Ano 17

Sandra Graffi

Entrevista comemorativa, Site Mulheres do Cinema Brasileiro 17 anos

Nascida em Guaianases, São Paulo, no dia 27 de julho de 1962,  Sandra Graffi é uma das atrizes mais amadas do cinema popular produzido na chamada Boca do Lixo, pólo produtor paulista importante nas décadas de 1960 a 1980. Ela começou sua trajetória como modelo ao vencer um concurso promovido por uma revista e, a partir daí, desenvolve carreira de sucesso na área. Logo chega ao cinema ao ser selecionada pelo produtor, diretor e ator David Cardoso e estreia em As seis mulheres de Adão (1981), dirigida por ele, que ela considera como o seu padrinho cinematográfico. “O David foi uma pessoa crucial na minha carreira, ele foi literalmente meu padrinho, ele foi um cara que teve muita paciência comigo, extremamente carinhoso, extremamente respeitoso. Foi o início, ele foi o marco da minha carreira e foi com ele o primeiro filme que eu fiz, As seis mulheres de Adão”.
 
A partir daí, Sandra Graffi passa a ser muito requisitada por produtores e diretores e faz um filme atrás do outro. “Bom, em muito pouco tempo eu tive o privilégio de ter trabalhado com essas grandes figuras, Alfredo Sternheim, Carlos Reichenbach, Osvaldo de Oliveira, Ody Fraga, David Cardoso, Antonio Meliande, desculpe-me por não citar o nome de todos. Eles só acrescentaram na minha carreira, me jogaram para frente, me deram apoio, me ensinaram muita coisa. Eu só tenho que agradecer por ser privilegiada pela sorte de Deus ter me colocado nas mãos dessa pessoas, porque todos eles foram super respeitosos, eu nunca tive problema nenhum em relação a cantada, a piadinha, a desrespeito, se eu falar aqui que, em algum momento, eu passei por isso, eu estou mentindo, porque nunca aconteceu. Eu sempre fui muito respeitada por todos, Graças a Deus, todos grandes diretores".

Sandra Graffi tem ótimos momentos e protagonizou muitos filmes. Seu encontro com o saudoso cineasta Alfredo Sternheim, que a dirigiu em Brisas do amor e Tensão e desejo, é um capítulo especial em sua trajetória. “O Alfredo Sternheim foi um dos que eu mais fiquei envolvida, nós tivemos uma sinergia grande, tínhamos feito Brisas do amor juntos, aí logo após eu fiz o Tensão e desejo também A nossa amizade se tornou mais próxima quando eu comecei a frequentar a casa dele, eu até o convidei para ser padrinho do meu casamento, ele foi meu padrinho no civil. Estreitamos os laços das nossas amizades, então eu agradeço muito, eu tive muita sorte, eu trabalhei com muita gente boa, muitos produtores e diretores muito bons”.
 
Sandra Graffi conversou com o Mulheres do Cinema Brasileiro por zap para essa entrevista comemorativa dos 17 anos do site. Ela repassou sua trajetória: o começo, a carreira de modelo, a chegada ao cinema, os filmes, a relação com os diretores, o papel do cinema em sua vida, e muito mais.
 
 
Mulheres do cinema brasileiro: Seu nome, cidade em que nasceu, data de nascimento e formação. 

Sandra Graffi: Meu nome é Sandra Graffi, eu nasci no dia 27 de julho de 1962, completo, portanto, 59 anos no mês que. A minha formação é superior incompleto, eu não terminei os meus estudos porque, nesse meio tempo, recebi um convite da revista Capricho,  da Editora Abril, para um concurso de modelos da capa da revista. Eu acabei sendo escolhida para esse concurso, e foi assim que começou a minha carreira artística, como modelo. Inclusive, me lembro que o David Cardoso e a Regina Duarte eram os jurados do concurso, e foi incrível porque eu adorava o David, eu tinha meus 18 anos e ele estava fazendo uma novela na época, se não me engano, “Cara a Cara” (1979, rede Bandeirantes), e eu era fã dele. Aí,  eu acabei fazendo uma campanha para a  empresa Risquê, que é de esmalte, tinta de cabelo e tal,  fui contratada para fazer essa campanha, e a Helô Pinheiro estava junto também. Eu e a Helô nos tornamos grandes amigas, grandes amigas mesmo, de frequentar a casa dela, de buscar a Ticiane (Pinheiro) na escola, e de ter uma convivência mesmo familiar. Aquilo tudo me ajudou bastante profissionalmente, porque eu acabei fazendo bastante trabalho, Helô me ajudava a beça nessa questão. Ah,  faltou eu te falar a cidade em que eu nasci, que é Guaianases, São Paulo. Muita gente acha que eu nasci no Rio, mas esse equívoco e essa questão de as pessoas acharem que eu nasci no Rio foi até por conta da Helô, porque nós andávamos muito juntas, nós íamos muito para o Rio.  A minha família morava aqui em Barra Mansa, que é do estado do Rio de Janeiro, então as pessoas faziam confusão, mas eu sou paulista.
  
MCB: Como você chegou ao cinema? 
 
SG: Eu cheguei ao cinema exatamente através da Helô, veja que coisa, né? A Helô também trabalhou com o David lá na novela na época, e eu fazia muitos trabalhos para a agência dela, Helô Pinheiro Models. Um dia, o David ligou para a Helô dizendo que precisava de uma moça que topasse fazer cinema,  mas que tivesse um rosto angelical, uma pessoa bem delicada, meiga, porque a personagem era uma virgem,  toda cheia de medos, e pediu que ela lhe enviasse algumas fotos.
 
A Helô mandou algumas fotos e me indicou, disse que eu era uma pessoa boa para trabalhar. O David me ligou e eu fui lá fazer a entrevista, ele gostou do do meu jeito, mas eu disse a ele que não era atriz, que não sabia como eu iria fazer, que eu fazia era muito comercial. O David me tranquilizou, disse que tinha o diretor de produção, que era para eu pegar o roteiro e ver se me interessava, e, caso sim, para eu bater o roteiro com ele. E que durante a filmagem tinha a direção dele, que a gente ia trabalhando nesse sentido, que era para eu ficar tranquila, pois tudo ia dar certo. Te confesso que eu fiquei com muito receio, porque  ía ter que tirar a roupa, ia ter cena de nudez e eu não fazia isso na época, eu desfilava, aquilo me deixou um pouco assustada, eu não sabia como eram feitas aquelas cenas. O David me tranquilizou mais uma vez, antes das minhas cenas ele me deixou ver as que ele já estava filmando, e aquilo me deixou muito tranquila. O David foi uma pessoa crucial na minha carreira, ele foi literalmente meu padrinho, ele foi um cara que teve muita paciência comigo, extremamente carinhoso, extremamente respeitoso. Foi o início, ele foi o marco da minha carreira e foi com ele o primeiro filme que eu fiz, As seis mulheres de Adão.
 
MCB: Você chegou ao cinema no início da década de 1980, período em que a chamada Boca do Lixo já vinha do auge da década de 1970. Como foi seu convívio com o pessoal? 

SG: Bom, quanto ao meu convívio com as pessoas do cinema foi o melhor possível, eu não tinha problema com ninguém, com os técnicos, com os diretores, com os produtores, eu me dava perfeitamente bem. A gente tinha uma harmonia, tinha um sincronismo, cada vez que acabava um filme aquilo virava uma família mesmo, que a gente sentia falta. E aí, de repente, você ia fazer outro filme e você encontrava aquelas mesmas pessoas, a minha relação com o pessoal do cinema sempre foi muito boa.  
 
MCB: A Boca do Lixo tem muitas estrelas e você logo se tornou uma delas. Vocês eram amigas fora do set? Continua amiga de algumas delas? 
 
SG: Em relação às minhas amigas fora do set foi mais difícil, eu fiz mais amizade com o Luiz Carlos Braga, com o Alfredo Sternheim, com o próprio David. Eu não tinha, assim, muitas amigas fora do set porque a minha agenda estava sempre cheia, sempre lotada, Graças a Deus. Às vezes eu saía de um filme e ia correndo para o outro, em um ano eu cheguei a fazer 13 filmes, então foi mais de um filme por mês. Eu não tinha tempo não, era uma correria a minha vida, junto com o cinema tinha ainda as minhas passarelas, eu continuava na minha vida de modelo, eu era uma manequim fotográfica, eu fazia muitas campanhas de maiô e tal. Durante o set todos eram muito amigos, mas fora era mais difícil. Eu fiquei um pouco mais amiga de uma atriz que fez uns quatro ou cinco filmes comigo, que é Elys Cardoso. Como eu morava em São Paulo e ela no Rio, ela ficava hospedada na minha casa, então a gente acabou ficando muito amiga, a gente saia do set de filmagem e íamos para casa
MCB: Tenho mais três filmes seus registrados no início de sua carreira, O sexo nosso de cada dia, do Ody Fraga, e Prazeres permitidosAnarquia sexual, do Antônio Meliande. 
 
SG: O meu primeiro filme como eu disse foi o As seis mulheres de Adão, logo em seguida eu acho que veio o Prazeres permitidos, se não me engano, as vezes me confundo um pouquinho, depois veio o O sexo nosso de cada dia,  do Ody Fraga, e depois o Mulher tentação (Ody Fraga). A minha relação com o primeiro filme foi muito bacana, eu me senti muito feliz com o trabalho e o David me deu muita força, ele me indicou para muitos produtores, daí eu fui ficando conhecida e fazendo um filme atrás do outro. Eu fui pegando segurança como atriz, eu comecei a estudar, comecei a ficar mais solta no processo, mais tranquila.
 
MCB: Você atuou em Amor Estranho Amor, integrando o time de atrizes do Walter Hugo Khouri, que tem um cinema marcado pela presença de belas e ótimas atrizes. Como foi trabalhar com ele? 

SG: Bom, trabalhar com o Khouri foi assim algo, para mim, diferente, porque estava a Xuxa, a Vera Fischer, muita gente de peso, né? Na época eu pedi uma opinião para o Galante e ele achou que seria muito bom que eu participasse daquele filme, que trabalhar com o Khouri seria algo muito bom para mim, para minha carreira, que seria uma experiência nova. O Khouri era um gentleman, uma graça, mas te confesso que eu não absorvi nada daquilo, entendeu? Eu fiz o filme, mas não tirei nada assim de importante, talvez pelo meu personagem, talvez pela importância do evento ali do filme. Com os outros diretores que eu trabalhei, e eu cito aqui o Osvaldo de Oliveira, foi diferente.

O Osvaldo de Oliveira foi um dos que eu mais gostei de trabalhar, tinha muito medo também, porque ele era muito bravo (risos). Ele tinha um lado bravo e tinha aquele lado muito meigo, e eu não sei o que aconteceu, mas a gente teve uma energia muito grande, foi muito bom trabalhar com ele. No meio da filmagem (Curral de mulheres), eu tive que pular de uma pedra e essa pedra era um pouquinho alta,  ele me disse que ia trazer um dublê, mas eu falei que não, que não queria, que eu queria pular e eu pulei. Só que daí eu pisei em um bambu e acabou que meu pé ficou com um problema e eu era  a protagonista do filme, depois tive que botar sandália, saiu um pouco da continuidade. Você tinha que ver o carinho com que ele e a esposa dele cuidavam de mim, como se eu fosse filha deles mesmo, e aí que eu fiquei mais dengosa, que eu queria só carinho, porque eles foram demais comigo. Eu fiquei muito triste quando esse meu amigão faleceu, porque eu tinha sonhos de poder trabalhar com ele de novo. Me lembro que eu e o Nuno, o Nuno Leal Maia, nós fomos assistir ao filme juntos e o Nuno disse “Sandra, Osvaldão é top na fotografia, você vai ver que lindo que vai estar o filme”. E não deu outra, eu fiquei assim boba, que fotografia tinha aquele filme, eu amei, é um dos filmes que eu gosto muito. 
 
MCB: Em poucos anos, você atuou em muitos filmes, foi protagonista e foi dirigida por alguns dos cineastas mais talentosos, como o Ody Fraga, Antônio, Meliande, Osvaldo de Oliveira, David Cardoso, Alfredo Sternheim, Carlos Reichenbach. Gostaria que comentasse sobre isso.
 
SG: Bom, em muito pouco tempo eu tive o privilégio de ter trabalhado com essas grandes figuras, Alfredo Sternheim, Carlos Reichenbach, Osvaldo de Oliveira, Ody Fraga, David Cardoso, Antonio Meliande, desculpe-me por não citar o nome de todos. Eles só acrescentaram na minha carreira, me jogaram para frente, me deram apoio, me ensinaram muita coisa. Eu só tenho que agradecer por ser privilegiada pela sorte de Deus ter me colocado nas mãos dessa pessoas, porque todos eles foram super respeitosos, eu nunca tive problema nenhum em relação a cantada, a piadinha, a desrespeito, se eu falar aqui que, em algum momento, eu passei por isso, eu estou mentindo, porque nunca aconteceu. Eu sempre fui muito respeitada por todos, Graças a Deus, todos grandes diretores.

MCB: Você tem presença marcante em filmes do Antonio Meliande e do Alfredo Sternheim, inclusive como protagonista. Gostaria que comentasse sobre os filmes que fez com os dois e como foi ser dirigida por eles. 

SG:  O Alfredo Sternheim foi um dos que eu mais fiquei envolvida, nós tivemos uma sinergia grande, tínhamos feito Brisas do amor juntos, aí logo após eu fiz o Tensão e desejo também A nossa amizade se tornou mais próxima quando eu comecei a frequentar a casa dele, eu até o convidei para ser padrinho do meu casamento, ele foi meu padrinho no civil. Estreitamos os laços das nossas amizades, então eu agradeço muito, eu tive muita sorte, eu trabalhei com muita gente boa, muitos produtores e diretores muito bons. 
 
O Toninho Meliande era uma figura, um cara super simples, falava muito pouco, mas era sempre objetivo. Como diretor, ele me deixava muito a vontade nas cenas que eu tinha que tirar a roupa, nas cenas de sexo, calmamente ele me mostrava o que queria, na simplicidade dele, naquela calma. Então as cenas que ficavam um pouco mais tensas ficavam assim bem light, porque ele era um cara assim muito objetivo, ele não errava lá na câmera, ele botava a câmera, ação e pronto.  Fazíamos ensaios antes e beleza, não tinha que repetir muito, ele era um cara muito experiente, ele fazia um filme atrás do outro, acho que, nessa época, ele era o que mais filmava. 
 
MCB: Gostaria que comentasse sobre o episódio Aula de sanfona, do longa As safadas. Como foi atuar nesse episódio e ser dirigida pelo Inácio Araújo? 
 
SG: Ser dirigida pelo Inácio Araújo foi a coisa mais incrível que aconteceu na minha vida. O Galante não queria que eu fizesse esse filme, ele achava que eu não tinha condições de fazê-lo, que o personagem não tinha muita coisa a ver comigo, começou por aí, mas logo no primeiro encontro que tive com o Inácio nós tivemos uma sintonia muito grande. Ele chegou no meu apartamento para olhar as roupas que eu iria usar na filmagem, o que  a gente poderia modificar na personagem, essas coisas. Eu acabei fazendo o filme, acabei aprendendo muitas coisas com ele, porque ele é um diretor extremamente sensível, perfeito, eu amei. Assistindo ao filme, da metade para o fim, você pode ver como é que eu me desenvolvo na personagem, nas cenas. O Inácio arrasou, eu tenho muito orgulho de ter feito esse filme com ele, foi muito, muito bom, e o elenco também, foi bacana, foi muito divertido. 
 
MCB: Outro grande cineasta e com o qual tem filme também de destaque é com o Carlos Reichenbach, em Extremos do prazer. Gostaria que comentasse sobre esse filme.
 
SG: Trabalhar com o Carlão é tranquilidade, é paz, o Carlão era muito zen. Foi uma alegria poder ter conhecido o Carlão, apesar de não ter tido tanta convivência com ele, porque só fiz um filme. O que eu tenho para falar é que ele era um Senhor Diretor, foi muito prazeroso trabalhar com ele, ele era muito gentil, ele era muito tranquilo, e a equipe também que a gente trabalhava era super profissional.
  
MCB: Você se casou com o Roberto Galante, filho do Antonio Polo Galante, um dos maiores produtores do cinema popular. Gostaria que comentasse sobre esse importante produtor. 
 
SG: Eu fiz alguns filmes com o Galante e alguns filmes também com o Roberto, que é filho dele e com quem acabei me casando, temos três filhos, Rodrigo Graffi Galante, Veluma Graffi Galante e  Ícaro Graffi Galante, fui casada com ele durante 18 anos. O Galante era uma pessoa de muito feeling para o cinema, uma pessoa que chegou do nada e cresceu, foi um cara que morou na Febem, então ele tem uma história muito linda  a ser contada, um grande guerreiro e vencedor de muitas batalhas. Eu tive alguns problemas com o Galante, em função até de trabalho, mas tudo passou. Ele é avô dos meus filhos e é um grande produtor,  ele era um cara de muita sorte, onde ele enfiava a mão aquilo virava sucesso. Ele criava, ele tinha um feeling, ele imaginava uma história e daí chamava o Ody (Fraga), no dia seguinte o roteiro já estava pronto, daí ele colocava uma pincelada, umas apimentadas e pronto. O As safadas, que acabei de citar,  eu fiz com ele. Ele montou três equipes, porque o filme tem três episódios, imagina, ele contratou três equipes, ou seja, três diretores, três continuístas, três maquiadores, três stil, três fotógrafos, três eletricistas, tudo três, né, e tudo para rodar em um mês. O  Galante foi, realmente,  um marco naquela época da Boca, ele é um rei, o David Cardoso é o Rei da pornochanchada e o Galante é o Rei também do cinema.
 
MCB: Por que você abandonou a carreira de atriz? Pensou alguma vez em voltar? 
 
SG: Muitos perguntavam “Não acredito que você vai abandonar a sua carreira?”. Porque eu estava no auge da minha carreira, na verdade eu estava apenas começando e estava começando bem, mas logo eu casei e engravidei, e a gravidez mexeu muito comigo. A decisão de largar o cinema foi exclusivamente minha, muita gente achava que o Galante ou o Roberto tinham algum envolvimento nessa minha decisão, mas não tiveram, não existiu isso. Foi algo que veio de mim mesma, eu desejei ser mãe, eu resolvi largar tudo porque aquilo já não me completava mais. E eu não tive vontade de voltar, porque a minha decisão foi muito bem pensada, entendeu? Então eu não ficava com aqueles desejos, ou, vamos dizer assim, arrependida, tipo,  os meus filhos estão crescendo, eu podia estar fazendo. Eu fiz algumas coisas aqui na minha cidade como modelo e tal, colaborei com algumas coisas, foi legal, fiz alguns comerciais, mas eu estava bem. 

Eu fui morar em um sítio, eu comecei a ter outra vida, eu descobri coisas em mim que eu adoro, como a natureza, que me encanta, mexer com sítio, com fazenda, com animal, com planta, isso preenche a minha vida. E os meus filhos, né, porque eu tive três, eles preencheram pra caramba, porque não é fácil criar filhos e eu criei os três. Agora, eu já sou avó da Luana Galante, e do Lourenço Galante, que vai nascer agora, e eu estou muito feliz com isso, a família me deu aquele amparo gostoso que eu precisava. Eu entrei no momento ótimo do cinema, conheci pessoas ótimas, e também saí em um momento ótimo, porque logo começou o sexo explícito e, com certeza, eu não iria participar nessa época do sexo explícito. Então eu tive a certeza de que era o momento de eu sair. 
 
MCB:  Você falou bastante sobre a sua relação com os diretores,  sobre a construção das personagens você falou um pouco sobre o Aula de sanfona, sobre o seu desenvolvimento no filme do início para o final.  E nessas tantas personagens que você interpretou, inclusive como protagonista, como por exemplo em Brisas do amor, tem alguma personagem que foi mais difícil para você fazer? E tem alguma personagem que você destacaria, uma ou mais, que você tenha gostado muito de fazer? Não estou falando do filme, mas da personagem.
 
SG: A personagem mais difícil que eu fiz foi em Curral de mulheres, com o Osvaldo de Oliveira. Foi uma personagem dificílima porque tinha mato, tinha pedra, tinha cachoeira, e a personagem era uma fugitiva, então para mim foi o mais difícil. As que eu mais gostei de fazer e faria de novo foi em  Brisas do amor e no  Tensão e desejo, os dois do Alfredo Sternheim, eu tenho um carinho muito especial por esses dois personagens. Primeiro que o carinho já vem porque o Alfredo escreveu pensando em mim, ele me projetou naquelas personagens, eu gosto de ver várias vezes e de relembrar, porque cada cena ali foi projetada para mim. Então esses dois aí, o Brisas do amor e o Tensão e desejo são meus xodozinhos. Quer dizer, todos são né, mas sempre tem um especial. Já As seis mulheres de Adão tem o lado especial porque foi o meu primeiro filme.

Por todos eles eu tenho um carinho, porque a gente  começa a fazer um filme, a construir a personagem, a gente vai se identificando. O Tensão e desejo é um primor, tem uma cena de sonho do Luiz Carlos Braga que o Alfredo dirigiu que é a coisa mais linda, foi feito com travelling, e eu acompanhando. Só tinha uma marca no chão, que era uma fita crepe, e eu rodopiando ali, naquele quarto, com aquele travelling. A gente fez de primeira, mas era uma cena dificílima para fazer, então o Alfredo dirigia brilhantemente, ele vibrava, ele era brilhante.

Eu não posso deixar de falar do Inácio, ele queria que eu desse o máximo de mim e ele conseguiu, ele conseguiu me colocar no final do filme como ele queria que eu ficasse, e para mim foi uma experiência maravilhosa.  
 
MCB: Você trabalhou na televisão? 
 
SG: Sim, eu fiz um programa, “A Sorte é sua” na Band, há muitos anos. E fiz júri também, fazia muito júri para o Raul Gil, Barros de Alencar, Bolinha, Chacrinha, a gente fazia muito juri desses programas musicais que existiam na época.  
 
MCB: Alguma pergunta que eu não te fiz e que você gostaria de falar? 
 
SG: Na verdade, para mim, cinema foi vida, a gente vivia sonhando com o cinema, o cinema era esse encontro de família. Então era uma alegria, era um prazer quando todos se uniam para começar a filmar. “Câmera, Ação!”. Aquilo era uma prece, a energia que pairava ali no set de filmagem era muito grande, os técnicos não tinham essas mordomias que eles têm hoje, tudo era muito precário e eles faziam cinema na precariedade, era uma coisa maravilhosa, era lindo demais. 
 
Você imagina, não existia som direto, nós tínhamos que depois dublar o filme, muitas das vezes você ia assistir o teu filme e era com voz de outra pessoa. Graças a Deus, só teve um filme que eu não dublei, mas eu aprendi a dublar, porque os produtores e diretores preferiam que a atriz dublasse, até por questão financeira mesmo, porque senão você teria que contratar outra pessoa. Nem isso nós tínhamos, não tinha som direto, então você imagina, muita vezes a gente falava um textinho a mais, uma coisa, e na hora da dublagem, caramba, dava uma confusão, porque não batia a boca com a palavra, você tinha que descobrir o que a atriz tinha falado naquela hora. Mas enfim, era só alegria, era prazeroso, ficar no bar do Soberano, que ali, eu acho, é um marco da nossa história, onde as atrizes, os atores e os técnicos, todos ficavam ali tomando café e elaborando novos projetos, novos filmes, novos roteiros. Ali  a gente ria muito, a gente se divertia muito e via os amigos. Então foi um momento muito bonito, quem viveu é apaixonado por aquele momento, pelo Bar do Ferreira, pelo Bar do Soberano, pela Rua do Triunfo e por tudo o que acontecia ali.
 
MCB: As únicas duas perguntas fixas do site. A primeira: Qual foi o último filme brasileiro a que você assistiu?
 
SG: O último filme brasileiro que eu assisti, que eu me lembre, foi Olga (direção de Jayme Monjardim), o que já faz muito tempo. Eu assisto alguns da nossa época, eu estou sempre vendo, assistindo e revivendo. 
 
MCB: E por último: Qual a mulher do cinema brasileiro, de qualquer época e de qualquer área, você deixa registrada na sua entrevista como uma homenagem e por que? 
 
SG: A gente tem várias atrizes do cinema nacional dessa época, ou de qualquer época, mulheres maravilhosas, mas uma que eu gostaria de citar é a Vanessa Alves. A Vanessa fez muito filme, eu não sei ao certo quantos filmes ela tem, mas ô atriz danada, em tudo quanto é filme ela estava. Eu quero homenageá-la porque ela era uma menina muito meiga, uma menina amiga de todo mundo, ela entrava quietinha no set de filmagem, ia embora quietinha, não arrumava confusão com ninguém,  era uma pessoa assim de muito brilho. Eu tenho muito respeito pela Vanessa Alves, então eu gostaria de homenageá-la assim como uma das atrizes do cinema nacional que mais filmou. Desejo muito sucesso para a vida dela.  
 
MCB: Muito obrigado pela entrevista. 
 
SG: Eu que agradeço.


Entrevista realizada por zap no dia 7 de junho de 2021.
Crédito foto: Aline Galante

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Sala 
 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.