Ano 17

Cinema Brasileiro: Anos 2010, 10 Olhares

Michael Jackson em One day in your life
"Um dia em sua vida
você se lembrará de um lugar que você encontrou aqui
de alguém tocando seu rosto
você vai voltar e vai olhar em seu redor"

Nenhuma música - em nenhuma língua, em nenhum outro momento -  é capaz de traduzir o que mais por dentro há em mim que One day in your life, com o jovem, e desde sempre genial,  Michael Jackson.

Assim como nenhuma mostra de cinema me impactou mais nos últimos anos que  Cinema Brasileiro: Anos 2010, 10 Olhares.

E é para falar sobre isso que, neste momento, a música toca em fluxo contínuo, enquanto vejo pra dentro de mim.

Mas sem desviar os olhos de Eduardo Valente, Andrea Ormond, Janaína Oliveira, Maurílio Martins, Heitor Augusto, Victor Guimarães, Aílton Monteiro, Francis Vogner dos Reis, Rubens Fabrício Anzolin, Filippo Pitanga, Cristina Amaral, Luiz Carlos Lacerda e Vânia Catani.

E de Karime Cajazeiro, Rita Lopes, Grazi Medrado, Kênia Ribeiro e Cássia Paes.

"Um dia em sua vida
você vai se lembrar do amor que encontrou aqui
você vai lembrar de mim de alguma forma
e mesmo que você não precise de mim agora
eu estarei em seu coração
e quando as coisas desmoronarem
você vai lembrar de um dia"

Impactante porque, talvez, fora as décadas de 1970 - a mais determinante em minha vida, pois  anos da virada da infância para a adolescência, da Rádio Atalaia AM, da canção popular e da Disco - e a de 1990 - com a alegria maior pela entrada no mundo do cinema e do jornalismo como profissão, da afirmação do sexo homossexual e da perda do maior amigo, o Hênio -, a década de 2010 será sempre a geografia que marca a morte da minha mãe e a minha própria morte em grande medida.

Afinal, como morava dentro dela, assim que ela se foi entendi de fato o que é ser adulto, que, mais que qualquer outra coisa, é a definição de solidão. E o que é, de fato, não ter mais lugar no mundo.

Naqueles 10 olhares, lá, estão tudo o que sou. 

É ali, naquela transversal do tempo proposta pelo curador e suas curadoras e curadores convidados, que vi, pela primeira vez, lado a lado, não só alguns cineastas que me são mais caros, como Karin Aiñouz e André Novais Oliveira, como filmes que se instauram como rascunhos de morada - porque a morada se foi- como Estado itinerante, Praia do Futuro, Corpo elétrico, e Filme de domingo.

E a dor de Os dias com ele e Casa.

E muitos, muitos outros.

"Um dia em sua vida
você vai lembrar de mim de alguma forma
e mesmo que você não precise de mim agora
eu estarei em seu coração
e quando as coisas desmoronarem
você vai lembrar de um dia

Por ali, está o universo militante, com as reuniões secretas do PCB na Faculdade de Direito de Belo Horizonte durante a ditadura civil-militar, assim como a primeira passeata pelos direitos das empregadas domésticas e a armadilha do militar que flertou, para depois chamar o rapa para mim. E também o meu tio "doido" preto, o mesmo que passara cinco anos no Holocausto Brasileiro, torturado com cigarros apagados no seu corpo e encontrado nu no porão do horror.

Por ali, o medo, a vergonha, o êxtase e o júbilo da descoberta, repulsa e aconchego no mundo homossexual. Do abuso contínuo na infância e do estupro da primeira transa com o sangue a escorrer pelas pernas e pela toalha branca. Da amizade maior com o garoto de programa e o caso com o outro, marcado pelas cuecas secando  na varanda enquanto ele fazia um atendimento e outro antes de voltar para casa. A quase morte física, além das variadas mortes, com o marido psicopata e os sucos com sonífero. E do amor nunca correspondido na medida de dignidade.

Por ali, o penico cheio debaixo da cama, o menino na fila para entrar na casinha com o buraco no chão para várias famílias cagarem, assim como o  pavor de enfiar a perna no buraco fétido enquanto ratos e baratas circulavam por debaixo da bunda. Do balaio de doces, bolos, empada e pudim batendo de porta em porta. Dos cocões, chutes no traseiro, tapa na cara e o olho roxo das surras dos meninos.

Por ali, o mundo fundante do imaginário pela televisão de Batmasterson, dos Herculóides, do Banana Split, e das novelas. Do amor pelas meninas, sempre as melhores amigas da infância, com o aprendizado da bicicleta, os autos de natal, o teatro, as chacretes, os concursos de miss. Do Moça Elegante e da bentealtas. De ver com espanto a passagem de uma menina para a mulher, assim como a primeira intimidade hetero. Do surgimento de Vanusa.

Por ali, o menino leitor de Júlia, Sabrina, Bianca, Barbara Cartland, Agatha Christie e Lygia Fagundes Teles, e das revistas Contigo e Ilusão. Do negro que na infância disse para o outro negro que lugar de café é na cozinha e depois, já adulto, ser a vez de ele mesmo ouvir "Mas é você??? E eu que te imaginava loiro e alto", enquanto as risadas de escárnio lhe paralisaram o corpo e a alma.

Por ali, o asfalto, o baixo, os bares, as saunas, as boates, a pegação, o banheirão. 

Por ali, a busca incansável e desenfreada pelo amor. O down em mim.

Por ali, o cinema. O cinema brasileiro.


"Um dia em sua vida
quando você descobrir
que você sempre esteve aguardando
por um amor que costumávamos dividir
apenas chame meu nome
e eu estarei lá"


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Cinema Brasileiro Anos 2010, 10 Olhares
de 23 a 30 abril
programação completa e exibição - 10olhares.com


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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior