Ano 17

10º Olhar de Cinema - Abertura/Longa

Cena de O Dia da Posse, de Allan Ribeiro
O Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba abriu sua décima edição no dia 6, quarta, com programação que vai até o dia14 de outubro de 2021.

Assim como sinalizado no ano passado, primeira vez que o site Mulheres do Cinema Brasileiro cobriu o Festival, a abertura do Olhar de Cinema é bem prática: apresenta identidade,  patrocinadores e apoiadores, equipe, filmes selecionados, outras atrações da programação, informações gerais, e falas breves, dessa vez  como as do Diretor Artístico Antonio Gonçalves Jr,  do Diretor Executivo Stefano Lopes, e do cineasta Allan Ribeiro sobre o filme de abertura O Dia da Posse. Na verdade, parece que a cerimônia foi ainda menor que a do ano passado, cerca de uns 20 minutos.

A identidade, vale registrar, segundo a apresentadora da abertura, é uma releitura da primeira edição, uma forma de homenagear e celebrar essa primeira década de trajetória.

A bem da verdade, é o que conta mesmo, sinalizado, inclusive, por Eduardo Valente, um dos curadores, que no chat, ao fim da transmissão, arrematou: E vamos aos filmes!


O Dia da Posse

O longa-metragem O Dia da Posse, dirigido por Allan Ribeiro, e distribuído pela Embaúba Filmes, foi o filme de abertura do 10º Olhar de Cinema, que tem  programação formada por 77 filmes nacionais e internacionais, nos formatos em curta, média e longa duração, além de seminários e masterclass.

O carioca Allan Ribeiro já se firmou como nome de destaque no cinema brasileiro, em trajetória premiada desde o início dos anos 2000. Já dirigiu belos filmes. Como Esse amor que nos consome (2012) - longa e ponto mais alto de sua carreira, além de O Clube (2014) - curta, e Mais do que possa me reconhecer (2015) - longa.

O Dia da Posse é o terceiro longa do cineasta. Inclusive, na apresentação de seu filme, ele registrou que seus dois  anteriores participaram do Festival

Todo documentário ou todo filme que flerta com o documentário e que elege um personagem como foco central acaba perpassando por alguns escaninhos. Às vezes , o personagem é tão fascinante que a gente até esquece o cinema que está li propriamente dito. Algumas vezes o personagem é bom, mas o filme fica parecendo quase um registro de making of. Noutras, o personagem é intragável, mas o cinema ali é tão cinema que a gente acompanha sem piscar.  Há também aquelas vezes em que tudo é bom, personagem e filme. E há ainda aqueles em que nada parece funcionar.

Allan Ribeiro vem deixando sua marca como um diretor de radiografias de personagens fascinantes, se não propriamente  pelo objeto, com certeza pela sua lente sensível e firme, poética e precisa, humana e política. É é sob essa lente que Esse amor que nos consome abordou o diretor e o corégrafo, e companheiros, Gatto Larsen e Rubens Barbot; e o artista plástico Darel Valença Lins em Mais do que eu possa me reconhecer.

Em O Dia da Posse, o cineasta vira sua câmera para sua própria casa e cotidiano, em certo período da pandemia em que conviveu, durante quatro meses, com o estudante de Direito Brendo Washington. Allan está em cena o tempo inteiro, mais em áudio de conversas ou empunhando a câmera, já imagem e som estão fixadas, quase o tempo todo em Brendo.

Vindo da periferia de Salvador e agora morando em Copacabana, Rio de Janeiro, Brendo é falante, cursa Direito e quer depois também fazer medicina, tem interesse por política, e é fã do Big Brother. Como todos os corpos negros, também enfrenta diariamente o racismo estrutural.

Tudo isso é trazido para o roteiro e para a cena, inclusive a dinâmica do reality show.

Muitas vezes também Allan vira a câmera para a janela e para as outras inúmeras do prédio em frente, onde outros moradores e moradoras, também confinados pela pandemia, têm que se a ver com suas vidas em lente de aumento quase forçado, assim como eles e como nós.

O Dia da Posse cresce é nas horas em que, mais que o personagem, o cinema se impõe. Como nesses instantãneos pelas janelas, pelo zoom do olho mágico, pelas conversas pelo vídeo do celular, pelos planos poéticos.

É nessas cenas que cineasta e filme conseguem radiografar esse momento de vida inesperado global, e que, especialmente no Brasil, nos empapou de espanto, medo, morte, apatia e ganas de vida.

Marcante também a cena do montinho de areia jogado e apanhado pela mão, plano que diz muito, em ética e estética, sobre o cinema de seu realizador.

Já da analogia com o reality, sensacional a retirada de cena: expulsão, perda, fim de relacionamento, da parceria, da jornada do herói?

Nem sempre O Dia da Posse funciona, ainda que é em momentos como esses aqui elencados, pelo menos para esse escrivinhador, que arrebata e aponta e personifica para  o já indesviável cinema de Allan Ribeiro.


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Serviço
10º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba
De 7 a 15 de outubro - filmes exibidos e programação completa no 
site olhardecinema. com.br
Ingresso: R$ 5 por filme

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior