Ano 18

25a Mostra Tiradentes-Aurora 3 Olhos Livres 3

Cena de Panorama (2021), de Alexandre Wahrhaftig
A 25a Mostra de Cinema de Tiradentes está caminhando para o final, no entanto ainda tem muitos filmes para serem vistos. Como a programação abriga 169 filmes, fica difícil de dar conta de muita coisa, ainda mais quando não se está malocado lá na cidade, por conta de fazer a cobertura. Como se sabe, devido ao avanço da pandemia da Covid, a edição comemorativa dos 25 anos teve que migrar toda para o formato virtual.

Dessa forma, tem que se fazer escolhas, e o Mulheres do Cinema Brasileiro acaba cobrindo mais os longas, sendo que dos inúmeros recortes que a programação apresenta, dois dos preferidos são a Mostra Aurora e a Mostra Olhos Livres.

O Mulheres do Cinema Brasileiro conferiu mais um filme de cada:
- Avá - Até que os ventos aterrem (SP), de Camila Mota, na Olhos Livres;
- Panorama (SP), de Alexandre Wahrhaftig, na Aurora.

Certa vez um diretor encenou no teatro o poema em prosa de Ferreira Gullar, "Crime na Flora". Desconcertante, ele abria as cortinas já com o público aguardando somente depois de 10 a 15 minutos em que a peça já estava acontecendo. Dessa forma, o estranhamento se instalava de supetão, pois ficava-se sem saber de fato ao que se assistia, com a sensação de ter perdido o fio da meada, ainda que o mostrado fosse sedutor na interpretação dos atores, na trilha sonora e na própria encenação. Com Avá - Até que os ventos aterrem uma sensação parecida se dá. Ao situar o universo em caos em cena, é como se nós mesmos, espectadores, fossemos mergulhando cada vez mais nesse estado de coisa, em que o sensorial se impõe e nos conduz.

Avá - Até que os ventos aterrem se vale de uma construção estética rigorosa e consegue atingir isso pela fotografia precisa, pela própria imponência moderna da edificação do Teatro Usyna, e, inclusive,  valendo-se de toda uma cosmologia criada pelo próprio teatro. Acrescente-se a isso, a presença de uma atriz forte como é a talentosa Joana Medeiros. No entanto, esses mesmos sentidos, plano a plano aguçados pelas escolhas da encenação,, nem sempre acompanham a proposta. Em boa parte do filme, fica em descompasso com a fruição, sobretudo pela verborragia, não há silêncios, duelando de igual para igual junto a esse atiçamento..

Panorama, de Alexandre Wahrhaftig, é filme em outa chave, o realismo duro das favelas das grandes cidades, e aqui, por estar situada na zona de sul de São Paulo, em permanente confronto geográfico com os usurpadores do Grande Negócio. O filme traz para o centro da cena esse confronto entre David e Golias, em que a aniquilação insaciável do segundo encontra a resistência do primeiro, ainda que inúmeros David em estado de suspensão de desaparecimento.

Panorama é o Jardim Panorama, a favela invadida pelo opressor de concreto, que, para além do campo de guerra instaurado, é formado por tecido social que vive, pulsa, resiste, denuncia e se assombra com as marcas do passado e a incerteza do futuro. Nas letras do rap de dois de seus moradores/personagens, não só estampado esse misto de estado de desamparo e indignação, mas um 3x4 de cotidiano de vivência aviltada. Ainda que com as particularidades que lhe são próprias, um espelho de tantos outros similares em aglomerados espalhados pelo país, esse rascunho de nação nada pai e permanentemente carrasco e patrão.



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25a Mostra de Cinema de Tiradentes
De 21 a 29 de janeiro de 2022
Programação e exibição on-line mostratiradentes.com.br

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior