Ano 17

24a Mostra de Cinema de Tiradentes - Abertura

Júlia Tizumba em homenagem à Paula Gaitán
A abertura ontem, 22/1, da 24a Mostra de Cinema de Tiradentes foi toda em volta da grande homenageada dessa edição, a cineasta Paula Gaitán, que recebeu o Troféu Barroco.

O começo da noite foi com  a performance audiovisual que apresentou a temática da mostra, "Vertentes da Criação", que faz também link com a homenageada, ainda que, aqui, o panorama é geral, valendo-se, inclusive, de cenas dos vários filmes e em seus variados formatos que serão exibidos nessa edição.

O foco principal da performance foi a própria cidade de Tiradentes, pela primeira vez não sediando e dando a cara para a mostra, já que, dessa vez, toda a programação é exibida virtualmente em função do combate à Covid-19.

Homenagear a cidade que abriga e abraça a Mostra é apropriado e afetivo, daí se viu na tela o que se vê in loco cruzando as ruas da cidade histórica: artesãs e artesãos em seus ofícios de arte, gastronomia, expressão artística.

No entanto, esse recorte evidenciou uma certa guinada nas aberturas das mostras da Universo, notadamente a partir da última edição da CineBH. Durante muito tempo, momentos oficiais do tipo eram quase sempre monótonos ou esvaziados de sentido além do protocolar, só que no caso das mostras, elas vinham adquirindo e apresentando aberturas inesquecíveis e de altíssima cepa - seja em Tiradentes, Ouro Preto, Belo Horizonte.

Beleza ainda há, pois Chico de Paula, diretor, constrói, mesmo aqui, instantes deslumbrantes, como a abertura e o caminhar pela mata do personagem encarnado com verdade por Gibi Cardoso. Há cinema ali. Como há deslumbre nas participações notáveis de Maurício Tizumba e Júlia Tizumba, pai e filha, com uma Júlia mostrando para o país porque é uma das mais impressionantes artistas mineiras de sua geração - na verdade, aquela que é o talento puro e que muitas outras só pensam que são.

Mas ainda assim, cadê os corpos? Cadê aqueles absurdos  e absurdas, altivos e altivas,  corpos e corpas  em massa que invadiam a cena como a mostrar e não mais reinvivindicar, mas avisar, de quem é o chão em que se pisa? E aqui não se está falando apenas do chão Tiradentes, mas do chão fundante. Sim, porque, inclusive, levar pretos e pretas para a cena não é, necessariamente, levar corpos e corpas pretos e pretas para a cena. No caso de Tizumba e Júlia esse gigantismo se instaura porque chão SÃO, independentes de como e por quem  são levados para a cena. Júlia, aliás, em foto da cena que ilustra essa matéria, assistida pela homenageada, e por nós, personifica um desses momentos que se remete a outrora em que as aberturas das mostra da Universo se transformaram em arte.

Foi bonito ver o vídeo-homenagem do Canal Brasil sobre Paula Gaitán, e, mais bonito ainda, ver a emoção dela se vendo e vivendo seu momento. Muita beleza e verdade ali, de uma grande artista olhando para si, para a sua obra, e sendo olhada, ao mesmo tempo, por quem admira seu cinema de ponta a ponta do país - e talvez de outras partes do mundo.

Mediado por Francis Vogner do Reis, um dos curadores da Mostra de Cinema de Tiradentes, e, com certeza, um dos pensadores mais interessantes do cinema contemporâneo, pois alinha inteligência ao afeto - algo raro, quando é de verdade -, o debate não se cumpriu em suas potencialidades.

Ainda que tenha reunido não só artistas-chaves do percurso de Paula Gaitán, além do fato de cada um  ser, por si só, personas de imediato interesse - Eryk Rocha, Ava Rocha, Clara Choveaux e Arrigo Barnabé - ,  a mesa acabou se transformando em declarações de elogios e pouca reflexão sobre o percurso da homenageada. As falas mais interessantes acabou sendo da própria Gaitán - destaque também para o depoimento de Clara Choveaux  sobre como é filmada pela cineasta.

Ostinato

O músico, compositor e cantor Arrigo Barnabé foi outra presença potencializada nessa homenagem à Paula Gaitán. Além de participar do debate inaugural, protagonizou show de abertura - que o Mulheres ainda não viu - e o primeiro filme exibido e que integra a Mostra Homenagem: o média Ostinato, dirigido por Paula Gaitán.

O documentário surpreendeu de imediato, pois há muito que o formato suscita discussões. Há, de hábito, aqueles filmes repletos de depoimentos sobre o objeto - elogiosos, sempre - ou aqueles em que apenas o focalizado fala sobre si. Só que, para além disso, a forma em que esses modelos dialogam com quem se "retrata" também repercute. Por exemplo, como filmar um artista radical e experimental pela lente contrária? Ou seja, se o artista é esteticamente radical tem a ver um filme padrão sobre ele?

Arrigo Barnabé, que também é ator, está para sempre associado à Vanguarda Paulista, movimento musical do final dos anos 1970 e meados dos 80, e que reuniu artistas de arte inconformista em estética, como Itamar Assumpção, Grupo Rumo, Isca de Polícia, Premeditando o Breque, e cantoras/intérpretes e/ou compositoras como Ná Ozetti, Tetê Spíndola, Suzana Salles, Vânia Bastos, Eliete Negreiros, Vânia Bastos, Virgínia Rosa.

O filme Cidade Oculta (1086), dirigido por Chico Botelho, protagonizado por ele e Carla Camurati, é o seu maior momento nas telas - inclusive na sua mítica trilha sonora para o filme. Daí que Arrigo é muito visto como o artista dissonante, urbano, uma das "caras" da São Paulo megalópole.

Paula Gaitán, no entanto, o filma não de forma totalmente clássica, mas tampouco dissonante. A cineasta, também conhecida e reconhecida pelas experimentações de linguagens em seus filmes, volta a experimentar aqui, a seu modo. Estão lá detalhes visuais que marcam o cinema da artista - também fotógrafa e das artes visuais -, como as interferências do vento na cena, seja no movimento das cortinas ou nas páginas do livro compondo o quadro fílmico no parapeito. Há, ali, tanto signos para a impermanência e a tentativa de registro do que se parece fugidio, como também evidências de mundos construídos, e de certa forma camuflados, a serem desvendados.

Paula Gaitán filma Arrigo a partir da fala dele e também de sua música, apresentada ao piano. E fala ela também, o tempo todo,. E não só quando sua voz invade a cena ao contrapor a declaração dele de que a tendência da arte para a escatologia seria revolucionário. Ainda que, ali, sim, seja o momento mais alto, como a personificar o interesse que Gaitán diz, inclusive no debate, que sua aproximação com a música se dá pelo interesse da fricção, entre o músico, o instrumento, e a nota musical. Há ali, no embate direto entre quem filma e quem é filmado, entre quem fala e quem escuta, uma fricção, uma dissonância, como se em busca de real desnudamento.

Ostinato tem, antes, um grande momento, que é quando vemos Arrigo caminhando pelo calçadão paulista cheio de gente em momento pré-pandemia, e ao vermos toda aquela gente sem máscara uma perplexidade do passado vem logo à cabeça: mas a vida já foi assim? E quando ele para em cima da boca de lobo e olha para cima com a mão frente aos olhos fica quase parecendo, nesse confronto de quem assiste a cena agora, como que quase uma percepção dele, de espanto, a encarnar perplexidade futura ao nos ver hoje.

Paula Gaitán trafega pelos variados formatos de cinema, seja no deslumbrante experimental musical Noite, ou nesses retratos de personas, como fez no belíssimo Vida sobre a incontornável Maria Gladys. Como em todos, em Ostinato ela está ali, por inteira.



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24a Mostra de Cinema de Tiradentes
De 22 a 30 de janeiro de 2021 - Programação gratuita
exibição www.mostratiradentes.com.br



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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior