Ano 17

Marcélia Cartaxo

Uma das maiores atrizes brasileiras, Marcélia Cartaxo nasceu em Cajazeiras, Paraíba. O início da trajetória artística se deu cedo, na cidade natal, a partir do teatro, onde faz grande carreira.”Eu comecei com 12 anos de idade na rua, depois a gente foi para o quintal, e depois ainda a gente foi para os auditórios. Foi assim, com um grupo que começava nas brincadeiras de rua e depois essas brincadeiras de rua foram começando a entrar nos movimentos das artes. Então eu fiz até o segundo grau e todo o meu movimento é muito intuitivo, a princípio era amador. Depois, quando eu recebi uma proposta pra fazer A hora da estrela, ai minha carreira foi começando a ficar séria, e foi exatamente assim que eu me descobri, desde os 12 anos, fazendo arte”.
 
A consagração nacional se deu já na estreia no cinema com o primeiro longa de Suzana Amaral, em 1985, A hora da estrela, maravilhosa e premiadíssima adaptação da novela de Clarice Lispector, que lhe valeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Berlim.  “E foi em São Paulo, isso foi em 1984, por aí, que Suzana Amaral assistia a esses espetáculos que vinham do nordeste, pois, nessa época, ela estava procurando uma atriz para fazer A hora da estrela, que era a Macabéa, da Clarice Lispector. Quando entrou no teatro e começou logo os primeiros movimentos da peça, ela disse que já foi ficando muito encantada com o meu trabalho, porque eu não tinha expressões assim muito dilatadas. Porque o teatro é assim, a gente tem que se movimentar muito, dilatar as nossas impressões para que o espectador entenda o que a gente quer dizer. Então ela achou que eu era muito intuitiva, muito para dentro, que eu tinha um sentimento que era muito voltado para o cinema, e foi ficando encantada com o meu trabalho. Aí ela me convidou para fazer o filme, fazer o teste, né”.

De lá para cá, Marcélia Cartaxo intensificou sua carreira, não só nos palcos, como também no cinema e na televisão. Nas telas, tem atuações maravilhosas, como em Madame Satã, de Karim Ainõuz, e em seu novíssimo filme, Pacarrete, dirigido por Alan Deberton. “Eu conheci o Allan quando ele fez o primeiro curta dele, Doce de Coco, ele me chamou para preparar o elenco. Aí fui e também fiz uma participação no Doce de Coco.  Lá mesmo ele disse assim “Olha, Marcélia, quando eu escrever meu primeiro longa-metragem, eu quero fazer a história de uma bailarina que mora aqui em Russas, ela já morreu, ela é uma louca da cidade. Na hora, eu toda animada, disse “Vamos fazer, que ótimo, um projeto lindo”.
 
Marcélia Cartaxo esteve na 23a Mostra de Cinema de Tiradentes para acompanhar a exibição de Pacarrete e conversou com o Mulheres. Na entrevista, ela repassa sua trajetória, fala sobre A hora da estrela e outros trabalhos, e, claro, sobre Pacarrete e muito mais.
 
Mulheres Do Cinema Brasileiro: Para começar, nome, cidade em que você nasceu, data de nascimento e a sua formação. 

Marcélia Cartaxo: Eu sou a atriz Marcélia Cartaxo, nasci em Cajazeiras, Paraíba, estou com 57 anos.

MCB: Você fez alguma formação artística? 

MC: Eu comecei com 12 anos de idade na rua, depois a gente foi para o quintal, e depois ainda a gente foi para os auditórios. Foi assim, com um grupo que começava nas brincadeiras de rua e depois essas brincadeiras de rua foram começando a entrar nos movimentos das artes. Então eu fiz até o segundo grau e todo o meu movimento é muito intuitivo, a princípio era amador. Depois, quando eu recebi uma proposta pra fazer A hora da estrela, ai minha carreira foi começando a ficar séria, e foi exatamente assim que eu me descobri, desde os 12 anos, fazendo arte.  

MCB: Porque você também tem uma carreira importante no teatro. 

MC: Sim, eu fiz muitas peças de teatro e o que a gente fazia era muito na prática, a gente mexia com as questões sociais, que era o misticismo religioso, a prostituição, a miséria, o barraco, as condições físicas, pessoais e psicológicas dos personagens. Então, a cada movimento, a gente descobria um tema e se descobria vivenciando essas coisas, que é a própria arte de viver. 

MCB: Como se deu o convite para fazer A hora da estrela? Porque além de o filme ter mudado muito a sua vida, o que eu imagino, ele também foi um acontecimento na cena cinematográfica do Brasil. Veio ali a Suzana Amaral com esse filme, com prêmio em Berlim. depois, com toda a repercussão. Como surgiu  A hora da estrela na sua vida? 

MC: Depois desses movimentos todos do teatro, iniciei fazendo coisas infantis. Depois a gente partiu pra fazer esses movimentos sociais, e quando a gente estava com uma peça chamada "Beiço de Estrada",eu ainda morava em Cajazeiras, Paraíba, nós participamos de um projeto muito lindo chamado Mambembão, que era assim, os melhores espetáculos do sul vinham para o nordeste e os melhores espetáculos do nordeste iam para o sul; Aí tinha uma comissão que assistia a esses espetáculos e selecionava os melhores para poder fazer esse intercâmbio. O"Beiço de Estrada" foi escolhido e a gente fazia, acho que era Brasília, Porto Alegre, Curitiba, São Paulo e Rio. E foi em São Paulo,isso foi em 1984, por aí, que Suzana Amaral assistia a esses espetáculos que vinham do nordeste, pois, nessa época, ela estava procurando uma atriz para fazer A hora da estrela, que era a Macabéa, da Clarice Lispector. Quando entrou no teatro e começou logo os primeiros movimentos da peça, ela disse que já foi ficando muito encantada com o meu trabalho, porque eu não tinha expressões assim muito dilatadas. Porque o teatro é assim, a gente tem que se movimentar muito, dilatar as nossas impressões para que o espectador entenda o que a gente quer dizer. Então ela achou que eu era muito intuitiva, muito para dentro, que eu tinha um sentimento que era muito voltado para o cinema, e foi ficando encantada com o meu trabalho. Aí ela me convidou para fazer o filme, fazer o teste, né. 

Na época, ela tinha me convidado assim, no meu pensar artístico tinha me convidado pra fazer o filme e eu já fiquei louca. Porque ela começou já a falar do livro, perguntou se eu já tinha lido esse livro e eu disse que não, e que eu não conhecia os livros da Clarice,  que eu estava nesse movimento artístico ainda muito recente, era tudo muito novo. Passaram-se oito meses e eu voltei para a minha cidade depois dessas apresentações nesse projeto, voltei para Cajazeiras. Com um mês que eu tinha voltado, eu recebi oito cartas da Suzana Amaral, falando sobre o projeto, sobre o livro. Ela me deu o livro de presente antes de eu sair de lá, ela assistiu ao espetáculo três vezes para me observar, aí no segundo dia ela já tinha levado o livro. Eu voltei para a minha cidade e com um  mês ela já me mandou uma carta, a segunda, a terceira, até oito cartas, me dizendo como ia ser o projeto, que já tinha o dinheiro, já tinha captado, e falava muito do personagem nas cartas, e me dirigindo nas cartas. Ela me pediu para fazer uma camisola, e eu fui me envolvendo cada vez mais com a Macabéa, lá no meu universo, que é a cidade do interior. E me pedia para que eu fosse para os lugares assim mais, procurar as Macabéas da minha cidade, nos bairros mais pobres, que eu observasse as pessoas. Eu fui fazendo tudo isso, e eu fazia também muito trabalho sozinha no meu quarto, eu ficava no espelho me olhando, porque tinha umas coisas no A hora da estrela que me comovia bastante. 

Ela nunca me deu o roteiro, eu só fui receber esse roteiro um mês antes de começar, não, uns 15 dias antes de começar o filme, porque ela queria mesmo que eu me descobrisse por esse personagem. Então a história da Macabéa eu achava ela muito triste, e era um personagem muito novo, vivenciando isso, e eu achava assim que o Olímpico era muito mal com ela. E fui assim entendendo muito a história da Macabéa. Quando eu cheguei em São Paulo, a produtora exigiu que eu fizesse teste com outras atrizes porque não me conheciam, eu não era famosa, eu não tinha nome, nem nada. Eles ficaram assim muito reticentes em começar um projeto e indicar uma atriz que nunca fez nada no cinema sabe? Aí foi, fiz o teste, era ela comendo o sanduíche, batendo a máquina. Achava interessante o jeito que eu fazia e foi tudo assim muito complementar sabe, esse movimento dessa busca, tanto dela quanto a minha, para a  gente vivenciar a Macabéa. 

MCB: E você imaginava a extensão disso tudo? Porque hoje é impossível pensar em Macabéa sem pensar em você, por exemplo, e também para o cinema da Suzana. Porque a Suzana também faz Uma vida em segredo  e ali também é um trabalho minimalista, ou seja, interessa esse registro, né? 

MC: Sim, sim. 

MCB: E, principalmente, foi para o Festival de Berlim, ganhou prêmio, enfim, e depois toda a repercussão aqui no Brasil. Além da modificação na sua vida, você tinha noção de onde isso tudo iria parar?  

MC: Não, eu não tinha. Em princípio, é claro, eu estava muito insegura, viajei sozinha, nunca tinha saído sem o grupo, e foi difícil assim na minha família, sair de casa, porque minha mãe me conhecia. Eu falava com Suzana no telefone, na minha casa não tinha telefone, tinha que ir para a casa da vizinha ou era através de cartas, era um outro tipo de comunicação, muito difícil. Minha mãe não conhecia esse povo, não sabia para onde eu ia. 

MCB: Você tinha quantos anos?  

MC: Eu tinha 19 anos. 

MCB: Novíssima. 

MC: É. Aí foi difícil sair de casa, conquistar minha mãe para que eu pudesse ir. Eu viajei de ônibus porque ela não queria que eu viajasse de avião, não queria me dar o luxo que a Macabéa não tinha. Então ela já me via fresquinha ali, e durante o processo de filmagem eu ficava o tempo todo voltada para a parede, porque não era pra ninguém se comunicar comigo, para eu não perder aquela ingenuidade. Eu não ia para restaurantes, essas coisas, nada. Eu fui, realmente, para São Paulo com a intenção de fazer o filme e muito pela direção dela,  porque ela tinha uma intuição com as coisas da direção e ela encontrava em mim isso,. Era uma primeira experiência dela com relação a dirigir um longa-metragem, porque ela saiu fresquinha lá de Nova York, onde ela fez o Actors Studios, e ela encontrou esse projeto lá também. Ela leu o livro lá e decidiu fazer o filme adaptando "A Hora da Estrela". Ela também estava fresquinha nessa contaminação da direção, então tudo que ela aprendeu lá na época dos estudos ela aplicava em mim, na Macabéa, nessa primeira direção dela. Foi muito incrível, porque eu não tinha ideia de muitas coisas, a ideia que eu tinha era a minha própria bagagem, que eu trazia da minha experiência do teatro e apliquei no personagem. E com tudo isso, o que transbordou nesse projeto da Suzana Amaral foi eu me descobrir através desse próprio sentimento, porque eu também não tinha controle sobre ele. Foi assim muito incrível, foi uma descoberta também para mim enquanto atriz. E a história da Macabéa, a história do filme e o prêmio também foram o meu grande passaporte para essa carreira, porque só veio confirmar cada vez mais que eu estava nesse caminho e que eu tinha que seguir esse caminho.  

MCB: Em A hora da estrela você convive com três atores veteranos maravilhosos, que é o José Dumont, a Tamara Taxman e a Fernanda Montenegro.  

MC: Sim.
 
MCB: Como foi esse encontro para você? 

MC: Foi incrível, porque, para mim, era tudo uma surpresa. Quando a Suzana me apresentou para essas personalidades da história do nosso cinema, eu só conhecia o José Dumont, ele já conhecia o grupo da gente, sabia que tinha esse movimento lá em Cajazeiras, em João Pessoa. Luiz Carlos Vasconcelos também faz parte desse movimento, porque quando a gente era criança o Luiz Carlos fez um encontro na Escola Piolin, na qual deslocou a gente em Cajazeiras para a capital, João Pessoa. E lá a gente aprendeu a improvisar, trabalho de corpo, trabalho de voz, a gente não sabia que o teatro tinha todo esse encanto de preparação. Lá, aprendemos a improvisar, aprendemos a ir para a rua, a se comunicar com o povo na rua através da arte. Foi muito lindo todo esse início assim, porque eu pude me imaginar lá, pegando essas experiências e botando no trabalho. Eu só conhecia José Dumont, que conhecia esse processo, esse movimento em João Pessoa. Depois, quando a gente estava já na preparação, na pré-produção do filme, aí ela trouxe a Tamara para a gente poder passar o texto, se conhecer um pouco. Só fui conhecer mais esse povo muito depois que acabou A hora da estrela. A Fernanda Montenegro foi uma grande surpresa, né, porque todo mundo falava que ela era a Dama do Teatro, na época era muito o teatro que se vivenciava. Eu ficava deslumbrada pelo fato de ter uma mulher muito artística e poderosa, e bem a frente dos nossos tempos, com a sua arte. 

Foi muito bacana porque eu pude começar de cima, e isso aí, para mim, é  que foi a grande revolução. Porque depois que eu ganhei esse prêmio aconteceu muitas cobranças, sabe, "como que ela vai ser?". Se eu era um Pixote, perguntavam muito se eu era Pixote, porque com o Pixote foi assim, fez aquilo ali e depois voltou-se para o crime e acabou sendo assassinado. Eu sempre dizia que não, que o meu trabalho era todo voltado para a arte. Sou de uma cidade do interior, comecei com 12 anos, vivi muitas coisas de calendário artístico, tipo São João, carnaval, a gente sempre fazia esses movimentos, né, Paixão de Cristo. Então  a gente vivia esse calendário anual artístico que acontecia ,popular né?
  
MCB: Você constrói uma carreira cinematográfica grande, trabalha com muitos diretores, muitos filmes, queria antes de entrar no filme atual, pelo menos citar dois encontros que eu acho bem importantes na sua carreira, pelo menos eu vejo assim. Um é com o Karim Aiñouz.. 

MC: Sim, Madame Satã.  

MCB: E com o Claudio Assis.  

MC: Baixio das Bestas

MCB: E fora outros tantos filmes, mas eu queria assim focar um pouco nesse encontro com o Karim, no Madame Satã, que é  outro trabalho impressionante seu. 

MC: Para mim o Madame Satã é um dos melhores filmes do Karim, pela força do filme, pela temática também que ele toca, é um tema assim muito importante, social. É  um filme social, vai fazer 20 anos de Madame Satã,   é um filme que mexe com o negro, o homossexual, com o ser humano. E também o pobre que se deslocou do nordeste e foi para o sul, e, chegando lá, ele teve que enfrentar muitas coisas, muita resistência. Enfrentou o Estado, a polícia, enfrentou tudo para poder existir e botar a sua arte em prática, que era o que ele gostava mais, que  era do carnaval e de se vestir e ser artista. Eu fazia nesse trabalho uma prostituta que era muito amiga dele, ela procurava nele muita defesa, uma família, um irmão, um amigo que cuidou dela e cuidou da filha dela. Então foi assim muito lindo esse trabalho que eu tive com o Lázaro (Ramos), a gente ficou muito unido, a gente formou uma família junto com o (Flávio) Bauraqui, que também é um grande ator, maravilhoso, e que, cada vez mais, se consagra em cada projeto que ele pega, que ele faz. Ele é um músico muito inteligente, muito culto, e está aí despontando com a sua arte, fazendo vários outros personagens, que tiveram vida, que foram negros e cantores, e tudo mais. E idem com o Lázaro.

MCB:  Eu adoro também a sua interpretação no Baixio das Bestas.

MC: É tão pequenininho, uma participação bem pequenininha. 

MCB: Mas é aquele tipo de trabalho que rouba o olho da gente.

MC: No Baixio das Bestas, quando o Cláudio Assis me convidou, ele me convidou para preparar o elenco. Era um elenco novo que estava entrando, que era a menina Mariah (Teixeira), o Fernando (Teixeira), o Irandhir (Santos), era o primeiro longa do Irandhir e foi assim muito incrível. Eu  tinha dirigido o meu curta-metragem, que se  chama Tempo de Ira, e quando eu dirigi esse curta eu senti a necessidade de preparar o ator para ele entrar em cena. Foi aí que eu comecei a me descobrir e descobrir outras coisas, que foi, justamente, as oficinas que eu fazia. Porque quando eu fazia a A hora da estrela, ninguém me dizia nada, eu fazia tudo na intuição; Eu dizia “Pô, eu fiz aquilo ali tudo e ninguém me dizia nada, que eu olhasse assim, que eu fizesse assim”. Claro que tinha uma direção naquele momento ali, mas eu não me lembro de um momento que alguém me dissesse “Faz assim, faz assado, era mais passa e eu passava, vai, fala esse texto, a cena é assim” Eu me comportava como se eu estivesse fazendo teatro, só que eu não tinha, eu era muito econômica nos movimentos, no jeito de falar, no jeito de olhar sabe, então isso me despertou para que eu fizesse oficinas e preparasse as pessoas, outros atores, pessoas que estavam iniciando, para poder ter uma experiência junto com a câmera. Foi aí que eu preparei esses meninos, e quando chegou no meio da preparação, logo lá quando o filme já estava para começar “Vamos botar a Marcélia para fazer uma participação. Aceita?”, “Aceito”. E aí era incrível, porque a Mariah nunca tinha feito, Fernando Teixeira não. 

O Cláudio Assis era muito impaciente com esse negócio de iniciante, porque ele não gostava de ver cru, ele queria já pegar as coisas prontas para ele pegar, passar a mão e dirigir. Aí, quando foi lá para as  tantas, a gente ficou quase um mês nessa preparação, vamos levar esse povo para a locação. E aí fomos para a locação, para a casa que seria do Fernando Teixeira e da Mariah. E depois o Irandhir, que tinha esse movimento lá com o dono da casa, que ficava de olho na menina. Ele era o coveiro, cavando aquela terra naquele sol e suava. No fim da tarde, eu vou pegar o Irandhir e botar lá naquele boteco, porque era um coveiro que bebia muito, só o  Irandhir, com um calção bem pequenininho assim, e ele vai ficar igual aqueles bêbados ali, vai sentar lá.  Eu quero ver,  vou ficar olhando de longe você lá sentado, e ele disse “ O quê? Mas eu não bebo não”. “Ah, mas vai beber, bebe uma pinga, depois bebe outra, e vai conversando com os caras, tu vai ver”. Aí ele foi, depois ele adorou essa experiência, quando o cara entrou em cena o cara já estava pronto, e foi muito lindo todas essas descobertas assim. 

MCB: Esse seu filme atual, Pacarrete, está uma sensação, ganhando prêmio. É  um filme que está sendo muito comentado e positivamente.

MC: Sim, o Pacarrete, direção de Allan Deberton. Ele foi feito no Ceará, em uma cidade chamada Russas, que é a cidade do Allan. Eu conheci o Allan quando ele fez o primeiro curta dele, Doce de Coco, ele me chamou para preparar o elenco. Aí fui e também fiz uma participação no Doce de Coco.  Lá mesmo ele disse assim “Olha, Marcélia, quando eu escrever meu primeiro longa-metragem, eu quero fazer a história de uma bailarina que mora aqui em Russas, ela já morreu, ela é uma louca da cidade. Na hora, eu toda animada, disse “Vamos fazer, que ótimo, um projeto lindo”. Aí se passaram 12 anos e, um dia, de repente, Allan me liga e diz assim “Marcélia, vamos fazer o filme e já vai começar a pré produção”. E eu “Pô, como que eu vou me preparar, como que vai ser isso meu Deus?” A minha preocupação maior era física, né, dessa bailarina, ela dançava ainda, ela era professora, teve muitos alunos novos, crianças. E depois ela falava francês e tocava, ela tocava piano, era uma mulher muito culta, ela adquiriu essa experiência dela quando ela começou, quando o pai dela, que era alfaiate, botou ela e a irmã dela no orfanato, a Pacarrete e a Chiquinha. Aí elas ficaram lá no orfanato, penso eu que ficaram abandonadas,  porque a mãe delas morreu cedo e ficou só o pai, que era um mulherengo, teve várias outras famílias, ela tem vários outros irmãos em Russas. Lá no orfanato, ela aprendeu balé, e depois que ela saiu de lá, era muito culta, ela ouvia música chique, ela foi ser professora e teve muitos alunos. Passou esse tempo e ela vivendo essas coisas, se apresentando no palco, fazendo muito sucesso, fez essa carreira de professora, de bailarina. 

Depois a irmã dela ficou doente em Russas, ela com seus 65 anos voltou pra Russas para cuidar da irmã, que estava doente e só tinha ela, irmã de sangue mesmo. Quando ela chegou em Russas, ela se viu sem chão, porque onde é que ia botar sua arte: Daí ela começou a fazer esse trabalho dela na calçada, e a cidade foi enlouquecendo ela, ela foi enlouquecendo com essa cidade. Chegou um dia que fizeram uma grande festa na cidade e ela queria participar dessa festa de 200 anos da cidade, aí ela foi para a luta, foi na Secretaria de Cultura, foi em vários lugares, foi mandar fazer a roupa dela. Ela foi seguindo isso aí, até que um dia a irmã dela morre e aí é a virada do filme. Quando a irmã morre ela fica sem chão também, mas ela ainda resistindo e resistiu a sua arte. E é isso que a gente quer passar para as pessoas, e outra coisa também que a gente quer é que fique registrado  a importância do artista local sabe, ela foi pro mundo, fez toda a sua arte, um tempo ela foi respeitada e depois, quando ela está envelhecendo, como todo artista envelhece, como todos nós, independente de qualquer profissão na vida, a gente é abandonado. Eu sou da cidade do interior e fico imaginando tudo isso, como vai ser isso mais adiante, porque nós estamos vivendo um movimento muito estranho politicamente agora, de muito desmonte. E para gente passar por esse momento difícil, porque a gente sabe que vai passar e que a gente vai retomar isso com a maior grandeza lá na frente né, a gente vai ter que resistir. 

MCB: Marcélia para terminar a entrevista as únicas duas perguntas fixas do site. A primeira, qual o último filme brasileiro a que você assistiu?  

MC: O último filme brasileiro que eu assisti... ai ai (tenta se lembrar) ... 

MCB: E qual mulher do cinema brasileiro, de qualquer época e de qualquer área,  que você deixa registrada na sua entrevista como uma homenagem?

MC: Suzana Amaral. Ela está com seus 90 anos e daqui a pouco a gente vai ter que ficar só com a arte dela

MCB: Muito obrigado pela entrevista. 


Entrevista realizada durante a 23a Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro de 2020.
Crédito da foto: Léo Lara/Universo Produção
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Sala 
 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.