Ano 17

Maria do Rosário Caetano

Maria do Rosário Caetano é uma pesquisadora importante a serviço do cinema latino-americano e, dentre eles, claro, o cinema brasileiro. Autora de trabalhos notáveis como “Cinema Latino-Americano – Entrevistas e Filmes” e “Alguma Solidão e Muitas Histórias: A Trajetória de um Cineasta Brasileiro”, sobre João Batista de Andrade, mais que tudo Maria do Rosário Caetano é uma pesquisadora no melhor sentido da palavra, porque generosa em dividir com todos o que vai colhendo pela frente. 

Há alguns anos agita a internet com seu boletim cultural Almanaque, informativo da maior importância que, mais que divulgar cultura, transformou-se em um pólo importante de reflexão, “Como eu participo de muitos festivais, de 10 a 15 por ano, onde conheço muita gente da área de cinema, eu comecei a sentir falta de um canal direto que me ligasse a essas pessoas, aos meus amigos”. As edições extras do Almanaque, os Almanaquitos, são missivas muito mais que pertinentes, “Recebo documentos de todos os lados, daí eu acabei transformando os  Almanaquitos  em um canal aberto de diálogo ente todas as áreas” – por exemplo, na polêmica em volta da Ancinav. 

Em conversa pelo telefone em São Paulo, Rô Caetano, como é chamada pelos amigos, falou sobre sua primeira vivência com o cinema em Coromandel, cidade mineira onde nasceu e na qual seu pai tinha um cinema, o Cine União e sobre sua paixão pelo cinema e suas preferências. Falou também sobre  suas publicações, o ofício de fazer pesquisa cinematográfica no Brasil, o momento atual do cinema brasileiro, a paixão pela Região do Ouro em Minas Gerais, entre outras assuntos. Em 2003, Maria do Rosário Caetano recebeu no Festival de Cinema de Pernambuco a medalha do mérito em Jornalismo Especializado.

 

Mulheres do Cinema Brasileiro: Como começou sua relação com o cinema? 

Maria do Rosário Caetano: Minha relação com o cinema vem desde a infância. Meu pai tinha um cinema, o Cine União, em Coramandel (Minas Gerais), e minha mãe me levava lá desde quando eu era criancinha, desde quando tinha 2 anos. Naquela época ainda peguei a última fase das chanchadas. Vivi em Minas até os quinze anos, depois fui para Brasília, onde fiquei 25 anos,  e por fim vim para São Paulo em 1995.

Mulheres: E sua ligação com o cinema brasileiro? 

Maria do Rosário Caetano: Bem, minha relação profissional na verdade é com o cinema latino-americano como um todo, adoro. Minha relação profissional com o cinema se deu anos depois, em 1975, época em que me formei como jornalista, e se intensificou com o cinema brasileiro. Minha primeira reportagem foi sobre o Festival de Brasília, fui cobrir o Festival e desde então acompanhei todas as edições a partir daí, de 75 para cá. A grande vazão da minha profissão se deu escrevendo sobre cinema, acredito que 90% de tudo que escrevi foi sobre esse tema.

Mulheres: Você é uma pesquisadora importante, com vários trabalhos publicados. Fale um pouco sobre suas publicações. 

Maria do Rosário Caetano: Bom, em 1997 publiquei o “Cinema Latino-Americano - Entrevistas e Filmes” sobre cineastas, fotógrafos e atores da Argentina, do Peru e do Chile. Do Brasil tem três ficcionistas, Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha e Ruy Guerra, e no documentário Vladimir Carvalho, Eduardo Coutinho e Jorge Furtado. Integrei a equipe de pesquisadores da Enciclopédia do Cinema Brasileiro – organizado por Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda, colaborei com o livro “Trinta Anos de Gramado”, do “Cinema Falado – Cinco Anos de Seminários de Cinema em Porto Alegre” e do “Guia do Cinema Brasileiro”. Colaborei também na pesquisa para o roteiro de “O Imponderável Bento”, de Joaquim Pedro de Andrade e Fernando Coni Campos. Escrevi o livro sobre João Batista de Andrade, “Alguma Solidão e Muitas Histórias: A Trajetória de Um Cineasta Brasileiro”, para a Coleção Aplauso.

Agora estou concluindo um livro sobre Fernando Meirelles, “Biografia Precoce” (Coleção Aplauso), e preparo um sobre a atriz Marlene França. Tem duas obras no prelo, ABD 30 anos (organizadora) e o catálogo "Jorge Amado e o Cinema".  Estou trabalhando também sobre o cangaço no cinema brasileiro. Escrevo para a Revista de Cinema e  esporadicamente para o jornal O Estado de São Paulo.

Mulheres: A Revista de Cinema é uma publicação importante voltada para o cinema brasileiro. Por lá eu acompanho seus escritos. 

Maria do Rosário Caetano: Pela Revista de Cinema você pode ver que normalmente eu escrevo sobre dados estatísticos, adoro. Fiz uma pesquisa enorme sobre os cem filmes brasileiros de todos os tempos, os maiores documentários. Faço pesquisa de público,  balanços e perspectivas. Fiz também muitas entrevistas, com Nelson Pereira dos Santos, Luiz Carlos Barreto, Jorge Furtado, Walter Salles, Suzana Amaral, Walter Carvalho, João Moreira Salles, entre outros. E reportagens sobre filmes. Nestas reportagens, procuro sempre trabalhar com dados estatísticos, embora nem chegue perto do Paulo Sérgio Almeida, este sim, o grande nome da difusão de dados sobre o mercado cinematográfico brasileiro, através do "Boletim Filme B". E a Revista, nos últimos cinco números, publicou -- e continuará publicando -- um resumo do Almanaque, incluindo o Prêmio Almanaque e uma foto do meu acervo,  sou "fotógrafa" amadora. No número deste mês, há uma foto curiosa. Ela registra Thomaz Farkas fotografando Ettore Scola e Costa Gavras, na porta do Palácio da Revolução, em Havana.

Mulheres: Você é responsável pelo Almanaque, importante boletim cultural que circula pela internet e que eu, particularmente, adoro. Quem me indicou foi a Silvana Arantes da Folha de São Paulo. Como nasceu o Almanaque? 

Maria do Rosário Caetano: O Almanaque surgiu há uns dois ou três anos. Como eu participo de muitos festivais, de 10 a 15 por ano, onde conheço muita gente da área de cinema, eu comecei a sentir falta de um canal direto que me ligasse a essas pessoas, aos meus amigos. Outro fator importante também é que eu queria premiar, ressaltar o que eu gostava, porém sem nenhuma regra, podia ser uma peça, um filme, uma música. Essa história de premiar começou com um disco sobre o compositor Moacir Santos, que já fez trilhas para o Cacá Diegues, para o Ruy Guerra. A Petrobrás organizou uma coletânea com a obra dele, "Ouro Negro",  e eu fiquei apaixonada quando ouvi durante uma viagem para Ouro Preto e Sabará.

O Almanaque é muito informal, não é um blog, é uma carta informal que eu envio para 805 pessoas. Ele é mensal, mas tem também os Almanaquitos, que são edições extras que vou soltando durante o mês. Os Almanaquitos cresceram muito, como no caso agora da polêmica sobre a Ancinav. Como eu recebo documentos de todos os lados eu acabei transformando o Almanaque em um canal aberto de diálogo entre todas as áreas.

Mulheres: No Almanaque, como também na produção como pesquisadora, eu vejo uma paixão muito grande pelo cinema brasileiro.  Como você vê essa polêmica que cerca a Globo Filmes, com tanta gente que reclama da estética de seus produtos. 

Maria do Rosário: Eu acho a Globo Filmes da maior importância. Eu acho que tem que ter uma força como essa, é fundamental. Agora, é claro que há uma linha hegemônica, uma linha da Globo. Como espectadora acho a produção fraca, Cazuza é exceção (“Cazuza – O Tempo Não Pára”, de Sandra Werneck e Walter Carvalho). “Olga” (de Jayme Monjardim), por exemplo, deixa a desejar. Tem um ponto de partida maravilhoso (o livro homônimo de Fernando Morais) para um resultado melodramático. Mas tem também produções boas como “Carandiru” (Hector Babenco) e “Cidade de Deus” (Fernando Meirelles).

Mulheres: E a produção atual do Cinema Nacional? Como você vê? 

Maria do Rosário Caetano: Eu vejo como um momento meio desgovernado. Tem produções muito boas e outras banais enquanto reflexão. Tem filmes inteligentes, como “O Invasor” (Beto Brant), “Amarelo Manga” (Cláudio Assis). Tem, por exemplo, “Narradores de Javé” (Eliane Caffé), um filme surpreendente, mas que, infelizmente, não teve muita repercussão. Tem o “Cidade de Deus”, claro que tenho reparos, mas gosto do filme.

Tem uma turma nova, jovem, com paixão, da maior importância. E tem o Jorge Furtado, que faz um cinema popular de qualidade, acima da média. Gosto dos filmes dele, mas ainda espero um grande longa do tamanho do seu “Ilhas das Flores” (premiado curta-metragem).

Mulheres: Como você, que é uma pesquisadora já com uma grande trajetória, vê esse importante segmento? É muito difícil trabalhar com pesquisa no Brasil? 

Maria do Rosário Caetano: Bom, você que está com esse trabalho com as mulheres do cinema brasileiro já deu para ver como é, não é? É muito difícil, há falta de dados, de informação, muitos livros esgotados. No entanto, nos últimos dez anos a publicação de trabalhos de pesquisa cresceu muito, sobretudo as biografias. Ainda assim há muito o que percorrer. Veja o cinema americano, eles têm tudo catalogado sobre seus artistas.

Você sabe, todo trabalho de pesquisa, toda obra de referência tem que ser atualizada pelo menos de cinco em cinco anos. Veja aquele catálogo de diretoras da Ana Pessoa, tinha que ser atualizado (“Quase Catálogo 1”, Org. Heloísa Buarque de Hollanda; Coord. Pesquisa Ana Rita Mendonça e Ana Pessoa). Temos publicações importantes, a edição atualizada da Enciclopédia do Cinema Brasileiro acabou de sair. Temos importantes pesquisadores como o Antônio Leão, autor do Dicionário dos Artistas. Mas mesmo lá, no dicionário, não tem um ator  como o Arduíno Colassanti, por exemplo. Temos órgãos importantes como o Socine, a Cinemateca. Tem o pessoal do sul que faz um trabalho de pesquisa muito estimulante. Mas é uma área ainda por se desbravar. Você mesmo, no caso das atrizes, é tão difícil para elas falarem a idade, não é?

Mulheres: Sim, não é muito fácil. 

Maria do Rosário Caetano: Uma vez eu fui entrevistar a Imara Reis e disse para ela que eu precisava saber a sua idade de qualquer jeito. Que era pra ela me poupar em ter que ir ao cartório para descobrir. Ela me disse que normalmente as atrizes não falam a idade porque senão correm o risco de não serem mais chamadas para alguns trabalhos que ainda poderiam fazer.

Mulheres: Quais são as suas atrizes prediletas do Cinema Nacional? 

Maria do Rosário Caetano: A Darlene Glória eu adoro, tem papéis inesquecíveis. Fernanda Montenegro tem uma trajetória única. A Zulmira de “A Falecida” (Leon Hirzsman) e a Elvira de “Tudo Bem” (Arnaldo Jabor) são os pontos altos. Tem também a Nossa Senhora de “O Auto da Compadecida” (Guel Arraes). São papéis magníficos. Luíza Maranhão é outra atriz maravilhosa, de “Barravento” (Glauber Rocha) e “A Grande Feira” (Roberto Pires). Há muito que pergunto por onde ela anda. 

Mulheres: A Léa Garcia, em entrevista ao Mulheres, disse que o Antônio Pitanga falou que ela está na Itália. 

Maria do Rosário Caetano: É, é a última notícia que se tem dela, continua cantando, mas não quer aparecer. Entre as atrizes que eu gosto tem também a Leona Cavalli e a Fernanda Torres. É impressionante esse caso das duas Fernandas. As duas, mãe e filha, tão talentosas.

Mulheres: E pesquisadoras? 

Maria do Rosário Caetano: Destaco a Lúcia Nagib, ela faz um trabalho maravilhoso e importantíssimo. Além de professora, ela faz uma ponte importante entre o cinema brasileiro e a Inglaterra. Tem também a Ivana Bentes, sempre com posições polêmicas e instigantes. Nem sempre dá para concordar com ela, mas é uma pesquisadora de 1a linha. E a Walnice Nogueira Galvão, que tem escrito belos artigos sobre o cinema brasileiro no caderno Mais do jornal Folha de São Paulo.

Mulheres: Você gostaria de acrescentar alguma coisa? 

Maria do Rosário Caetano: Sim, quero falar sobre a importância de Minas. Não é porque sou mineira não, não tem nada disso. Mas Minas Gerais tem tradição no campo da reflexão cinematográfica. Teve a importância da Revista de Cinema, do CEC. O mineiro é mesmo mais reflexivo, quer construir, deixa a badalação de lado. No carioca é vejo mais esse lado da badalação, no paulista algo mais destrutivo. O mineiro é mais concentrado. É algo que eu herdei desses 15 anos de Minas.

E quero falar também sobre a minha paixão pela Região do Ouro – Ouro Preto, Tiradentes, São João Del Rey, Mariana, Sabará. Congonhas é a paixão da minha vida, a dimensão arquitetônica do Santuário do Bom Jesus de Matozinhos. Minas e Brasília precisam  voltar os olhos para a grandeza desse patrimônio, para o turismo dessa região. Junto com o Pelourinho, em Salvador, Bahia, é o nosso maior patrimônio cultural.

Mulheres: Muito obrigado pela entrevista.

Maria do Rosário Caetano: Muito obrigada. Um beijo.  


Entrevista realizada em janeiro de 2005

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Sala 
 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.