Ano 20

Ariane Lemos

A jornalista e assessora de imprensa Ariane Lemos nasceu em Curvelo (MG), em 24 de dezembro de 1981. Graduada em Jornalismo pelo UNIBH, fez especialização em Gestão Estratégica da Informação na UFMG, e mestrado na Escola de Ciência da Informação, também pela UFMG. Já no tempo da faculdade, trabalha com cinema e depois migra para a assessoria: “Na TV a gente tinha um programa chamado Curta Agora, que era um programa de cinema. Eu fiz a produção e cheguei a apresentar durante um período, e aí uma colega que trabalha no Curta Agora, na verdade, uma grande amiga, Camila Cantagalli, me disse que na assessoria que era contratada para a mostra estava precisando de um estagiário e me deu o contato para eu tentar. Eu fiz o contato algumas vezes, até cheguei a ser um pouco insistente, o Sérgio (Stockler) me fala isso, que gostou do meu perfil pela insistência”. E completa: “Ele me contratou como estagiária para vir para Tiradentes, eu vim em janeiro de 2004, na 7ª Mostra. Desde então eu continuei trabalhando com ele, na função, então, de jornalista, porque eu me formei e em 2005 eu já vim como jornalista formada integrando a equipe. Agora estamos em 2013, na 16ª edição, eu venho trabalhando nas Mostras da Universo desde então, mesmo não tendo mais um vínculo profissional com esse escritório, com o Sinal de Fumaça”.

A relação de Ariane Lemos com o cinema é grande, além das mostras da Universo em Tiradentes, Ouro Preto e Belo Horizonte, já trabalhou também com os projetos Cinema no Rio e Cinema nos Trilhos, todos eles com espaço generoso para o cinema brasileiro: “Na verdade, nunca imaginei o cinema como sendo um carro-chefe dos meus trabalhos e, como consequência, da minha atividade profissional principal. Na verdade foram situações que foram correndo, eu fui gostando do trabalho, as pessoas com as quais eu trabalhei foram me recebendo bem, foram me dando oportunidade para eu desempenhar a minha função. Outras com que eu também trabalhei, eu consegui passar minha experiência para elas. Então, na minha opinião, foi tudo muito natural”. 

Com tantos projetos na área de cinema, Ariane Lemos acabou se tornando referência em assessoria de imprensa para cinema em Minas Gerais: “Um jornalista uma vez me falou assim ‘Ariane, eu fui convidado para um evento de cinema em Belo Horizonte, mas como cinema para mim em Minas é você, eu estou te ligando para saber se você está envolvida, se você sabe o que é, se você pode me dar mais informações, porque só vou topar se você me disser’. Eu não estava trabalhando no evento, mas eu disse ‘pode topar porque a empresa é séria, eu não estou nesse trabalho mas eu conheço, pode vir com segurança’. Eu achei isso uma graça, a pessoa me ligar para perguntar se eu estou envolvida, ‘porque pensou em cinema em Minas, pensou em Ariane’. Achei isso muito interessante”.

Ariane Lemos conversou com o site Mulheres do Cinema Brasileiro durante a 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro de 2013. Ela fala sobre sua formação, a trajetória na televisão e na assessoria de imprensa, os meandros da prática da assessoria, as mostras da Universo Produção, os outros projetos de cinema, e outros assuntos.



Mulheres do Cinema Brasileiro: Bom, para começar, origem, data de nascimento e formação.

Ariane Lemos: Meu nome é Ariane Barbosa Lemos, sou natural de Curvelo (MG), nasci no dia 24 de dezembro de 1981, sou de uma família pequena com dois irmãos.

MCB: E sua formação?

AL: Sou formada em Jornalismo pelo UNIBH, me formei em 2004, fiz especialização em Gestão Estratégica da Informação na UFMG, em 2009, e concluí o mestrado na Escola de Ciência da Informação, também pelo UFMG, em 2012.

MCB: Você graduou-se em Jornalismo, quando você fez essa opção, qual o seu interesse? Você queria trabalhar em redação? O que te fez procurar o Jornalismo? 

AL: Olha, naquele momento o Jornalismo foi mais pela área de comunicação, pela questão de eu gostar muito de escrever. Mas durante o curso, a minha intenção era de trabalhar na área de TV, com produção, eu fiz um estágio durante muito tempo na TV Universitária, passei pela produção de vários programas, também pela edição e produção de texto, eu gostei muito da experiência. 

MCB: Quando?

AL: Foi no período de 2001 até o final de 2003, quase três anos eu fiquei lá. Foi muito interessante a minha experiência e eu pensei que, depois da minha formação, eu iria trabalhar em TV, mas até o momento, agora em 2013, não aconteceu. Porque aí eu fui percorrendo outros caminhos na área da comunicação.

MCB: Agora é muito curioso, porque você já tinha esse interesse de trabalhar na televisão, com televisão no Jornalismo, ou seja, com o audiovisual, e não à toa, mesmo que inesperadamente, acabou fazendo do audiovisual seu principal trabalho. 

AL: Exatamente. 

MCB: Você teve essa trajetória na TV, daí como foi migrar para a assessoria de imprensa? 

AL: Foi muito interessante isso, porque na TV a gente tinha um programa chamado Curta Agora, que era um programa de cinema. Eu fiz a produção e cheguei a apresentar durante um período, e aí uma colega que trabalha no Curta Agora, na verdade, uma grande amiga, Camila Cantagalli, me disse que na assessoria que era contratada para a mostra estava precisando de um estagiário e me deu o contato para eu tentar. Eu fiz o contato algumas vezes, até cheguei a ser um pouco insistente, o Sérgio (Stockler) me fala isso, que gostou do meu perfil pela insistência. Ele me contratou como estagiária para vir para Tiradentes, eu vim em janeiro de 2004, na 7ª Mostra. Desde então eu continuei trabalhando com ele, na função, então, de jornalista, porque eu me formei e em 2005 eu já vim como jornalista formada, integrando a equipe.  Agora estamos em 2013, na 16ª edição, eu venho trabalhando nas mostras da Universo desde então, mesmo não tendo mais um vínculo profissional com esse escritório, com o Sinal de Fumaça.

MCB: Bem interessante porque o cinema, dentro do audiovisual, já permeava essa trajetória na TV.

AL: Exatamente, a minha experiência no curso de comunicação indo para trabalhar na TV, nesse programa, eu trabalhei em vários, mas mais próximo à formação, que é quando a gente tem um amadurecimento profissional um pouco maior, eu já estava nesse programa. E através desse programa, eu consegui uma colocação como assessora de um evento de cinema, porque se eu não tivesse tido a experiência no Curta Agora, ele não teria me chamado, o que motivou a contratação foi eu ter experiência no Curta Agora, porque eu já conhecia alguns diretores, eu já tinha uma certa familiaridade com o tema do cinema. Ele achou interessante o meu perfil para me contratar e eu tive a oportunidade de demonstrar o meu trabalho, desde então eu me tornei fixa na equipe do Sérgio Stockler, no Sinal de Fumaça, e como funcionária no Sinal de Fumaça eu vinha todos os anos trabalhar no evento.

MCB: Antes de entrarmos nas mostras especificamente, no Sinal de Fumaça você chegou a trabalhar em outros projetos com cinema? 

AL: Trabalhei.

MCB: Eu gostaria que você resgatasse um pouco essa trajetória, falasse um pouco sobre esses trabalhos.

AL: No Sinal de Fumaça os dois principais projetos de cinema em que eu trabalhei foram o Festival de Curtas de Belo Horizonte, que é um evento muito interessante também, com uma trajetória muito grande de tempo de realização, de conteúdo, então eu trabalhei no festival como assessora em duas edições, como funcionária do Sinal de Fumaça. Também trabalhei no Cinema no Rio, que é um projeto itinerante pelo Rio São Francisco realizado pela CineAR, que é uma produtora de Belo Horizonte. O Cinema no Rio é muito interessante, mas absolutamente diferente de uma mostra de festival pelo caráter da itinerância, por ir em cidades do interior. Neste caso, cidades que estão margeadas pelo Rio São Francisco, e levando sempre o cinema nacional. Então eu tive essa experiência muito grande, trabalhei em três edições nesse projeto e foi bem interessante, porque a gente viajou, conheceu muitas cidades, a cultura local, a relação com o rio, a experiência com o cinema, a primeira sessão. Todas as sessões são ao ar livre e a relação das pessoas ali, naquele momento, é muito interessante. Essa mesma empresa tem um projeto similar, que é o Cinema nos Trilhos, do qual eu participei em duas edições. Aí já é um pouco diferente, são cidades do interior, mas sempre margeadas por linhas férreas, ai já é um projeto realizado por uma empresa mantenedora dessas linhas férreas pelo Brasil. Nós fomos em cidades do interior do Pará, interior do Maranhão, interior de Goiás, Bahia e Minas Gerais.

MCB: São todos grandes projetos. Você chegou também a trabalhar em lançamentos de filmes?

AL: Não.

MCB: Então sempre em grandes projetos.

AL: Sempre projetos de cinema, mas não em projeto de lançamento de filme.

MCB: Isso não te intimidou de alguma forma, ou te assustou de alguma forma, já que são todos eles grandes projetos, diferente de você fazer assessoria de um lançamento. E aqui a gente está falando de mostras, de festivais, projetos. Você teve algum desconforto ou foi natural essa trajetória?

AL: Eu não tive desconforto, no sentido em que as equipes com quem trabalhei, as pessoas com as quais trabalhei me deram muita segurança e foram me dando oportunidades de demonstrar como era meu trabalho. Eu trabalhei com pessoas muito legais, como a Roberta Canuto, a Cacá Maia, que são de Minas, a Roberta hoje está no Rio, o Sérgio Stockler, que é uma pessoa que já conhecia da área, o Leonardo Mechi, a Ana D’Ângelo, então são pessoas com as quais trabalhei e que me deram, como eu vou dizer, confiança para desenvolver um trabalho. Porque realmente trabalhamos como uma equipe, então eu não chefiei, eu não cheguei a chefiar, não cheguei a ser a responsável, sempre dividindo a responsabilidade com outras pessoas da equipe e dentro da minha área, na qual sou responsável e tento desempenhar bem o meu trabalho.

MCB: Lá na TV, ainda que o foco fosse cinema, você tinha noção do tamanho que o cinema ia ocupar na sua vida?

AL: Não, não tinha, na verdade nunca imaginei o cinema como sendo um carro-chefe dos meus trabalhos e, como consequência, da minha atividade profissional principal. Na verdade foram situações que foram correndo, eu fui gostando do trabalho, as pessoas com as quais eu trabalhei foram me recebendo bem, foram me dando oportunidade para eu desempenhar a minha função. Outras que eu também trabalhei, eu consegui passar minha experiência para elas. Então, na minha opinião, foi tudo muito natural. Eu tenho que ser honesta, pensar no cinema como sendo algo que eu sempre gostei para a minha vida, não foi um ponto inicial, foi um ponto que as oportunidades de trabalho foram aparecendo e eu consegui desempenhar bem no trabalho, a ponto de as pessoas me convidarem para realizar essas atividades.

MCB: Outro ponto também específico é que nesses projetos todos, claro que na mostra de uma amplitude muito maior, seu trabalho sempre esteve muito ligado ao cinema brasileiro.

AL: Muito, as oportunidades que eu tive de eventos na área de cinema foram todas de eventos de cinema nacional. Outros eventos da Universo, que agora surgem, têm na programação também exibição de filmes internacionais, mas o foco principal sempre foi o cinema nacional. Então eu realmente vi diretores que vieram participar de oficinas, depois trouxeram curtas e hoje estão com longas, como vi também vários diretores de curta apresentando seus longas. Essa oportunidade de acompanhar essa trajetória é bastante significativa.

MCB: Você tem essa dimensão de que você é uma das principais assessoras de imprensa de cinema brasileiro? 

AL: Não.

MCB: Por quê? 

AL: Ah, Adilson, eu, sinceramente, sou uma pessoa bastante humilde assim no que eu penso, eu acho que sou uma boa profissional e, por um acaso, eu sou uma boa profissional que desempenha esse trabalho na área do cinema. Mas foram as oportunidades que surgiram, então não consigo pensar assim, que eu sou uma das principais. Porque eu sei que, principalmente, nos grandes centros como Rio e São Paulo existem grandes empresas e grandes profissionais que desempenham essas atividades. Talvez em Minas eu, de certa forma, me destaco por estar aí atrelada a uma equipe de grandes festivais, mas não sei se tenho amplitude, eu sei que sou uma boa profissional, sou uma pessoa que tem disciplina, que busco executar bem as minhas atividades, busco oferecer um bom atendimento, mas para mim eu acho que é por aí só.

MCB: É modéstia, não é?

AL: Não sei, eu acho que é isso assim.

MCB: Você citou aí que, como já é um trabalho continuado, de um bom tempo, você você viu cineasta lançando curta, agora longa. Então, de certa forma, você já acompanha o cinema brasileiro, talvez nem tanto como espectadora. Mas como profissional da indústria, do mercado. e também da manifestação artística de um bom período.

AL: Acredito que sim, acredito que eu tenha tido essa oportunidade, porque a gente vê filme sendo apresentado em festival, e depois vê que esse filme entrou em cartaz. E aí eu digo “eu vi no festival, achei ótimo, indico para vocês assistirem”. Acontece muito de a gente ter essa oportunidade de ver o filme aqui e indicar, mas sempre porque eu tive a oportunidade de trabalhar no festival. Então, de certa forma, eu tenho essa noção de participar da indústria, nesse sentido, né, considerando festival como plataforma de exibição, como uma janela para que os produtores e diretores possam apresentar o seus trabalhos. Considerando o festival nessa cadeia produtiva como uma importante janela, e eu trabalhando nos festivais, me considero sim, então, uma integrante dessa cadeia. 

MCB: E é espectadora? 

AL: Também, eu sou espectadora do cinema nacional. Eu tenho que ser bastante honesta, que o cinema experimental, muito autoral, talvez me cause um certo estranhamento, no sentido de compreensão mesmo daquela obra audiovisual. Mas eu gosto muito de acompanhar o cinema nacional e fico muito feliz quando escuto algum colega, alguma pessoa falando assim “vamos ver esse filme, é um filme brasileiro”. E fico muito triste pelo contrário, quando escuto “ah, mas é filme brasileiro”. Eu fico feliz por poder recomendar, ter essa oportunidade privilegiada de assistir, muitas vezes, em primeira mão no festival e aí fazer um boca a boca com os colegas. Eu sou uma espectadora do cinema brasileiro e gosto muito de muitos diretores e de muitos trabalhos que eu vejo.

MCB: Como foi chegar à Mostra de Cinema de Tiradentes, que já estava na estrada durante algum tempo? Na CineOP e na CineBH você começou desde o início, mas como chegar à de Tiradentes? Foi difícil?

AL: Bom, eu tenho certeza que eu comecei como uma profissional bastante incipiente, no sentido de conhecimento mesmo, de procedimentos de trabalhos de assessoria de imprensa, e, sobretudo, do cinema. Além de eu ter que me adaptar ao trabalho de assessora, porque até então eu trabalhava com produção, com TV, eu tive que me adaptar a ser assessora de cinema, que era algo diferente para mim. Eu percebo, olhando esse tempo de atuação, que eu realmente tive um amadurecimento grande profissional e um amadurecimento do olhar enquanto espectadora, compreendendo mais a obra do diretor, tentando fazer analogias com outros filmes que eu já vi, tentando captar interferências de outros diretores, se ele usa muita linguagem de fulano. Então eu fico muito feliz quando consigo fazer essa identificação e vejo isso radificado em um comentário de um crítico, em comentários das pessoas que estão cobrindo o evento há mais tempo e conhecem, então meu raciocínio foi pro lado certo. Eu percebo uma evolução grande nesse sentido, porque de fato eu encontrei muita dificuldade no início, justamente pelo desconhecimento das funções de assessoria e sobre tudo de um festival de cinema. Foi diferente para mim, mas eu, ao longo de cada ano, fui tentando me adaptar e tentando aprimorar o trabalho para executar um bom atendimento, uma boa redação de texto, enfim, tentar levar o festival através dos procedimentos de assessoria a conseguir um espaço na mídia.

MCB: Ainda que a gente saiba que o jornalismo é um só, pelo menos a gente aprende na escola que é assim, quando vamos fazer assessoria nós vemos as diferenças, se você trabalha com assessoria de música, de teatro, de cinema. No seu caso específico é de cinema, é um meio fácil? A relação com os profissionais que permeiam esse universo é tranquila, ou não, com os realizadores, e, principalmente, na própria imprensa já que você não trabalha só com jornalistas, repórteres, mas trabalha também com críticos. Como é esse convívio com essa área específica? 

AL: Eu acho que no caso do cinema não há muita diferença com outros artistas de forma geral. Existem artistas que têm um relacionamento muito ruim com a mídia, não que o trabalho não seja bom, mas eles não têm abertura para esse relacionamento. E existem artistas que têm uma relação muito estreita, em facilitar, e na minha opinião eu vejo isso como profissionalismo. O artista que vem, seja para apresentar uma peça teatral ou uma obra audiovisual, ele tem que estar, em algum momento, disponível para atender a imprensa, porque é um canal de se chegar até o público, é inerente ao trabalho. Eu acho que ele tem que ter uma agenda, ele tem que estar minimamente disponível, acessível, a não ser que isso pra ele seja totalmente irrelevante, mas que, na minha opinião, não é o caso. A imprensa é fundamental até para ajudar a ter sucesso no projeto, nesse sentido eu vejo facilidade com alguns diretores, com alguns realizadores, porque existem pessoas com perfis diferentes. Na minha opinião, quanto mais profissional melhor o relacionamento, por mais que ele não esteja 24 horas disponível, ele tem que ter essa uma hora para atender quem estiver interessado em falar sobre o filme, então a gente se organiza para atender, eu vejo isso como profissionalismo. O segundo ponto, sobre atender essas mídias diferentes, eu acho isso fantástico, porque a gente não tem que só atender o jornalismo, que é o que traz o público, a gente tem que atender a mídia especializada, que faz crítica para dar visibilidade pro filme, visibilidade para o diretor, garantir bilheteria no futuro, enfim. Então são dois canais diferentes, são agentes diferentes de canais distintos. A gente tem aí todos os possíveis suportes, TV, rádio online, nós temos que fazer esse atendimento diferenciado porque eles querem retornos diferenciados. Eu acho desafiador e, ao mesmo tempo, eu acho isso muito prazeroso, você conseguir levar resposta para esses dois perfis de agentes distintos e ver depois, no final disso tudo, a publicação da matéria, a veiculação da notícia. É muito prazeroso fazer esses atendimentos de uma forma diferenciada, e é desafiador porque uma mesma pauta não cabe para esses dois perfis de veículo. Então você tem que levar talvez para o popular, o que seja interessante para o público, o que tenha adesão de plateia, e por outro lado levar a curiosidade do filme, o currículo do diretor, prêmios, algo que chame mais atenção para uma mídia especializada que quer muito mais do que só a programação da exibição, quer mais conteúdo sobre o que está sendo exibido propriamente dito.

MCB: O seu trabalho maior é para as mostras, Tiradentes, Ouro preto e Belo Horizonte. Para você fazer esse trabalho de assessoria de imprensa, quanto tempo antes você tem que se dedicar para esses eventos acontecerem? 

AL: Bom, como nesses casos os meus contratos são temporários, eu começo a trabalhar pelo menos um mês antes, mas o ideal seria trabalhar até antes, acompanhando a curadoria no processo de escolha de definição para a gente já ir se familiarizando com o tema, já ir pegando mais conteúdo, tomando mais conhecimento do evento que se pretende apresentar, mas nem sempre isso é possível. A partir da contratação, eu já tento conhecer o que já foi definido, não necessariamente o que será brevemente divulgado ou que já foi divulgado, mas como está sendo desenhado o evento para já fazer minhas pesquisas pessoais. Dependendo do homenageado, já fazer a minha pesquisa para conhecer um pouco mais o perfil, e dependendo do tema também fazer minhas pesquisas pessoais para eu ter mais base, mais entendimento sobre o que será trabalhado. Porque é fundamental para a gente fazer nossas pesquisas pessoais, conversar com curador, pegar essas informações, para que possamos ter conteúdo para apresentar aos jornalistas. Conforme eu falei, a imprensa tem dois perfis, o jornalismo mais factual, diário, agenda, e o jornalismo especializado em cinema. Então para esse especializado em cinema ele já tem essa bagagem, já conhece os diretores, mas para os outros não. Então é importante nós termos um conteúdo para falar um pouco, explicar, fazer as conexões necessárias com o tema. E a partir também de um esforço pessoal, né, porque o assessor de imprensa é um canal para divulgar as informações, mesmo apresentando, sugerindo, tentando vender a pauta. Se eu não entendo, dificilmente eu vou saber vender e dificilmente essa pauta vai ser aproveitada conforme a organização espera, conforme eu espero o diretor, o homenageado, enfim. Então parte também de um esforço pessoal nesse sentido, amparado de diversas formas, conversa com a coordenação, curadoria, pesquisas pessoais.

MCB: A equipe é mais ou menos fixa, não é?

AL: É, nesses eventos da Universo ela vem trabalhando com uma equipe mais ou menos fixa, porque tem muito uma preocupação, não digo de finalização, mas de unidade do trabalho. Porque tem toda uma filosofia do bom atendimento, a gente tem sempre uma resposta, mesmo que não seja positiva dependendo da demanda, mas tem sempre uma resposta, não deixa ninguém sem resposta, acompanhar os processos, saber quem são as pessoas. Isso é muito importante para o trabalho, desenvolver um relacionamento com as pessoas que vêm, com os convidados, com a imprensa, então quanto mais o assessor está mais tempo envolvido certamente ele tem um relacionamento mais estreito com essa imprensa que vem cobrir, conhece, sabe, acompanha, vê o desenvolvimento. A gente vê jornalistas que vêm cobrir como factual, como diário, e ao longo do processo se tornam especializados, ou de especializados que vão mudando de veículo e a gente vai acompanhando, então isso faz diferença. Nós temos essa preocupação, a gente percebe essa preocupação da coordenação em manter uma equipe, uma equipe na unidade, justamente para ter esse bom atendimento, para ter o relacionamento, que é algo primordial, que a organização sempre pede. Mesmo que tenha um integrante novo na equipe é sempre frisado isso, que nosso diferencial é no atendimento, e eu percebo isso pelos retornos que eu tenho, pessoas que se credenciam de fato dão retorno pra gente, que nós somos muito atenciosos, que damos retorno. É um procedimento que nós adotamos, mas muito em sintonia com o que a coordenação espera do nosso desempenho nesse sentido.

MCB: E depois da mostra, você ainda tem esse trabalho durante quanto tempo?

AL: Eu tenho trabalho, mais ou menos, durante um mês, dependendo do tamanho da mostra, principalmente a de Ouro Preto e a de Belo Horizonte, a de Tiradentes é um mês e meio, uns 50 dias para confecção do relatório. Nós temos muitos veículos que acompanham a mostra com uma periodicidade mais espaçada, semanal, mensal, até mesmo revistas bimestrais. Então nós acompanhamos a publicação, eu faço o monitoramento disso junto à empresa especializada em clipping, eu que sou responsável por fazer esse acompanhamento, eu espero apanhar o maior clipping possível para fechar o relatório. O relatório tem as funções, não só da memória, mas como se deu o evento por parte da cobertura da imprensa e do trabalho de assessoria desenvolvido, como uma prestação de contas junto ao patrocinador. Informações sobre a cobertura que a gente registrou, sobre as principais inserções, comentários a respeito do perfil dos profissionais que nós credenciamos, como foi executada a cobertura. O relatório tem essas funções, é um produto que demora ser feito porque depende dessas publicações e também de um entendimento de uma unidade, porque ele é um textual bastante completo. Demora um pouco, então quando fecha o rádio eu já vou adiantando, fecha o impresso, TV demora um pouco mais, e assim vai.

MCB: Isso que te levou a fazer seu mestrado?

AL: Sim, sim, o monitoramento de notícia sempre foi um procedimento muito curioso, principalmente para quem faz relatório, o tanto de informações que aquelas notícias nos trazem. Por exemplo, um jornalista desempenhou uma cobertura, há bastante, tempo de um ponto que não, necessariamente, nós trabalhamos na divulgação de nossos releases. Um exemplo foi a Thaís Pimentel cobrindo a Mostra de Ouro Preto pelo portal Uai, em 2012. Ela fez uma matéria sobre a sinopse de filmes falando sobre a curiosidade, é algo que nós nunca trabalhamos e a gente tenta fazer, pensar em pautas diferentes, a partir de curiosidades. Para os veículos especializados em cinema isso é uma bobagem, mas para outros que não são, que procuram algo diferente, são coisas curiosas. Então só a partir do acompanhamento do que eles fizeram na prática, que é lendo mesmo, monitorando, procurando, que a gente consegue mapear essas diferenças de cobertura, os perfis dos jornalistas. Aí você consegue entender que essa sugestão de pauta é mais direcionada, mais adequado para aquele jornalista, embora ele cubra cinema, do que para um outro que também cobre cinema mas não se interesse por aquele tipo de sugestão. Por exemplo, Adilson Marcelino, com interesse em pesquisa de mulheres do cinema brasileiro, talvez se interesse muito mais por uma pauta voltada para o perfil das mulheres do que se um homenageado for um homem. Então tem essas questões. É claro a gente conhece o veículo, mas a partir do monitoramento da cobertura, que é feita por aquele veículo, nós vamos conhecendo com mais detalhe esse perfil. Isso me interessou a fazer o mestrado, no caso eu desenvolvi na linha da gestão do conhecimento para aplicabilidade em empresas, então sempre de notícias institucionais voltados para o mercado de atuação dessas empresas. Porque eu não achei muito espaço para voltar pra área de cultura, mas sempre, na minha opinião, tentando fazer esse contraponto com a parte cultural, que é a área que eu atuo com mais facilidade no mercado, que eu estou inserida. Pelo mestrado, pelo formato que a gente desenvolveu, foi uma área mais organizacional. Mas foi a partir disso sim, que eu acho bastante curioso acompanhar essa cobertura e identificar esses pontos de atenção, identificar essas questões das matérias negativas, reverter.

MCB: E também o espaço, como se dá, não é? Como a imprensa nacional, como cada região do Brasil vê aquilo.

AL: Exatamente. Aí a gente pensa “será que no Ceará vão querer só dar os filmes que são do Ceará, que estão na programação?”. Não, não necessariamente. Por um acaso, talvez um exemplo, o Ceará esteja trabalhando a questão dos coletivos, isso é uma pauta bastante forte, e eles vão se interessar em registrar um coletivo de profissionais do audiovisual que atua aí no interior de São Paulo. Então não tem nada a ver com profissionais do Ceará, mas tem a ver com a pauta que eles estão trabalhando e que é o coletivo de profissionais do audiovisual. Isso faz diferença pra gente identificar, pra gente mapear e entender os interesses de cobertura que, em algum momento, pode ter uma consonância, mas que em outro momento possa ser extinto.  Isso, para nós, que queremos levar a visibilidade do evento, a marca do evento, faz parte do nosso trabalho fazer essa identificação para ampliar a visibilidade do evento nesse sentido.

MCB: Nessa sua trajetória, Cinema no Rio, Cinema nos Trilhos, Festival de Curtas, mostras de Tiradentes, Ouro Preto, Belo Horizonte, você consegue, só para ilustrar, um momento marcante nessa sua trajetória fazendo assessoria de imprensa desses eventos intimamente ligados ao cinema brasileiro? 

AL: Eu quero acrescentar que eu também fiz a versão itinerante do Anima Mundi em Belo Horizonte, em 2012, o que me aproximou desse evento, que até então conhecia pela realização em outros estados. Eu gostei muito, trabalhei com a Aida Queiróz, que foi nossa porta-voz do Anima Mundi em Belo Horizonte, foi muito gratificante, espero ter a oportunidade de trabalhar no evento principal, que acontece no Rio de Janeiro, quem sabe ter a oportunidade. Bom, eu não consigo lembrar, sinceramente, neste momento, de algo muito marcante, mas o que marca muito é o reconhecimento de um jornalista me encontrar e falar assim “fulano falou de você, que você é da Mostra de Tiradentes”. Esse tipo de retorno sempre me marca muito, porque é muito gratificante quando você deixa sua marca, não só pelo evento a que você está atrelado, mas pelo seu perfil de trabalho, seu perfil de atendimento do evento, como você consegue levar isso para o jornalista. Então isso para mim é muito gratificante nesse sentido, mas nesse momento aqui da conversa não consigo te pontuar nada especificamente. É muito interessante você ter amigos na área, eu tenho um grande amigo, do peito, do coração, o Marcelo Miranda. Nós nos conhecemos na Mostra, mantivemos contato durante várias mostras que ele vinha cobrindo e eu trabalhando. Hoje ele é meu amigo, de trocar confidências, de precisar conversar, ombro amigo de verdade. E outros tanto quanto, mas ele, para mim, é um grande exemplo nesse sentido, de que eu conheci através dos eventos, que eu mantive contato, e estreitei ainda mais esse relacionamento até virar uma grande amizade, que se amanhã eu já não estiver mais na área de cinema, ou ele, certamente manteremos contatos porque nos tornamos muito amigos. E outras pessoas também, felizmente, que vêm cobrir o evento e que a gente mantém contato. Esse ciclo de amizade e esse reconhecimento que isso me traz, dessa identificação... um jornalista uma vez me falou assim “Ariane, eu fui convidado para um evento de cinema em Belo Horizonte, eu fui convidado, mas como cinema para mim em Minas é você, eu estou te ligando para saber se você está envolvida, se você sabe o que é, se você pode me dar mais informações, porque só vou topar se você me disser”. Eu não estava trabalhando no evento, mas eu disse “pode topar porque a empresa é séria, eu não estou nesse trabalho mas eu conheço, pode vir com segurança”. Eu achei isso uma graça, a pessoa me ligar para perguntar se eu estou envolvida, “porque pensou em cinema em Minas, pensou em Ariane”. Achei isso muito interessante.

MCB: Que é aquilo que eu estava falando lá no início da nossa conversa, da referência. 

AL: É, aí eu me tornei a referência nesse sentido, então eu fiz um trabalho realmente importante, que ele reconheceu, que ele fez essa associação e resolveu me ligar.  Acontecem outros episódios também “olha, eu estou topando esse convite do Cinema no Rio, que é um projeto itinerante, que é um projeto diferenciado porque vai a cidades menores, com uma infraestrutura mais precária, algumas vezes”. Então tem um certo estranhamento da pauta “olha, eu estou topando porque você está indo”. E eu “vamos, eu estou aqui te esperando, vou te encontrar no aeroporto pra gente pegar uma van e aí andar 700 km até encontrar o barco e navegar, enfim, conhecer as cidades ribeirinhas do rio São Francisco”.  Enfim, desenvolvemos pautas maravilhosas, mas talvez, se eu não estivesse naquela van conversando com aquele jornalista e passando a experiência do cinema e explicando o conceito do projeto, a essência, não sei se ele teria saído lá do Rio de Janeiro, pegado um voo, andado 700 km de van para trabalhar essa pauta. Para ele, talvez, seria mais cômodo ficar lá, receber esse material em DVD e talvez trabalhar de outra forma. Isso foi interessante para mim, de saber que eu consigo repassar uma confiança “pode vir que o projeto é sério, pode vir que aqui você vai ter uma pauta para trabalhar, não é para passear, é trabalho, você vai desenvolver”. Então eu fiquei feliz com esse tipo de comparação.

MCB: Para terminar, as únicas duas perguntas fixas do site: qual mulher do cinema brasileiro de qualquer época e de qualquer área, você quer deixar registrada na sua entrevista como homenagem, uma mulher que você goste. 

AL: Eu gosto muito do trabalho da Fernanda Montenegro, particularmente, eu amo o Central do Brasil, acho aquele filme muito bonito, com uma história, na minha opinião, até, de certa forma, simples, mas que me remete a muitas coisas. Com uma trilha sonora maravilhosa, ela é envolvente. Toda vez que eu me lembro de cinema nacional eu penso na Fernanda Montenegro. Para mim ela é uma figura fantástica em qualquer área, mas no cinema nacional pra mim é Central do Brasil e Fernanda Montenegro na atuação. Eu a reconheço, assim como várias outras pessoas, é claro, como uma diva da representação, da dramaturgia. E em Central do Brasil, para mim, como um filme muito significativo.

MCB: E qual o último filme brasileiro a que você assistiu, sem ser na mostra? 

AL: O último filme brasileiro, sem ser na mostra, foi O cheiro do ralo, do Selton Mello, que eu peguei em DVD na locadora, eu ainda não tinha visto. O Selton é um cara fantástico, uma representação, como eu vou dizer, única. Porque cada filme com o Selton Mello para mim é um filme diferente, e esse filme do Heitor Dhalia tem um humor negro muito forte, é muito curioso até o final, com um desfecho inusitado, inusitado do início ao fim. Assisti em casa, com o meu marido.

Atualização:  Ah, além de O cheiro do ralo, vi dois filmes brasileiros nas últimas semanas, com estilos bem diferentes e que, ao meu ver, retratam bem a efervescência do cinema de nosso país. Gonzaga, de pai pra filho, do Breno Silveira, um filme considerado comercial. Mesmo com este rótulo, me agrada muito assistir a uma produção biográfica, com marcações históricas. Acho importante para a memória do Brasil, neste caso, a musical. O Gonzagão popularizou o baião, um ritmo genuinamente brasileiro. E O som ao redor, de Kléber Mendonça Filho. Eu adoro este diretor, acho que já vi todos os curtas dele, aliás, o melhor curta que já vi até hoje é dele: Recife Frio. Curioso, engraçado e bastante criativo. No caso de O som ao redor, acho muito interessante a forma com que ele aborda um problema universal a partir da realidade dos moradores do Recife.

MCB: Alguma coisa que eu não te perguntei que você queira acrescentar? 

AL: Eu só queria reforçar, mais uma vez, que eu sou muito grata a muitas pessoas, mas, só para ilustrar, a minha gratidão a duas principais: Sérgio Stockler, pela oportunidade do primeiro trabalho, da confiança que ele depositou em mim para trabalhar, primeiro como estagiária, depois como funcionária; e também Raquel Hallak, por perceber a minha evolução, perceber a minha maturidade enquanto profissional e me convidar para executar o trabalho, mesmo não estando mais vinculada à empresa com a qual eu comecei a executar o trabalho. Então eu gostaria de pontuar isso, para mim, realmente, são duas pessoas que acreditaram no meu trabalho e isso é muito gratificante para mim. 

MCB: Muito obrigado pela entrevista.



Entrevista realizada durante a 16a Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro de 2013.

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 Sala Dina Sfat
Atriz intensa nas telas e de personalidade forte, com falas polêmicas.