Ano 18

25a Mostra Tiradentes-Aurora 2 Olhos Livres 2

Cena de Sessão bruta (2021), dirigido pelo coletivo As Talavistas e ela.ltda.
A 25a Mostra de Cinema de Tiradentes, que começou no dia 21 e vai até o dia 29 de janeiro, continua a apresentar programação intensa e gratuita no formato on-line.

Como se sabe, a edição comemorativa dos 25 anos da Mostra seria no formato presencial, com parte da programação no virtual, mas o avanço da Covid mudou o planos e todas as atrações migraram para a exibição on-line.

Só que dessa vez, em vez de os filmes ficarem disponíveis durante toda a Mostra como aconteceu em algumas das últimas edições da mostras da Universo, essa edição deixa o sinal aberto para os filmes apenas durante 24 horas - em alguns casos, menos que que isso; já a retrospectiva da Mostra 25 anos fica disponível durante todo o evento.

Esse formato nos transporta para a dinâmica da Mostra, que quando totalmente presencial tínhamos apenas uma sessão única para assistir a cada filme, o que por si só era uma maratona diária para ver o máximo possível e testar os limites do cansaço frente à tela. Agora, com a média de 24 horas, invariavelmente temos que assistir mais de um longa por dia, e quem tem trabalho formal, como no caso do Mulheres, só sobra mesmo a noite para assistir, escrever e publicar a cobertura - e nem estou falando também da extensa programação de curtas.

Ontem, quarta-feira, foi a vez de conferir mais dois longas: Você nos queima (SP), de Caetano Gotardo, na Mostra Olhos Livres; e Sessão bruta (MG), de As Talavistas e ela.ltda, na Mostra Aurora.

Você nos queima é filme pelo qual vivenciamos diferentes estados de fruição. O ponto de partida é aparentemente simples, um possível caso de amor interrompido já na nascente pela decisão de uma das partes em não ceder ao desejo do corpo e do coração em sobressaltos. No entanto, já no início nos deparamos com uma forma de colocar esse gesto em cena e, sobretudo, o que advém em subjetividades desse fato na parte preterida, que nos seduz de cara. É realmente lindo e fascinante a construção imagética que Gotardo constrói no primeiro 1/4 de filme, a partir das fotos de duas possíveis amantes desconhecidas que não assumem o amor no registro fotográfico - elas nunca aparecem nos pares de fotos tiradas durantes décadas, ainda que se façam presentes nas reproduções que cada uma faz de gestos, posturas e lugar uma da outra nas fotos individuais. Esse subterrâneo de intenções e materialização de realidade são muito bem trabalhados na analogia que ele faz com o amante fugidio, os poemas que lê, as imagens pictóricas que cria, a dor que encarna.. 

Uma das falas é poderosa, que é mais ou menos assim: Eu também sou esse corpo que poderia cair de uma dessas pedras. No entanto, o que vai mover o filme mais a frente de forma quase literal é outra frase: Um corpo em movimento não é uma coisa simples. E é na perseguição a esses corpos anônimos filmados da cintura para baixo em trajetos de metrô, que o filme vai se descolar imagéticamente de seu início arrebatador, ainda que fiel aos seus propósitos iniciais. Você nos queima é filme que promete e alcança imprimir dor e, como diz o poeta, solidão de frente para o mar em seu início, mas perde-se um tanto no seu entrecho que ocupa boa parte de sua extensão. Dessa forma, o filme nos faz vivenciar um arrebatamento inicial que é suspenso, talvez até como em suspensão ficou o narrador, mas que acaba por perder, cinematograficamente, muito de sua força-motriz.

Depois de A Colônia, a Mostra Aurora apresenta mais um grande filme: a produção mineira Sessão bruta. Em cena, um casarão, onde um grupo de artistas embaralha, embaça e ressignifica os limites entre a vivência e  a performatividade. A identidade de gênero aqui, entre universo queer, travestis, trans, não binários, nunca é só escaninho de identificação e sim carta de intenções materializada que rasga o verbo, imprime corpos, e instaura geografias.

Dirigido pelo coletivo As Talavistas e ela.ltda, a estética de Sessão Bruta, colada em proposição ética demarcada em brasa, é sedutora de ponta a ponta, em que pessoas/personagens não só compõem o quadro, e os planos, e sim faz deles, quadros e planos, a expressão pra fora do construído por dentro. E como resultado de lutas por representatividade e, sobretudo, pela exigência do existir em sua plenitude. A partir de cenários, figurinos, artes visuais, cores, fechação, alegria, deboche, colocações diretas e provocativas, monólogos e diálogos contundentes, assim como a recusa da normatividade inclusive no ator de filmar, do deslocamento do que se escuta para a boca de quem fala, e em sua montagem inventiva  fazem de Sessão Bruta um filme de provocações e de experiências múltiplas e indomáveis.



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25a Mostra de Cinema de Tiradentes - De 21 a 29 de janeiro de 2022
Programação e exibição on-line - mostratiradentes.com.br


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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior