Ano 18

25a Mostra Tiradentes-Praça, Olhos Livres +

Cena de A felicidade das coisas (2021), de Thais Fujinaga
A programação de filmes, entre curtas, médias e longas, que a 25a Mostra de Cinema de Tiradentes está exibindo gratuitamente e no formato on-line, desde o dia 21 e que vai até o dia 29, é farta: 169 filmes de 22 estados brasileiros.

Como a Mostra é ainda muito maior que isso, pois também oferece em sua programação debates, oficinas, lançamentos de livros e encontros de mercado, os filmes são abrigados em diferentes mostras temáticas, cada uma com um recorte específico.

O site Mulheres do Cinema Brasileiro conferiu mais três longas, cada um deles de uma mostra diferente:
- Diário dentro da noite, de Chico Diaz, na mostra Cinema em Transição.
- Germino pétalas no asfalto, de Coraci Ruiz e Julio Matos, na Mostra Olhos Livres.
- A felicidade das coisas, de Tahis Fujinaga, na Mostra Praça.

A Mostra Cinema em Transição diz respeito à temática central da 25a Mostra de Cinema de Tiradentes, que tem nome homônimo, e que, no caso desse recorte específico,  abriga filmes que partem da experimentação do cinema com outras artes.

Diário dentro da noite parte de peça de teatro que Chico Diaz encenou no formato virtual, A lua vem da Ásia, adaptação do livro homônimo do escritor Walter Campos de Carvalho. Dessa forma, temos, em cena, o ator ensaiando o texto, ao mesmo tempo em que não só nos revela o dia-a-dia de seu confinamento real durante a pandemia e os seus ensaios, como, e sobretudo, os ecos dos texto, universo e personagem no momento em que ele e todos nós vivenciamos, em um enfrentamento quase surreal estabelecido pela pandemia.

Se o texto da peça aborda universo de loucura, coletivo, individualidade, delírios, poder, o filme dilata essas proposições no dia-a-dia de confinamento, geografia capaz de, ao mesmo tempo, expandir e sufocar . Diário dentro da noite embaça representação e vivência. Esse jogo possibilita ao grande ator que é Chico Diaz também se revelar um diretor de cinema capaz de construir planos sedutores. E esses, não só nos joga para dentro daquele redemoinho todo, como também nos deixa de fora vendo aquilo tudo sem jamais perder o interesse no mostrado e no que habita nas intenções escondidas e subterrâneas.

A Mostra Olhos Livres é uma das preferidas do Mulheres do Cinema Brasileiro em toda a programação geral das edições da Mostra de Cinema de Tiradentes. Ela abriga filmes  com propostas mais arrojadas e livres, seja em estéticas de experimentação e invenção ou mesmo a partir dos temas abordados. E aqui, diferente da Mostra Aurora, que é reservada para cineastas com até terceiros longas, a Olhos Livres é aberta para estreantes e veteranos .

Germino pétalas no asfalto, de Coraci Ruiz e Julio Matos, é mais um passo de Coraci na abordagem cinematográfica sobre o universo trans. No filme anterior, Limiar, ela registrou a transição de gênero de seu filho adolescente, impregnando no filme não só as questões dele como também as suas percepções de mãe sobre aquele momento definidor em sua família. Dessa vez, o registro é sobre o processo de transição de um amigo do filho.

Segundo os realizadores, dessa vez o registro enfoca, para além do processo individual de Jack,  também todo o entorno do personagem, as redes de proteção que trans e travestis estabelecem e se cercam para enfrentarem um mundo completamente hostil à suas existências. E no caso específico do Brasil atual, um governo especialmente genocida de minorias. Germino pétalas no asfalto é, por si só, filme de causa importante e urgente, e que, ainda que não consiga atingir a organicidade de Limiar, revela-se filme que jamais julga seus personagens e procura imprimir, a partir de seus planos, o afeto que eles buscam e estabelecem entre os seus.

A Mostra Praça, por sua vez, apresenta filmes mais abertos para o público geral, já que no formato presencial é programação, como o próprio nome sinaliza, de filmes apresentados na praça, no caso em Tiradentes. Geralmente, a Mostra Praça conta com grande público, e, muitas vezes, saem dali os filmes premiados pelo Júri popular.

A felicidade das coisas, de Tahis Fujinaga, já desponta com um dos grandes filmes exibidos nessa edição comemorativa de 25 anos da Mostra de Tiradentes. O filme está situado em uma linhagem de produção que aborda o universo familiar  por uma lente aparentemente naturalista, porém de tessitura sofisticadíssima, e que já nos apresentou filmes de altíssimo quilate, como Benzinho, de Gustavo Pizzi. Em cena, uma mãe de três filhos, um deles em gestação, em férias com eles e a sua mãe em uma praia do litoral paulista.

É a partir dessa personagem Paula, às voltas com a construção de uma piscina em sua casa de veraneio e os embates com o filho adolescente, com a mãe já na chave avó e com o marido ausente, que A felicidade das coisas apresenta uma radiografia precisa sobre as responsabilidades asfixiantes que recaem sobre a mulher e, sobretudo, sobre uma mulher mãe. "Eu não aguento mais, eu não aguento mais", lá pelas tantas Paula se desespera em lágrimas, em cena reveladora não só de um momento específico de sua vida, mas de um estado de coisas permanente e estabelecido para si, mesmo que à sua revelia. E em meio a isso tudo, a felicidade, ainda que fugidia. O filme conta com uma atuação absolutamente arrebatadora de Patrícia Saravy, que imprime no rosto, na fala e em todo o corpo, o ultraje de sonhos desfeitos, angústia, frustrações, medos e permanentes espantos.



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25a Mostra de Cinema de Tiradentes - De 21 a 19 de janeiro de 2022
Programação gratuita - exibições mostratidadentes,com.br


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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior