Ano 17

Walderez de Barros

O diretor Marcos Bernstein, de “O Outro Lado da Rua” disse que fica impressionado com o desperdício do talento de Fernanda Montenegro e Raul Cortez, protagonistas do seu belo filme, pelo cinema, lamentando o quão pouco eles são solicitados para o veículo. E esse parece ser o caso da grande atriz Walderez de Barros, ainda com o agravante de que ela faz ainda muito menos cinema que os dois.

 São quarenta anos que Walderez de Barros brilha nas artes cênicas, sobretudo no teatro, onde começou profissionalmente na companhia do mito Cacilda Becker e depois se tornou a musa do genial dramaturgo Plínio Marcos, com quem foi casada durante mais de duas décadas. A atriz, que fez televisão desde o início da carreira, mas que só explodiu nacionalmente como a Judite de “O Rei do Gado”, ainda procura seu lugar no cinema, “até hoje eu não me encontrei com o cinema, ou eles não se encontraram comigo”.

 É sobre o início de sua carreira, o deslumbramento com Cacilda Becker e a passagem pela sua companhia, os trabalhos na televisão e seu flerte e mágoa com o cinema, que Walderez de Barros, que comemora seus quarenta anos com a montagem “Fausto Zero”, de Goethe, dirigida por Gabriel Villela, conversa com o Mulheres. A atriz esteve em Belo Horizonte, onde participou do projeto “Ciclo de Acontecimentos Dramáticos”, da produtora cultural Soraya Handdam.

 

Mulheres do Cinema Brasileiro: É uma honra para o Mulheres encontra-la nesse momento em que você comemora 40 anos de uma carreira brilhante nas artes cênicas brasileiras.

Walderez de Barros: Olha, o prazer é meu estar aqui conversando com você. 40 anos é só tempo, né? Só significa que estou ficando mais velha. Não tem nenhum mérito, o que eu sempre digo é que eu sobrevivi. Acho que nas artes em geral no Brasil, quando você consegue permanecer durante algum tempo, fazendo aquilo que você quer fazer, aquilo que você gosta de fazer, o mérito é esse, você ter sobrevivido. Porque eu acho que as condições não são boas de um modo geral, então quando você consegue ficar durante algum tempo fazendo arte no Brasil, eu acho que o mérito é só esse.   

Mulheres: Quando você saiu de Ribeirão Preto para São Paulo, capital, foi para estudar filosofia. Como o teatro entrou em sua vida?

Walderez de Barros: Na verdade, entrou pela via política. Porque eu entrei na Faculdade de Filosofia, da Maria Antônia, na USP, em 1960. E era um período de grande agitação política. A Faculdade ainda era na rua Maria Antônia, então de um lado você tinha a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, e do outro lado o Mackenzie, tradicionalmente uma faculdade da USP de esquerda e o Mackenzie de direita. Então aquele quarteirão da rua Maria Antônia era palco de grandes manifestações políticas, e o período que o país atravessava também. Eu fiquei na Faculdade até o começo de 63, então foi exatamente um período de grande agitação. E eu comecei a fazer política universitária. Eu entrei para o CPC, Centro Popular de Cultura, núcleo da Faculdade, o Fauzi Arap era quem dirigia e a gente começou a fazer espetáculos com intenção política, fazer política através da arte. Fazer espetáculos, levar à fábricas, sindicatos, estudantes, enfim, o objetivo era claramente político. E aí eu comecei a entrar em contato com o pessoal do teatro, Teatro Oficia, Teatro Arena, naquela época conheci o Plínio (Marcos), enfim, quando vi estava fazendo teatro.  

 Mulheres: Esse primeiro espetáculo com o Fauzi, qual era?

 Walderez de Barros: O que a gente fez lá no CPC, e que até participou de um festival de teatro do Pascoal Carlos Magno, que ele sempre fazia, com o teatro amador do Brasil inteiro, teatro universitário, principalmente, chamava “O Balanço”. Era uma criação coletiva, que tinha direção do Fauzi Arap e que era com pessoas ali da Faculdade.  

 Mulheres: Depois você vai para a companhia da Cacilda Becker, é isso?

 Walderez de Barros: Profissionalmente eu estreei na companhia da Cacilda.   

Mulheres: A Cacilda, pelos depoimentos seus, ela é ainda a sua maior referência de atriz?

 Walderez de Barros: É, acho que ainda continua sendo. Eu digo assim, que um dos maiores impactos que eu tive no teatro foi a primeira vez que eu vi a Cacilda em cena. A peça era “Em Moeda Corrente no País”, do Abílio Pereira de Almeida, e eu sempre costumo dizer assim: a Cacilda fazia tudo errado, ela tinha uma voz, um timbre rachado, ela era magra, não podia ser chamada de uma mulher bonita pelos padrões da época, pelo menos, mas ela tinha um magnetismo em cena que era impossível você tirar o olho dela. Eu me lembro perfeitamente que eu vi essa peça no teatro dela, o Teatro Cacilda Becker, que era ali na Brigadeiro Luiz Antônio, lá em São Paulo. E eu saí do teatro assim nas nuvens, sabe, gritando nas ruas, eu nunca tinha visto nada, eu nunca tinha pensado que o teatro podia ter a força que a Cacilda me mostrou, que ele podia ter. O impacto da presença dela em cena realmente foi muito forte para mim. Depois a gente se tornou, quer dizer, ela era muito amiga do Plínio, principalmente, então eu tive uma convivência com ela. A reverência que eu tinha com o talento dela, a mulher que ela era, porque ela era uma mulher extraordinária, além de uma grande atriz, uma grande mulher. Então, ela é realmente até hoje, eu acho, a grande referência para mim do teatro.   

Mulheres: E o espetáculo na companhia, foi?

 Walderez de Barros: “Onde Canta o Sabiá”. Ela não estava em cena, quer dizer, era a companhia dela, o Walmor (Chagas) estava em cena, mas ela não fazia parte do espetáculo, eu nunca trabalhei com ela.  

 Mulheres: Você chega às novelas em 1968, na "Beto Rockfeller".

 Walderez de Barros: Eu já tinha feito algumas participações nas novelas da Tupi, inclusive, “O Direito de Nascer”. Na época, fazia algumas participações, estava começando. A primeira novela que eu fiz inteira foi  “Beto Rockfeller”.   

Mulheres: Que é um momento de renovação da teledramaturgia.

 Walderez de Barros: Exatamente.   

Mulheres: No cinema você chega em 1970, no “Juliana do Amor Perdido”, do Sérgio Ricardo, do mítico Sérgio Ricardo. Como foi esse encontro com o cinema, você vindo do teatro, e já com trabalhos na televisão?

 Walderez de Barros: Olha, você sabe, o que eu acho é que até hoje eu não me encontrei com o cinema, ou eles não se encontraram comigo. É, na verdade, eu fiz pouco cinema, adoro cinema, e eu fiz muito pouco. Acho que, em todas as áreas, o que eu acho lamentável, é que há uma espécie de gueto, você tem gueto do teatro, você tem gueto da televisão, e o gueto do cinema. E o do cinema, particularmente, é muito forte, é muito restrito. O pessoal do cinema, por exemplo, raramente vai ao teatro. Eu posso contar nos dedos os diretores de cinema que foram ver alguma peça que eu fiz no teatro. O que acho lamentável porque, tudo bem, cinema é imagem, mas não é só essa interpretação. Então, se você observar bem, eles pegam atrizes, até jovens, que eles vêem na televisão, em novela, ou até em comercial. Mas raramente eles pesquisam as atrizes, até jovens, não estou falando de mim só, mas as jovens atrizes de teatro. O que é uma coisa que a televisão, espertamente, já está fazendo. Você deve saber que o pessoal da Globo tem olheiros pelo Brasil inteiro e que vão ver peças de pessoas jovens, que estão começando, e que descobrem jovens talentos e levam para a televisão. E só depois que eles passam pela televisão é que o cinema vai atrás das pessoas.

 E como eu sou uma atriz que, basicamente, a maior parte do tempo eu fiz teatro, então o pessoal do cinema parece que não me descobriu, entendeu? Eu fiz muito pouco cinema, e sempre assim por um viés de alguém que me conhecia através de outra coisa, sabe como é, nunca foi pela observação do meu trabalho no teatro, o que eu lamento, profundamente.  

 Mulheres: É, porque depois dessa sua experiência como o Sérgio Ricardo, você voltou ao cinema já na década de 90.

 Walderez de Barros: Exatamente.  

 Mulheres: Com o “Opressão” (1993, Mirella Martinelli).

 Walderez de Barros: Exatamente, do Bonassi. Não, não, da Martinelli (Mirella)  

Mulheres: Essa experiência com esse formato, de curta, foi interessante?

 Walderez de Barros: Foi muito interessante. Porque aí, nessa época, lembro que comecei a conhecer algumas pessoas ligadas ao cinema. E comecei a reclamar, exatamente disso, dessa falta de cuidado da parte dos diretores, até de curtas mesmo, porque eu acho que é um caminho. E aí começaram a me convidar. A Mirela me convidou, porque uma pessoa conhecia, e depois o Bonass (Fernando)i, “O Amor Materno”. O Bonassi sim, é uma pessoa muito ligada ao teatro, atenta ao teatro, e ele me conhecia através do teatro, aí ele me convidou para fazer o curta dele.  

 Mulheres: Você faz o filme do Cecílio (Netto), “Três Zuretas” (1998).

 Walderez de Barros: É, o Cecílio   

Mulheres: Depois você faz o “Outras Estórias” (1999), do Pedro Bial, um belo filme.

 Walderez de Barros: Muito, gostei demais desse filme.   

Mulheres: Essas filmagens, elas te trazem boas lembranças?

 Walderez de Barros: Muito, muito. Eu gosto do processo de cinema porque você consegue aprofundar um pouco mais que na televisão. Não tanto quanto no teatro, do ponto de vista da interpretação, mas eu acho que o cinema tem uma experiência muito rica. A linguagem do cinema me fascina, pelo menos no cinema você consegue ter uma visão já anterior da personagem, do começo ao fim, então dá para você trabalhar um pouco mais. Porque na televisão você sabe que o processo é bem diferente. E me encanta o processo do cinema. Essa coisa que muita gente reclama, tem tomadas de algumas cenas picotadas e, às vezes, você começa um filme de trás pra adiante, você faz a última cena e depois você faz a primeira. Mas isso tudo eu acho que é instigante,  eu acho que faz com que você fique mais atento, inclusive, a amarração final do filme.

 Se bem que é assim, eu acho que cinema é, não sou eu que acha, todo mundo acha, é o óbvio, cinema é uma arte de direção. Os atores, eles se prestam, e podem contribuir, evidentemente, com a direção, mas tudo é resolvido na edição.   

Mulheres: A Fernanda Montenegro, em entrevista ao Mulheres, disse que no cinema se terceiriza o talento, porque acaba sendo depois uma opção do diretor e do montador.  

 Walderez de Barros: Exatamente.   

Mulheres: Mas nos anos 2000 você já vem se aproximando mais, você faz o “Tônica Dominante” (2000, Lina Chamie), e depois o “Copacabana” (2001). A Carla Camurati reuniu em “Copacabana” algumas das atrizes mais queridas: Miriam Pires, Ilka Soares, você...

 Walderez de Barros: Laura.   

Mulheres: Laura Cardoso (Renata Fronzi, Ida Gomes e Rogéria são as outras) . Como foi essa confraria?

 Walderez de Barros: Olha, eu adoro o filme. Acho um filme comovente, a visão da Carla sobre o bairro Copacabana, mas especialmente sobre a velhice, a terceiríssima idade, quase. É um olhar com muita ternura, sabe, eu gosto demais desse filme. E, na verdade, é assim. A Carla, eu tinha trabalhado com ela antes na “Rainha da Beleza”, que foi a primeira direção em teatro que ela fez. E tinha uma brincadeira, porque eu fazia uma velha, bem mais velha do que eu, do que a minha idade. E quando ela tinha me convidado eu conversei com ela e falei que era meio perigoso a gente usar peruca de velha, para envelhecer, porque o resultado, às vezes, não é legal. E a gente tentou, na peça, várias alternativas com o meu cabelo, porque eu realmente parecia em cena muito mais jovem. Então tinha uma necessidade de um envelhecimento. E a última opção acabou sendo uma peruquinha de velha mesmo, que a gente usava ao contrário,  ficava um cabelo meio maluco. Eu eu sempre reclamava com ela, eu falava, "na primeira conversa você falou que eu não usaria peruca e eu estou usando peruca".

 E aí ela falou assim, "você vai usar essa peruca num filme", e eu disse: "jamais!" (risos).Quando a gente estava fazendo “A Rainha da Beleza”, ela já estava trabalhando no roteiro do “Copacabana”. Aí quando ela me convidou, e a gente foi conversar, ela falou, "sua peruquinha já está separada". E eu, "não acredito que eu vou ter que usar". Mas ficou um pouco uma gozação, eu e a Laura fazemos duas irmãs, e é óbvio, ainda mais em cinema, é óbvio que a gente ta usando uma peruca, não dá para você disfarçar. Então a gente brinca com isso no filme, porque as duas usam perucas iguais, fica meio que uma gozação.

 É, então, mas na verdade a Carla me convidou porque ela já tinha trabalhado comigo em teatro, a gente se tornou muito amiga, eu adorei trabalhar com ela no teatro, a direção dela foi primorosa, como foi em “Copacabana” também. Mas então, o que eu estou te dizendo é isso, é que de repente, cinema, se você não tem a amiga do amigo, lárálárá, parece que não chega, porque o gueto é fechado mesmo, eles não vêem a mim. E sem contar, vocês aqui em Minas sentem mais na pele ainda, mas eu vou me referir só a São Paulo e Rio, por exemplo. Parecem que são países diferentes. Então, como eu sou uma atriz que mora em São Paulo, trabalho muito em São Paulo, eu viajo às vezes, então o pessoal do Rio, de outros lugares, me ignoram, entendeu? Então eu falo, gente, um país tão grande como o Brasil e não há um intercâmbio, sabe, é muito difícil.

 Eu estou terminando agora uma temporada em São Paulo, do “Fausto Zero”, do Goethe, e a gente tinha a promessa de um patrocínio, que acabou não saindo. Então, pelo menos por enquanto, a gente não pode viajar. Você faz uma temporada e fica louca para viajar, mostrar esse trabalho, o Brasil é imenso, tem público. E por que a gente não consegue? Porque não há uma política cultural que possibilite isso. Se você tem um grande sucesso nas mãos você pode sair e arriscar. Mas quando você está fazendo uma peça que busca uma ruptura de uma linguagem cênica, uma pesquisa de uma linguagem cênica, que você sabe que é um espetáculo mais difícil, é muito difícil, você faz uma temporada e acaba.

 Mas eu comecei a dizer isso, exatamente, por causa dessa falta de interesse, sabe, ver o que está acontecendo no Brasil inteiro, não só nesse eixo, supostamente, o eixo mais importante cultural que é o eixo São Paulo-Rio. Então, você tem aqui em Minas coisas maravilhosas acontecendo, óperas maravilhosas sendo montadas, que não estão sendo levadas para São Paulo nem para o Rio. Eu não consigo entender porque. E não entendo porque o pessoal de cinema não se volta para a descoberta desses talentos, que são muitos. E de repente você fica, você pode observar, todos esses filmes que estão sendo feitos, eles apostam no nome da televisão. O que eu acho justo, não tenho nada contra. Mas você tem que junto com isso botar os novos talentos que não são conhecidos, né?, ou os velhos talentos que estão por aí também. Mas é isso.  

 Mulheres: Além desse sonho da turnê do “Fausto Zero”, quais são os outros projetos?

 Walderez de Barros: Não, por enquanto, como eu imaginava que estaria no segundo semestre viajando com a peça, e eu não sei se isso vai acontecer, então, na verdade, eu recusei uns convites, uns três convites de novela, que não dava para conciliar. Então agora eu não sei, eu não sei o que eu vou fazer.  

 Mulheres: Muito obrigado pela entrevista.

 Walderez de Barros: Obrigado a você.

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Sala 
 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.