda vez que a gente apresenta o filme, alguém chega e diz assim: “ Nossa, fulana é muito parecida com minha prima, fulana é muito parecida com minha mãe. Eu conheço um caso assim. Eu conheço uma história assim.” Entendeu? E cara, todas as pessoas tem as suas histórias. A gente tem essa história o tempo todo. Cada pessoa comum tem um caso para contar, tem uma história. Então o que a gente tenta é um pouco isso. Mostrar essa coisa comum. O que é a mulher comum. O que é a mulher que trabalha. Tem uma perua, mas também tem uma que não é; tem uma que é perversa, que é má; tem uma que é bacana. Mas na verdade o filme tem essa necessidade. O tempo todo a gente trabalhou, com as atrizes e os roteiristas, o fato de nenhuma delas ser 100% boa e 100% má. Tem a Esmeralda, por exemplo, que é o personagem da Camila (Pitanga), Ela é pervertida até o último grau, mas ela também sofre, entendeu? Ela não é a vilã..  

Mulheres: A primeira vez que eu li sobre o nome do filme eu fiquei curioso sobre quem seriam as atrizes. Como foi a escolha? Porque há um momento, eu imagino, que é um momento chave. Porque se erra no elenco... 

Malu di Martino: Ah! sim, é importantíssimo. Na verdade, a gente trabalhou muito isso. Eu  trabalhei muito com Elisa, especificamente com Elisa, que é uma pessoa que tem muito mais experiência em cinema do que eu, e que podia me dar essa segurança de saber que eu estava escolhendo as mulheres certas. Essa parceria minha com Elisa é uma coisa muito importante dentro do filme.  Ela participou do processo desde o começo, entende? Então, nós estamos completamente integradas dentro desse processo. 

Nós procuramos achar as atrizes em que a gente via algum traço da personagem, ou via nelas o potencial de desenvolver aquela personagem. O caso da Luana (Carvalho)  talvez tenha sido o caso mais diferente de todos, porque a Luana é uma menina do Rio de Janeiro,, não tem nada, aparentemente,  a ver com a nossa  Ana, que é a personagem de Maceió. Mas, não sei ..., tem muito de intuição quando você escolhe um ator.  

Quando a gente vai lendo o roteiro, a gente vai  trabalhando, vai mudando de roteirista, vai lendo, vai lendo, vai lendo .. e você não vê a cara. Você constrói uma cara. Porque nós, diretores trabalhamos com a imagem, né?  A gente pensa vendo, né? Ou vê pensando. É um pouco isso. Então, quando a gente começou a ver as caras dessas mulheres, nós fizemos muitos testes. Eu via, não achava e dizia: “mas não é a cara que eu tenho aqui”. Entendeu? Quando batia eu dizia “essa cara é a que ta aqui dentro. Vamos lá”. Entendeu?  

Mulheres: Você tem mulheres especiais no elenco, atrizes que são mulheres de cinema, como  Dira Paes e Ana Beatriz Nogueira. 

Malu di Martino: Isso, exatamente. É um prazer enorme trabalhar com essas mulheres, porque elas ensinam a gente. Ambas são generosas. Tanto a Dira, quanto a Ana Beatriz nos ajudaram muitíssimo, sempre. Nos ajudou a construir as personagens e ajudaram as atrizes iniciantes, como a Luana ,que foi por acaso a pessoa que contracenou com as duas. E nessa história a gente teve  muito essa preocupação, de saber que a Luana tava trabalhando com uma mulher que tem dezesseis filmes nas costas, que é a nossa querida Dira Paes, entendeu? Ela é a musa do cinema nacional, todo mundo a conhece como uma atriz de cinema. E ai a gente trabalhou muito , preparou muito, ensaiou muito e a Dira sempre muito generosa. Tanto com a Luana quanto comigo também. De me ajudar, de acertar, de trabalhar. E o elenco foi um pouco isso. Foi maravilhoso trabalhar assim. Tive o maior prazer em trabalhar com elas. Foi genial. 

Mulheres: Você tem uns trabalhos fora do Brasil também, não é isso? 

Malú di Martino: Tenho. Eu estudei fora, nos Estados Unidos, em Nova York. Eu trabalhei algumas coisas lá. Foi pouca coisa, eu era estudante, e tal. Eu fiz um vídeo em Nova York sobre brasileiros que moravam na cidade há mais de dez anos.  

Mulheres: Foi seu primeiro vídeo? Qual é o nome? 

Malu di Martimo: Sim, chama-se chama “New York, Nova York”. 

Mulheres: Foi quando isso? 

Malu di Martino: Ah! rapaz. Olha, “New York, Nova York” foi em 1983. Foi um trabalho de escola, com duração de 24 minutos, foi meu primeiro trabalho. Foi engraçado.  

Mulheres: Malú , eu sempre peço para minhas entrevistadas homenagearem uma ou mais de uma mulher de qualquer área e época do cinema brasileiro. Você aceita o convite? 

Malú di Martino: Mulher do Cinema Brasileiro que eu admiro?  Nossa! Eu tenho uma lista.  

Mulheres: Sem problemas, eu falo uma para não dar muito trabalho... 

Malú di Martino: Ta, mas deixa eu pensar uma.É do cinema mudo que você quer? 

Mulheres: Pode ser do cinema mudo até o atual, e de qualquer área.  

Malú di Martino: Gilda de Abreu. Gilda Abreu, um espetáculo. Não tenho nem palavras para falar sobre  ela. Tão genial. Uma mulher naquela época, ter chegado onde ela chegou, ter feito o que ela fez. Nossa. Eu sou completamente fã.  Me arrepio toda só de pensar. Entendeu? Por que eu sei o quanto é difícil hoje, imagina naquela época.   

Mulheres: Muito obrigado pela entrevista. 

Malú di Martino: Obrigada.


Entrevista realizada em janeiro de 2006 na 9ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

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 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.