Ano 17

Clarissa Kiste

É impressionante a variedade e o tamanho do talento de inúmeras atrizes brasileiras, e como esse elenco vai se renovando a cada década. O cinema, felizmente, eterniza tudo isso, como é o caso de Clarissa Kiste. Nascida em São Paulo, ela é uma atriz com formação e carreira teatral importante. “Durante quase os meus dez primeiros anos de carreira, o meu trabalho foi, praticamente, no teatro, algumas vezes fazendo peças em que eu era convidada e em algumas outras vezes produzindo a peça que eu queria fazer. Então eu tive a oportunidade de trabalhar com Monique Gardenberg, de trabalhar no teatro com o Hector Babenco, com o Rubens Rewald, com quem depois, mais tarde, eu vim a fazer cinema”.
 
Ainda no tempo da faculdade de artes cênicas, debutou também no cinema. “A minha primeira oportunidade de pisar em um set de filmagem foi ainda dentro da Universidade, lá na USP. O curso, que hoje é de audiovisual, antes era de cinema, era em um prédio lateral ao  de Artes Cênicas, então existia sempre esse intercâmbio entre nós. Manoel Rangel, assim como Marco Dutra e Caetano Gotardo, eram alunos da Universidade de São Paulo e pessoas que sempre estavam frequentando o departamento de Artes Cênicas, até mesmo para saber como os atores trabalhavam, quais eram as técnicas, entender um pouco mais o trabalho do ator. Os primeiros convites surgiram assim, quando a gente está na faculdade a gente faz o que aparece, pra gente, tudo serve como experiência, e eu tive já essa sorte, de cara, de estar com pessoas muito bem vocacionadas nisso. Com Manoel Rangel eu fiz o curta Vontade e com o Marco Dutra e o Caetano Gotardo eu fiz o curta O lençol Branco.

De lá para cá, Clarissa Kiste vem desenvolvendo uma carreira ascendente e importante no cinema, seja como coadjuvante ou protagonista, em filmes de cineastas como Marco Dutra, Juliana Rojas, Caetano Gotardo, Rubens Rewald, Aly Muritiba, Maria Clara Escobar e Ana Johann. Com  Johann, protagonizou A mesma parte de um homem, lançado na Mostra Aurora, da Mostra de Cinema de Tiradentes, belo filme com o qual a diretora recebeu o Prêmio Helena Ignez,  e no qual Clarissa é a protagonista. “Quando você protagoniza um filme, você tem mais liberdade, uma independência maior para colocar ali a sua visão também como artista da história do filme, da personagem. E isso também acontece quando você trabalha com diretores generosos, diretores que não têm medo de abrir o trabalho para outros profissionais complementarem aquilo que ele ofereceu. E a Ana Johann foi muito essa diretora, ela foi o tempo toda generosa, o roteiro é dela, a direção é dela, mas sempre muito aberta a escutar tudo que os outros profissionais, de todas as outras áreas ali, tinham para acrescentar ao filme. Foi um set muito especial, foi um set majoritariamente feminino, o que eu acho que isso é determinante para o filme que a gente tem. A gente precisava dessa visão feminina em toda as áreas, na arte, na fotografia, na interpretação, na direção, na assistência de direção, e assim foi.  Então foi um projeto que teve muita troca, muita cumplicidade de todas nós, uma vontade muito grande da gente agarrar essa oportunidade, da gente dar essa nossa visão feminina, totalmente feminina para essa personagem, para esse filme, de uma maneira bem contundente assim, foi uma experiência incrível.”
 
Clarissa Kiste, que participou da 24a. Mostra de Cinema de Tiradentes com a estreia do longa A mesma parte de um homem, dirigido por Ana Johann, que na edição 2021 foi virtual em fundação da pandemia da Covid-19, conversou com o Mulheres do Cinema Brasileiro em entrevista realizada por email. Nela, repassa sua carreira, como sua formação, o trabalho nos palcos, no cinema, em séries e produções para streaming, na novela global "Amor de Mãe", e muito mais.
 
Mulheres do Cinema Brasileiro: Nome, cidade em que nasceu, data de nascimento completa, se possível, e formação. 
 
Clarissa Kiste: Vamos lá, meu nome é Clarissa Kiste Malveiro, meu nome artístico é Clarissa Kiste, eu nasci em 11 de fevereiro de 1978. Na minha formação, eu fiz três escolas de teatro, fiz o Teatro Escola Macunaíma, fiz a faculdade, o bacharelado em interpretação na Universidade de São Paulo, e fiz a EAD - Escola de Arte Dramática.  
 
MCB: Você começou a carreira artística nos anos 1990 no teatro, não é isso? Gostaria que falasse um pouco sobre o trabalho nos palcos e citasse trabalhos que foram marcantes para você. 
 
CK: Eu comecei a minha carreira com teatro. Eu tive o grande privilégio e a grande oportunidade de poder estudar teatro por doze anos, isso, para mim, eu considero um grande privilégio. Mesmo porque eu estudei na Universidade de São Paulo, e o que é muito legal é porque lá nós temos uma infraestrutura muito grande, a gente tem dois teatros, tem todos os aparatos técnicos, temos um figurino maravilhoso, então foi quase como um placebo do que seria depois a vida profissional para mim. Eu tive a oportunidade, na Universidade, de passar por todos os autores clássicos e contemporâneos e fazer tudo isso dentro de uma Universidade, dentro de uma sala, sem precisar de ter o peso profissional de estar trabalhando, de estar recebendo pra isso. Então foi realmente, uma oportunidade muito especial que poucas pessoas têm, eu tive o privilégio de ter. Durante quase os meus dez primeiros anos de carreira, o meu trabalho foi, praticamente, no teatro, algumas vezes fazendo peças em que eu era convidada e em algumas outras vezes produzindo a peça que eu queria fazer. Então eu tive a oportunidade de trabalhar com Monique Gardenberg, de trabalhar no teatro com o Hector Babenco, com o Rubens Rewald, com quem depois, mais tarde, eu vim a fazer cinema.
 
MCB: Você vem construindo uma carreira importante no cinema. A estreia foi nos curtas Vontade, de Manoel Rangel, e Nervos de Aço, de Ed Andrade? Gostaria que falasse um pouco sobre esses primeiros trabalhos e que relembrasse a sensação de pisar em um set de cinema pela primeira vez. 
 
CK:  A minha primeira oportunidade de pisar em um set de filmagem foi ainda dentro da Universidade, lá na USP. O curso, que hoje é de audiovisual, antes era de cinema, era em um prédio lateral ao  de Artes Cênicas, então existia sempre esse intercâmbio entre nós. Manoel Rangel, assim como Marco Dutra e Caetano Gotardo, eram alunos da Universidade de São Paulo e pessoas que sempre estavam frequentando o departamento de Artes Cênicas, até mesmo para saber como os atores trabalhavam, quais eram as técnicas, entender um pouco mais o trabalho do ator. Os primeiros convites surgiram assim, quando a gente está na faculdade a gente faz o que aparece, pra gente, tudo serve como experiência, e eu tive já essa sorte, de cara, de estar com pessoas muito bem vocacionadas nisso. Com Manoel Rangel eu fiz o curta Vontade e com o Marco Dutra e o Caetano Gotardo eu fiz o curta O lençol Branco. Foi muito gostoso, porque, na verdade, nós éramos  todos estudantes, então também não foi uma sensação de que eu estava em um set de filmagem profissional, no sentido capitalista do nome. Eram, lógico, sets muito profissionais na maneira como que trabalhávamos, mas não tinha esse peso, todo mundo ali era estudante, todo mundo ali estava aprendendo. Então, ao mesmo tempo em que eu estava me vendo pela primeira vez em um set, todo mundo da equipe de certa maneira também estava se vendo pela primeira vez em um set, e isso era muito gostoso, isso gerava uma troca muito gostosa, todo mundo ali aprendendo juntos, foram experiências extremamente felizes. Foram filmes que acabaram tendo carreiras dentro do mercado de curta metragem, carreiras muito bacanas, então não só aprendi no set como aprendi também sobre toda essa pós produção, como funcionava um lançamento, como eram as entradas nos festivais, como eram os festivais de curtas. Aí eu também comecei a assistir a muitos curtas metragens, porque essa porta tinha sido aberta para mim. E Ed Andrade é amigo meu, Ed fazia cinema na FAAP, o filme, Nervos de aço, foi um trabalho de conclusão de curso dele e também delicioso de fazer, também teve uma carreira legal no Mix Brasil.
 
MCB: Com o curta  O lençol branco você inicia parceria importante com a dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, atuando também no longa Trabalhar Cansa. Como é trabalhar com esses cineastas, que são alguns dos mais talentosos do cinema atual? -  com Marco Dutra, atua ainda em Todos os mortos, direção com Caetano Gotardo. 
 
CK: Eu conheci Marco Dutra, Juliana Rojas, Caetano Gotardo, Daniel Torine, Pedro Granato, toda uma galera que é meio da minha mesma geração, todos eles estudavam cinema enquanto eu estava na USP estudando artes cênicas. Eu me lembro que fiz uma peça do Caio Fernando Abreu chamada “Três por Quatro, Dezoito por Vinte e Quatro”, também dentro da Universidade, e depois tivemos a oportunidade de ficar em cartaz no Centro Cultural São Paulo. Marco e Ju foram assistir a essa peça, a personagem tinha alguma coisa ali da personagem do O lençol Branco, e depois da peça eles me convidaram para fazer esse curta. Eu confesso que depois que eu li esse roteiro eu fiquei muito impressionada, a minha cara caiu, eu achei, de cara, o roteiro muito interessante. Eu fiquei muito feliz com o convite, doida pra fazer. E foi um experiência, começando muito pequeno, com pouca pretensão, era um trabalho de conclusão de curso do Marco e da Ju em cinema, e a gente fez em um esquema guerrilha. Eu me lembro que o filme foi feito em 16 milímetros, eles pegavam nas produtoras de publicidade em São Paulo restos de filmes de 16 milímetros. Minto, na verdade era 35 milímetros, pegavam finais de rolos que tinham sobrado, juntavam e com isso fizemos o curta. O curta era quase todo feito em takes únicos porque não tínhamos muita película para gastar, eu me lembro que tivemos um problema com o áudio do filme, ele foi todinho dublado. Então imagina a experiência de estar trabalhando em 35 milímetros, estar fazendo um primeiro curta em 35 milímetros, de uma maneira super na guerrilha. 

Anos depois a gente conseguiu se inscrever no Cine Fundacion, no Festival de Cannes, que é uma mostra de novos cineastas, cineastas saindo das universidades, e são 15 filmes curtas do mundo inteiro. Todos os cineastas que participam dessa Cine Fundacion, dessa mostra, têm como garantia, acho que agora não tem mais isso, mas eles tinham como garantia a apresentação do primeiro longa deles depois dentro do Festival de Cannes. Daí foi quando então eles fizeram Trabalhar Cansa, e a gente foi selecionado para a  mostra Un Certain Regard. Realmente, foi o começo de uma parceria profissional e foi um começo, também, de uma amizade que se estende até hoje, Marco Dutra é um dos meus melhores amigos e um profissional que eu admiro horrores . Depois a gente veio também a fazer o Todos os Mortos, junto com o Caetano Gotardo. Eles têm a Filmes do Caixote, que é um coletivo de ex-alunos da USP, todos são amigos, todos estudavam na USP e de lá saíram para trabalhar juntos, hora escrevendo o roteiro, hora editando, hora outro dirigindo, existe essa troca assim. Eu digo que faço parte do elenco da Filmes do Caixote, que a gente, bem ou mal, estamos sempre juntos ali, um ajudando no trabalho do outro.  
 
MCB: Trabalhar no cinema de gênero, que flerta com os elementos do horror ou é horror de fato, tem sido também uma presença marcante na sua carreira, como nos filmes citados ou no curta Estátua!, da Gabriela Amaral. Você poderia comentar a respeito? 
 
CK: Eu acho que a questão dos filmes de gênero no Brasil tem muito a ver com o incentivo que foi dado ao cinema. A partir do momento em que você tem mais incentivos, mais profissionais trabalhando, mais editais para impulsionar, isso abre esse precedente paras as pessoas fazerem projetos pessoais, projetos autorais.. Você começa a ter espaço para tudo que é tipo de narrativa, para todo tipo de filme, e isso coincide muito com o gosto dos cineastas com quem eu acabei trabalhando. O Marco sempre teve essa, não sei se predileção, mas essa vontade de fazer esse cinema que flerta com o terror, que flerta com o suspense. E outros filmes também, como o da Gabriela, que também é da USP e que também sai de lá. Então eu acho que o cinema de gênero no Brasil está muito ligado a um cinema autoral, a oportunidades que foram abertas de você poder fazer o filme, a história que você quer.  
 
MCB: Super Nada, de outra dupla, Rubens Rewald e Rossana Foglia, é outro trabalho marcante. Você pode falar sobre ele. 
 
CK:  Eu conheci o Rubens Rewald e a Rossana Foglia quando eu estava saindo do Macunaíma. Eu tinha 17 anos, e fiz o meu primeiro espetáculo profissional de teatro com ele, era uma peça dele. Olha só, eu tinha 17 anos na época e jamais imaginava que, anos depois, eu fosse fazer cinema com o Rubens. Eu tenho até hoje guardado um cheque de cem, sei lá, na época devia ser cruzados novos, como  se fossem cem reais, que foi o meu primeiro salário de teatro que veio do Rubens. E quando ele me convidou pra fazer o Super Nada, eu, nossa, eu fiquei super lisonjeada, eu nunca imaginei que fosse trabalhar com ele no cinema. Eram pessoas que eu tinha muita confiança, pessoas que tinham me dado a minha primeira oportunidade no teatro, chamava “Narrador” a peça que a gente fazia, era direção do Adriano Cipriano e  texto do Rubens Rewald, a Rossana fazia a direção de arte, cenário e figurino. Putz, foi uma experiência incrível. Eu trabalhei com o Marat (Descartes), que era meu colega também de USP, já um grande ator, com quem eu aprendi um monte fazendo. E com o Jair Rodrigues, que era uma figura, contaminava todo mundo no set com uma energia incrível e generoso pra burro, lá inseguro fazendo cinema, porque ele era cantor e dizia que não fazia cinema, mas, imagina, um ator nato, um artista maravilhoso. 

Foi uma experiência incrível, foi a primeira personagem grande que eu fiz no cinema, eu tive mais diárias, eu tive mais oportunidades de me experimentar fazendo cinema, em um ambiente muito acolhedor, muito amoroso, de pessoas que, de alguma maneira, estavam apostando comigo na minha carreira, e eu sou muito grata por isso. O filme fez uma carreira super bacana, fomos premiados no Festival de Gramado, o Marat como Melhor Ator. É legal porque é um filme que fala muito da carreira de ator, então reverberou de várias maneiras, não só como começar essa grande experiência no cinema, mas também como uma análise da nossa carreira, um olhar sobre a carreira de outros atores, de como pode acontecer. Foi um filme que eu tenho muito orgulho de ter participado e a minha memória dele é só de muito acolhimento no set. Também foi uma experiência esse filme, porque nós ensaiamos muito para fazer, com a Paoli Quito fazendo a preparação e que tinha sido minha professora na EAD. É é uma oportunidade rara no cinema, a gente ter esse tempo de ir para uma sala de ensaio e experimentar esse personagem, o corpo desse personagem, então foi uma experiência bem completa.  
 
MCB: Você já tem também uma trajetória em séries, como "9mm", "3%", "171", "O hipnotizador". Gostaria que comentasse sobre essa experiência nesse novo campo que se abriu com as séries produzidas por canais e plataformas. 
 
CK: Quando eu me formei na faculdade, nos anos 2000/2001, as oportunidades que eu tinha de trabalho eram no teatro, que era o que eu achava que iria fazer, e acho que eu vou fazer, quero fazer pelo resto da minha vida. Eu morava em São Paulo, então a gente tinha publicidade, que era um mercado grande aqui, vídeos internos de empresa, enfim, trabalhos que eu fazia para conseguir pagar os meus boletos e só isso. E fazer novela na Globo, mas aí era no Rio de Janeiro, era outro lugar, era um outro meio, então eu também nunca foi para mim uma opção me mudar para o Rio de Janeiro para trabalhar lá. Então, naturalmente, o mercado foi me assimilando aqui, eu fui conseguindo fazer um pouco de publicidade,  e ia fazendo teatro. Mais ou menos com dez anos de carreira veio Ancine, vieram as TVs a cabo, vieram as leis de incentivo, o Artigo 3ºA, e aí acabou abrindo esse campo de séries aqui no Brasil. Através de um teste com uma produtora de elenco, Kassia Guind, que me conhecia do teatro, fiz um teste para o "9mm". Peguei essa personagem,  que era uma protagonista feminina, uma policial e divertidíssima de fazer. Nesse trabalho com a Moonshot Pictures, que era produtora do Roberto d’Avila, que eu acabei conhecendo, e mais tarde eu vim a trabalhar com eles de novo na série "171", da Universal. 

Então foi natural assim, pessoas com quem a gente trabalha uma vez, depois acaba ficando amigos e acompanhando a nossa carreira, e trabalhando em outros projetos. Também tive a sorte de estar no "3%",  que foi a primeira série brasileira da Netflix, ainda engatinhando, a gente entendendo o que eram esses streamings, a Netflix, como que isso funcionaria. Uma super oportunidade, eu pelo menos nem imaginava como isso iria reverberar e como isso iria ser grande, a repercussão e a audiência disso, né, que aí já é do mundo inteiro. "9mm" já era uma série feita pela Fox Latina América, então também, de cara, abriu esse espaço latino-americano, não só num mercado brasileiro, então foi demais. É engraçado, porque as séries, a produção, a forma de fazer, é quase um híbrido entre o cinema e a televisão, a gente tem um cuidado maior, uma decupagem, um esquema de filmagem que parece muito com cinema, e, ao mesmo tempo, você tem uma certa agilidade um pouco parecida com a televisão. A gente já estava trabalhando com o digital, então isso possibilitava gravar mais vezes e poder ser um pouco mais rápida nessa forma de produção.  
 
MCB: Gostaria que comentasse sobre outros filmes, como Desterro, da Maria Clara Escobar, e Ferrugem, do Aly Muritiba. 
 
CK: O Desterro, da Maria Clara, infelizmente até hoje eu não tive a oportunidade de assistir, foi um convite que partiu dela para eu fazer essa personagem e foi rápido, infelizmente, foram, acho, duas ou três diárias que eu fiz. Eu estou acompanhando a carreira do filme, mas ainda não tive a oportunidade de assistir. O Ferrugem foi uma maravilha, também é assim uma parceria com a Aly Muritiba que eu tenho muito orgulho, uma pessoa que eu admiro muito. Eu tinha feito um seriado, "O hipnotizador", da HBO Latino-América, eu fiz um episódio, o primeiro da segunda temporada, que o Marco Dutra dirigiu. O Aly Muritiba dirigia outros episódios dessa mesma temporada, não cheguei a conhecê-lo, a gente filmou no Uruguai, mas quando eu estava lá ele não estava. O Aly assistiu ao material desse meu primeiro episódio, gostou do meu trabalho, e me fez esse convite pra fazer o Ferrugem. Foi outro roteiro que quando eu li a minha cara caiu assim, eu achei um roteiro muito bem escrito, pronto para ser filmado. Minhas ideias da personagem vieram totalmente ao encontro com a ideia do que o Aly queria, da maneira como ele tinha concebido essa personagem. Nós ficamos um ou dois meses no Sul, em  Curitiba, filmando. Nossa, eu amo de paixão esse filme, adoro o filme. 

Depois, a gente foi para Sundance, e eu acompanhei eles lá. Quando você tem essa oportunidade de ir para festivais internacionais e ver muitos filmes, conhecer novos cineastas, saber o que está sendo feito naquele ano no cinema, saber o que os artistas estão pensando, o que está surgindo ali nos roteiros, quais são as temáticas, é muito legal. Porque o cinema te proporciona isso, você aprende muito no set, você conhece muitos profissionais. Depois você tem ainda todo esse momento de lançamento do filme, os lugares por onde o filme vai passar, as críticas do filme, os outros filmes que estão ali conversando com ele. Então é um processo que parece que você não para nunca de aprender e de continuar desenvolvendo, mesmo em um filme pronto, muita coisa surge depois que o filme está pronto, muitos questionamentos,  muitas ideias, foi uma experiência incrível. 
 
MCB: A atriz brasileira que mais gosto é a Isabel Ribeiro, não à toa dá nome a sala das atrizes no Site Mulheres do Cinema Brasileiro. É impressionante a sua semelhança com ela, tanto de rosto, como de expressão e da forma como atua, notadamente em Todos os mortos e no novíssimo A mesma parte de um homem, de Ana Johann. Gosta e conhece o trabalho dela? Identifica essa semelhança que aponto? 
 
CK: Puxa, que interessante. Eu pra te ser bem sincera, sei quem é Isabel Ribeiro, mas não conheço muito o trabalho dela. Nunca ninguém me falou que eu pareço com ela, agora eu fiquei curiosa, vou atrás do trabalho dela pra vê-la. Que honra, muito obrigada por essa comparação.  
 
MCB: Gostaria que comentasse sobre o seu trabalho nesses dois filmes, e que me impressionaram muito. Acho ambas interpretações merecidas de premiação de Melhor Atriz. 
 
CK: Bom, em primeiro lugar, obrigada pela elogio. Eu estou no auge do trabalho com esses filmes, com a apresentação desses filmes, que vieram a calhar com essa pandemia, com essa impossibilidade de a gente poder estrear esses filmes como a gente gostaria aqui no Brasil, mas, ao mesmo tempo, sambando e tentando fazer o nosso melhor, dentro das possibilidades nessa realidade atual do mundo. Eu posso dizer que são dois trabalhos aos quais eu me dediquei bastante. O Todos os mortos, vamos falar dele primeiro, é um projeto que eu estou desde o começo, acho que foi no meu aniversário de, sei lá, quase dez, nove, oito anos atrás. No meu aniversário, o Marco me deu de presente esse convite para fazer o Todos os mortos. Á época, não chamava assim, não tinha nome ainda, quer dizer, tinha nome, chamava-se “A Noite do Vinho". Era uma frase o filme, era um argumento único em uma frase, e o Marco, em meu aniversário, me disse “A gente vai fazer esse projeto juntos”. Eu até iria fazer outra personagem, os anos passaram, eles foram desenvolvendo esse roteiro, e acabamos mudando de personagem, eu acabei fazendo a Maria.  Como eu disse, o Marco é um dos meus melhores amigos, Caetano, são pessoas que a gente já conhece há 20 anos, então tem esse envolvimento muito pessoal, muito emocional com isso. Eu participei de todas as etapas, de desenvolvimento desse roteiro, não dando pitaco, mas sabendo do que estava acontecendo, confiando muito no talento desses meninos. Eu me dediquei muito para fazer esse filme, eu acho a Maria uma personagem bastante difícil de fazer, ela tem cenas que são muito perigosas, ali eu tinha que encontrar o lugar correto para dizer aquele texto e fazer aquela personagem de uma forma que não fosse patética, que ela não fosse mentirosa, de que ela não fosse também uma vilã, digamos assim. Mas, nossa, acho que foi uma das experiências em que eu mais cresci fazendo, profissionais que eu trabalhei e que admirava muito e que foi uma honra pra mim estar junto.

A mesma parte de um homem também foi um convite que veio enquanto eu filmava o Ferrugem, é da mesma produtora, da Grafo, que é a mesma produtora do Ferrugem, do Aly Muritiba. Enquanto eu estava acabando de filmar, me acenaram com esse convite para fazer A mesma parte de um homem. Um outro roteiro que bateu muito forte em mim, reverberou bastante. Eu de cara entendi a história que a gente tinha que contar e porque a gente tinha que contar essa história, então isso ajuda muito, esse envolvimento total, essa identificação total com o que está sendo falando e com o momento em que está sendo falado. Eu tive que me jogar de cabeça, era uma protagonista com uma realidade muito distante da minha, não que as outras não fossem também, mas essa requeria de mim um trabalho corporal muito grande, um mergulho muito grande também. Fiquei dois meses fora de casa, em Curitiba, viajando uma hora e meia todos os dias até o set, para essa casa que era  realmente isolada mesmo.

Com o Todos os mortos, tivemos essa oportunidade de apresentá-lo, de ir para a competitiva do Festival de Berlim. Quando a gente faz um filme  a gente jamais projeta, imagina o que vai acontecer, então é sempre uma grata surpresa, serve como um puta incentivo pra gente quando isso acontece, de que a gente está fazendo filmes que são competitivos com filmes internacionais também, e que, de alguma maneira, essa nossa realidade retratada reverbera de alguma maneira com pessoas de outros países, outras histórias. Mas aí teve esse  momento de pandemia, a gente não teve a oportunidade de estrear ele no Brasil da maneira que a gente queria, mesmo com tudo pronto. O filme chegou a entrar nos cinemas no final de 2020, mas sempre com essa preocupação de não poder estimular, divulgar e querer que as pessoas vão ao cinema porque as recomendações médicas eram que a gente ficasse isolado. Mas, enfim, ele acabou passando no cinema por uma questão contratual que ele tinha que fazer para depois poder seguir uma carreira de streaming e plataformas digitais. A mesma coisa está acontecendo com A mesma parte de um homem, que acabou de estrear na Mostra de Cinema de Tiradentes,  então a coisa está bem quente, a gente está ainda recebendo e lendo as críticas, os comentários sobre o filme, e muito felizes também com a maneira que ele foi recebido e com a maneira com que as pessoas também conseguem entender o filme. Porque é isso, né, quando a gente consegue fazer o filme pode parecer básico, mas é difícil, não é fácil contar história, qual é a história que eu estou contando nesse filme. Quando o filme estreia e você começa a receber o feedback, você começa a ter a noção do quão você conseguiu contar e com qual profundidade você consegue acessar as pessoas com as histórias desses filmes.  
 
MCB: Como é está protagonizando esse filme tão marcante como A mesma parte de um homem?  
 
CK:  Protagonizar um filme é uma oportunidade que a gente tem de poder colocar mais ainda a nossa visão como artista dentro de uma obra. Às vezes, quando você tem uma personagem mais coadjuvante, você está muito a serviço daquela história que você está contando, então você tem que ser muito pontual na sua entrada e saber que a sua participação  faz parte de todo um organismo gigante, de toda uma história grande que você está querendo contar. Quando você protagoniza um filme, você tem mais liberdade, uma independência maior para colocar ali a sua visão também como artista da história do filme, da personagem. E isso também acontece quando você trabalha com diretores generosos, diretores que não têm medo de abrir o trabalho para outros profissionais complementarem aquilo que ele ofereceu. E a Ana Johann foi muito essa diretora, ela foi o tempo toda generosa, o roteiro é dela, a direção é dela, mas sempre muito aberta a escutar tudo que os outros profissionais, de todas as outras áreas ali, tinham para acrescentar ao filme. Foi um set muito especial, foi um set majoritariamente feminino, o que eu acho que isso é determinante para o filme que a gente tem. A gente precisava dessa visão feminina em toda as áreas, na arte, na fotografia, na interpretação, na direção, na assistência de direção, e assim foi. 

Então foi um projeto que teve muita troca, muita cumplicidade de todas nós, uma vontade muito grande da gente agarrar essa oportunidade, da gente dar essa nossa visão feminina, totalmente feminina para essa personagem, para esse filme, de uma maneira bem contundente assim, foi uma experiência incrível. Foi uma aposta que eu fiz, eu me dizia, eu não posso fazer esse filme pela metade, eu não posso me acovardar na hora de adentrar nesse universo e apostar nessa personagem. Então a gente também teve essa oportunidade de ir para uma sala de ensaio, nós ficamos mais de um mês ensaiando, conversando, discutindo as cenas, trabalhando o corpo dessa personagem , o mood dela lá, a relação dela com a filha, a relação dela com o estranho, com o Irandhir (Santos). A gente faz tudo isso na sala de ensaio para chegar no set o mais embasada possível, porque na hora que você chega no set, o tempo que você tem, as limitações que você tem de espaço e de movimentação, isso tudo poderia dificultar o trabalho se você não está muito com ele, muito presente para mim, muito presente no meu corpo, muito já vivida. Então quando eu cheguei para filmar a A mesma parte de um homem, essa personagem já estava impregnada no meu corpo, já estava impregnada na minha mente, os subtextos, tudo que a gente já queria, então fica muito fácil. E como o filme estava bem impregnado na diretora , na diretora de fotografia, na arte, em todo mundo, então a gente chega no set para botar a mão na massa de ingredientes que já foram muito preparados em potinhos e ali faltava só a gente fazer a mistura, se é que a gente pode fazer essa analogia com cozinha. Eu sou muito feliz também com o resultado do filme, com o filme pronto, vejo ali todo esse trabalho impresso na tela.  
 
MCB: Sua estreia em novelas, "Amor de Mãe", tornou-se um destaque. Atuar em novela tem sido bom e importante para a sua trajetória? 
 
CK: A novela “Amor de Mãe” é o meu primeiro trabalho na Globo, um teste também que eu fiz, com a sorte de ter esse trabalho, esse primeiro trabalho com o José Luiz Villamarim, a Manuela Dias, com esses profissionais fenomenais, uma grande experiência também. Eu costumo dizer que eu trabalhei em grandes sets aqui em São Paulo, grandes produtoras, mas eu nunca tinha trabalhado em uma empresa de audiovisual de sucesso, de 50 anos assim, então para mim foi tudo muito surpreendente, apesar de toda a minha experiência. E muito legal também,  né, de toda essa experiência de quase 25 anos de carreira eu ir para essa empresa de audiovisual com tantos anos de experiência, e ainda assim me surpreender com um novo modo de produção, com o tamanho daquela produção, com o tamanho da logística, com a experiência daqueles profissionais que é de cair o queixo. São profissionais que trabalham com isso há muitos anos, trabalham muito, extremamente experientes, até porque é uma produção gigantesca, com uma logística gigantesca, então e muito prazeroso. Eu tinha como parceiras de trabalho, ao meu lado, que são as personagens irmãs da minha personagem, a Thais Araújo e a Débora Lamm, atrizes que eu admiro muito, já admirava e admiro mais agora, e que se tornaram minhas grandes amigas. 

E caramba, poder ver onde pode chegar a produção audiovisual em termos de tamanho e de alcance é muito curioso assim para mim, abriu muito a minha cabeça, abriu muito, foi assim uma experiência que eu costumo dizer que foi nota mil, que não tem nada a ponderar, um super tratamento. Essa velocidade absurda que se gravam as cenas e a quantidade de cenas que você grava no dia é um exercício muito bacana para nós atores, eu fico imaginando como é para um ator com pouca experiência trabalhar nesse ritmo, deve ser muito difícil, deve ser infernal. Mas para mim, que já tinha bastante experiência de set, de tudo isso, era quase que uma gincana, eu levava um pouco para esse lado assim, você tem que ter um desprendimento grande de fazer rápido, mas isso acaba virando justamente um barato, né? Rápido, porém com muito cuidado, muito pensado, tudo muito bem feito, muitos profissionais, cada um ali na sua área fazendo o seu trabalho 100%, é um lugar de muito trabalho em equipe, você tem que contar muito com a equipe afiada, todos rápidos, todos ligeiros e todos muito bons, todos muito experientes. Mais do que tudo, o que eu costumo guardar dos trabalhos que eu faço são as pessoas com quem eu trabalho, as pessoas com quem eu cruzo, e nesse trabalho eu cruzei com muita gente bacana, com muita gente que virou meu amigo. Eu tive muito apoio de todo mundo lá, dos outros diretores, do Felipe Barbosa, da Noa (Bressane), do Waltinho Carvalho, quer dizer, olha as pessoas que eu estou falando, né? É uma oportunidade incrível de poder cruzar com esses profissionais, ver eles trabalhando e poder, enfim, contar histórias junto com eles. 
 
MCB: Está envolvida em mais algum filme ou série? 
 
CK: Bom, agora no auge de fevereiro de 2021, a gente ainda está vivendo essa realidade da pandemia, ainda estou bastante isolada em casa, trabalhando o lançamento desses filmes, o Todos os mortos e o A mesma parte de um homem.  Eu tenho outros projetos sim de cinema, de série não, mas que estão ali também meio que aguardando a possibilidade de se poder fazer dentro desses protocolos. É muito difícil agora, os protocolos são bem rígidos, devem ser e são. E é complicado trabalhar com criança agora, então os projetos eles estão aí, eles estão vivos, mas estão em modo de aguardo, nós estamos aguardando para ver essa segunda onda devastadora que está vindo. É complicado, é uma época em que a perspectiva de futuro está difícil de enxergar e, infelizmente, com esse momento político que a gente vive, em que quase todos os projetos culturais foram parados, todos os incentivos para desenvolvimentos de roteiro, incentivos para desenvolvimentos das séries, para se filmar, está tudo parado. Porque a gente não tem nenhuma política sendo feita para isso, o que eu acho que vai dar um gap grande pra gente aí de uns 4 anos, de uma baixa bem grande na nossa produção cultural no Brasil. Eu lamento muito e estou de manga arregaçada para trabalhar e fazer a coisa acontecer, mesmo com a total falta de incentivo e descrédito político com a cultura.  
 
MCB: Para terminar, as duas únicas perguntas fixas do site. Qual o último filme brasileiro a que assistiu, e qual mulher do cinema brasileiro, de qualquer época e de qualquer área, você  quer deixar registrada na sua entrevista com uma homenagem e o porquê. 
 
CK: São muitas as mulheres que me inspiram no meu trabalho, muitas. Sempre busquei inspiração em profissionais mulheres que conseguem trabalhar e ter uma carreira com interpretação, nacionais, internacionais, conhecidas e não conhecidas. Eu vou aproveitar aqui então e deixar a minha homenagem para a Helena Ignez, que dá  nome ao prêmio que a  Ana Johann ganhou com A mesma parte de um homem, na Mostra de Cinema de Tiradentes. Pela carreira maravilhosa da Helena, pela força dela, por ela ser uma guia que, de alguma forma e maneira, desbravou uma trilha aí que hoje em dia a gente tenta seguir, essa trilha da mulher no cinema, que arregaça as mangas, faz o seu próprio trabalho, e que tem um discurso que condiz com a vida que leva. É isso, minha homenagem é para a maravilhosa Helena Ignez.  


Entrevista realizada por email entre 29 de janeiro a 8 de fevereiro de 2021, durante a 24a Mostra de Cinema de Tiradentes.
Crédito da foto: Rafael Primot

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