Ano 17

10º Olhar de Cinema - Longas 5

Cena de O bom cinema, de Eugênio Puppo
O Mulheres do Cinema Brasileiro conferiu mais três longas  brasileiros do 10º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba, festival que, desde o dia 6 até o dia 14 de outubro, está apresentando virtualmente mais de 70 filmes de vários países, nos formatos curtas e longas.

Da Mostra exibições especiais, O bom cinema (SP), Eugenio Puppo. Já da Mostra Novos Olhares, Virar Mar (Brasil/Alemanha),  Philipp Hartmann, Danilo Carvalho; e Esqui (Argentina/Brasil), Manque La Banca.

Há décadas que Eugênio Puppo, via Heco Produções, tornou-se um nome indesviável quando o assunto é memória do cinema brasileiro. Pesquisador, produtor e cineasta, ele está presente em vários projetos  importantes, como Mostra e catálogo sobre Walter Hugo Khouri, lançamentos em DVD da Coleção Cinema Marginal, digitalização da mítica revista Cinema em Close-Up, a Mostra de Cinema de Gostoso, exposições sobre Ozualdo Candeias e José Mojica Marins, Portal Brasileiro de Cinema, e muitos outros.

Como cineasta, Eugênio Puppo tem carreira em curtas e longas, como O homem sensorial (2013), Carlos Reichenbach: Relatório confidencial (2010), Ozualdo Candeias e o cinema (2013), Sem pena (2014). A história do cinema paulista, particularmente,  encontra em Puppo um aliado de primeira mão e com seu novo filme, O bom cinema, ele avança ainda mais nesse projeto de resgate de memória, e não só isso, pois seu filme propõe muito mais.

Em O bom cinema, o cineasta apresenta uma proposta tão inquietante como o movimento de cinema que ele foca: a relação entre uma encíclica papal e o surgimento do Cinema Marginal. Sim, porque de acordo com o filme, foi nessa encíclica que o Papa Pio XII, considerando o cinema uma arte já indesviável, conclamou pelo o que ele chamou de construção de um Bom Cinema, e que apresentasse bons princípios. Já na fala do cineasta Carlos Reichenbach, um dos principais abordados no filme, o Cinema Marginal teve como uma de suas gêneses a Escola Superior de Cinema de  São Luiz, criada pelos padres jesuítas.

O bom cinema se vale de imagens preciosas de arquivo em que estão cenas de filmes, falas em depoimentos e entrevistas, assim como bastidores de filmagens com nomes fundamentais, como o citado Carlão e outros como José Mojica Marins,  Rogério Sganzerla, João Callegaro. Inclusive, com cenas de filmes até então raros de Reichenbach e parceiros, As Libertinas e Audácia, a fúria do sexo, recentemente restaurados pela Heco.

Além da direção, Eugênio Puppo assina também a montagem, e é a partir dela que ele sedimenta a sua provocativa  proposta. Dessa forma, compondo, em O bom cinema, um caleidoscópio inteligente e sedutor. assim como configurando-se e perfilando-se, em ética e estética, a esse momento luminoso do cinema de invenção.

Virar Mar (brasil/Alemanha),  de Philipp Hartmann, Danilo Carvalho, e Esqui (Argentina/Brasil), de Manque La Banca, são duas coproduções, muito bem abrigas na Mostra Novos Olhares.

Sim, porque cada qual, a seu modo, apresentam leituras bem pessoais de seus objetos: no primeiro, e relação com a água, a falta dela e sua abundância; e no segundo, o esqui, a partir de uma imbricada relação entre turistas, nativos, política e imaginário sobre as montanhas geladas..

Em Virar mar estão em cena o sertão cearense e sua relação com a seca, e um território alemão ameaçado por águas indomáveis. Já em Esqui, as montanhas de patinação na Patagônia. Há um estranhamento impregnado em ambos os filmes, pois eles se valem de diferentes narrativas envolvendo diferente sujeitos no primeiro, e diferentes geografias frente a um mesmo objeto no segundo.

Se em Virar mar, temos, por exemplo, um morador solitário que ignora o iminente alagamento do território em que vive com a abertura das comportas, e no segundo um ser errante de olhos de fogo que vivem nas montanhas, essas e outras passagens são tratadas quase que com um certo distanciamento. E há, ainda, o papel fundamental de como a a política, seja em solo argentino ou alemão, tonou-se agente central pela situação em que os territórios e os moradores se encontram.

Acompanhar Esqui nem sempre é simples, mesmo porque o roteiro e a direção nem sempre parecem dar conta do que ser quer mostrar. Virar mar, por sua vez, também requer um envolvimento e uma disposição a priori, já que trafega por registros múltiplos,  o que também, nem sempre,  torna-se uma fruição convidativa e sem amarras.


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Serviço
10º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba
De 7 a 15 de outubro - filmes exibidos e programação completa no 
site olhardecinema. com.br
Ingresso: R$ 5 por filme

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior