Ano 17

10º Olhar de Cinema - Longas 4

Cena de Nunca mais serei a mesma, de Alice Lanari
O 10º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba tem apresentado virtualmente, desde o dia 6 e com programação que vai até o dia 14 de outubro, filmes de vários países nos formatos curtas e longas. Também na programação, seminários, encontros e masterclass.

O Mulheres do Cinema Brasileiro está acompanhando os filmes brasileiros, sobretudo os longas, e agora tece olhares sobre mais dois belos filmes, apresentados em dois recortes da programação, respectivamente, nas mostras Outros Olhares e Competitiva: Nunca mais serei a mesma (Brasil/Argentina/Honduras/México), de Alice Lanari; e Rio Doce (PE) , de Fellipe Fernandes. 

Impressiona os casos permanentes e o número crescente de feminicídios. E esse estado de coisas assustador é radiografia precisa  do poder do patriarcado e da misoginia indisfarçavel incrustada na cultura brasileira. 

Em Nunca mais serei a mesma, uma coprodução Brasil/Argentina/Honduras/México, a cineasta Alice Lamari mira sua lente para essa infame realidade, e não só em solo brasileiro como também nos  outros três países, apresentando uma teia sobre a violência sobre essas mulheres dos diferentes territórios.

A violência do homem sobre a mulher, que é única, absoluta e devastadora, está personificada por diferentes situações: abuso e  violência doméstica, tortura miliciana, extermínio racista, estupro e assassinato.

Impressiona como o roteiro e a direção, ambos assinados por Lamari, compõem um painel que retrata essa violência de gênero, ao mesmo tempo em que amplificam esse foco para a resistência dessas mesmas mulheres. Em diferentes geografias, cada uma lutando de uma forma, assemelhando-se tanto nas marcas de vítimas quanto na fúria e nas tecnologias pessoais de enfrentamento.

Há, em Nunca mais será a mesma, tanto a perpetuação e a marca em brasa de dores, perdas e  aviltamentos, como também a força feminista e o brado claro de uma contraguerra declarada. O genocídio segue em marcha, mas a luta em resistência segue em fortaleza.

Rio Doce é uma produção rodada em Olinda e Recife, dirigida por Fellipe Fernandes. De cara, a impressionante interpretação de Okado do Canal, que imbuí em Tiago, seu personagem, uma humanidade tão grande, realçando nuances do roteiro, também assinado por Fernandes, a partir do olhar e de todo do corpo, como a propagar intenções.

Como o Mulheres não conhecia o ator, só ao final do filme fica sabendo que ele é um rapper, e, depois em pesquisas, nome de referência na militãncia na comunidade da favela do Canal, na periferia do Recife.

Há uma direção tão orgânica e tão rigorosa de Fellipe Fernandes em termos de construção de planos absolutamente bem construídos, que acompanhar o filme é de uma experiência acachapante, em misto de dor, ternura  e medo.

Aparentemente, a solução apresentada pelo roteiro e conflito norteador da trama, que é a família branca procurar pelo filho ilegítimo preto faz  parecer quase inverossímil e fácil demais naquele momento crucial do personagem. O que quase põe o filme a perder.  Ainda assim, essa mesma ausência anterior praticada pelo patriarca não só personifica o racismo estabelecido por meio da invisibilidade e negação daquela segunda "família" deixada em condições diametralmente oposta à matriz, como também a de que aquele aparecimento sirva também para mostrar a suspensão e a transversal do tempo em que Tiago se encerra.

A família matriz do patriarca aparenta avanço de costumes, com o genro negro em meios aos brancos, a empregada que come à mesa, mas basta um olhar mais atento para perceber, ao mesmo tempo, que o preto tem uma doçura acuada e a empegada é tão preta como ele e como o novo membro familiar.

Então se Tiago até então encontra entre os seus pretos e pretas tentativas de compreensão, gestos de solidariedade e empatia, de cara alí, naquele universo de brancos, a sinalização concreta de que o buraco será muito mais embaixo..

As dores nas costas de Tiago é a dor disso tudo, como se fora a única latência, aparentada como morte, mas talvez como alerta de sobrevivência,  para confrontar uma apatia de um guerreiro que desistiu de lutar. E cujo aparente egoísmo se desfaz diante do olhar perdido e profundamente triste.

Importante ressaltar em Rio Doce, para além de Okado, todo o elenco bem dirigido, e Nash Laila mostrando, mais uma vez, porque é uma das atrizes mais talentosas de sua geração.


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Serviço
10º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba
De 7 a 15 de outubro - filmes exibidos e programação completa no 
site olhardecinema. com.br
Ingresso: R$ 5 por filme

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior