Ano 16

Nicho Novembro 2 - Segunda Parte

Cena de Ar Condicionado (2020), de Fradique
É sempre assim. Se durante o ano todo as costas e os bolsos estão sempre virados para negras e negros, quando chega novembro muita gente quer ficar bem na fita. E bem na fita para seus pares, é bom que se diga, pois para a comunidade negra, que é quem realmente interessa, os bolsos continuam virados.

E olha aqui, levar pretos e pretas para a cena, não é, necessariamente, levar corpas pretas e corpos pretos para a cena. 

O Mês e o Dia da Consciência precisam mesmo ser sempre reverenciados, mas de apropriação nosso copo tá até aqui de mágoa, apropriando agora pelo lado de cá - vejam como é.

Daí que só por ter Heitor Augusto no lance, a gente já sabe que o Nicho Novembro, no mínimo, tem o seu porquê e tem o seu o quê a dizer. Fernanda Lomba e Raul Perez, que estão com ele não concepção do Festival, o Mulheres não conhece. 

Realizado pelo Nicho 54, Instituto que atua na formação de jovens profissionais negros do audiovisual, o Festival Nicho Novembro chegou à sua segunda edição com a temática "Audiovisual como direito ao trabalho", e, dessa forma, segundo os realizadores, a programação "combina tanto uma dimensão de mostra de filmes com espaço de discussão sob perspectivas racializadas". 

De 9 a 15 de novembro, o Nicho Novembro 2 apresentou 4 longas e 12 curtas, do Brasil, Quênia, Estados Unidos, Angola, Ruanda e França. 

Como se sabe, o site Mulheres do Cinema Brasileiro cobre apenas filmes brasileiros, mas aqui foi impossível não dar uma olhada em outras pepitas da programação: Os filmes da produtora Geração 80 - o curta Lúcia no céu com semáforos, de Ery Claver e Greta Marín, e o longa  Ar Condicionado, de Fradique; e o filme encerramento, o curta Deusa toda poderosa (BlackStar), de Chelsea Odufu.

Os dois filmes da Geração 80 impressionam. Muito

Acompanhar as desventuras de Lúcia a partir de uma estética acachapante, em que a o verbo se faz sujeito para não apenas narrar a saga de sua protagonista, mas registrar seus estados de violência sofridas, é como um cravar na carne em punhal sem fundo e sem fim. A cada silêncio aparente, mas de gritos profundos até aqueles de fato, o filme Lúcia no céu com semáforos (2018) se faz como se a denunciar e propagar eco de corpas silenciadas. 

Ar Condicionado (2020) é daqueles filmes que nos pegam pela mão desde o primeiro frame. E aqui o pegar pela mão é literal, pois caberá a quem está do lado de cá estender não a mão, mas todo o corpo, ou recusar o convite. Matacedo e Zezinha ultrapassam qualquer fronteira e alçam a uma condição não mais de personagens, mas de pessoas que parecem ser do circulo da gente, da casa da gente, do mundo da gente. Não o círculo, a casa e o mundo em que chegamos, mas aqueles que construímos e nos quais nos reconhecemos. Aquela Luanda, aquela Angola, em que aparelhos de ar condicionado se  espatifam no chão em meio à vida da cidade e à vida de um vigia e de uma empregada doméstica nos diz não só sobre ancestralidade e modernidade, memória e corrupção e desatino humano. Nos diz de dor. E nos diz também de arrebatamento e de sonho de repouso de guerreiro, como na cabeça pendida e nos olhos fechados de Matacebo na janela do carro em movimento, imagem cinematográfica que vale todo o Cinema.

Como já dito anteriormente, o espaço de registro histórico aqui é para o cinema brasileiro, mas, também voltamos a dizer, tornou-se impossível não dizer essas linhas sobre esses filmes-irmãos, pois, na verdade, são daqui também. E também por isso a imagem da cena de Matacebo ilustrando a matéria.

O Nicho Novembro 2 exibiu cinco filmes brasileiros, 2 longas e 3 curtas.

- Cavalo, de  Rafhael Barbosa e Werner Salles Bagetti
- Dorivando saravá, o preto que virou mar, de  Henrique Dantas
- Receita de Caranguejo, de Issis Valenzuela
- Tudo que é apertado rasga, de Fábio Rodrigues Filho
- Ruim é ter que trabalhar, de Lincoln Péricles

O site Mulheres do Cinema Brasileiro já tinha assistido aos longas Cavalo e Dorivando saravá, o preto que virou mar, e ao curta Receita de Carangueijo - os textos podem ser conferidos, respectivamente,  na cobertura do 9o. Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba, 15a Cineop - Mostra de Cinema de Ouro Preto, e 48o. Festival de Cinema de Gramado - menu Acontece/Coberturas.

Na programação do Nicho Novembro 2, então, o Mulheres do cinema Brasileiro conferiu os curtas Tudo que é apertado rasga (2019), de Fábio Rodrigues Filho, e Ruim é ter que trabalhar (2015), de Lincoln Péricles.

Em Tudo que é apertado rasga, Fábio Rodrigues Filho utiliza de material de arquivo para fazer um mergulho sobre a presença e a representatividade de negras e negros no cinema brasileiro, seja a partir das falas de atores e atrizes, seja da imagens de personagens em tramas diversas da filmografia do cinema brasileiro.

Estão lá nomes fundamentais como Ruth de Souza, Léa Garcia e Zezé Motta, assim como Grande Otelo, Zózimo Bulbul e Antonio Pitanga. A montagem faz cortes profundos a sinalizar um estado de coisas permanente, como a sequência da mesma fala de Zezé Motta em várias entrevistas e em momentos diferentes como a desnudar e evidenciar essa condição.

Se o filme, evidenciado em seu título, aposta no rasgo como possibilidade de busca por justiça, não mais só pelo caminho da reparação, mas pelo enfrentamento indesviável, todas aquelas imagens, aquelas caras e aqueles corpos evidenciam esse caminhar.

Ruim é ter que trabalhar é mais um filme urgente de Lincoln Péricles, cineasta que vem construindo e apresentando um cinema à fórceps da pele. Realizado em 2015, o curta  coloca em cena, a fala e o trabalho de um operário nas obras da Copa do Mundo no Brasil.

O p&b da fotografia presente em vários filmes muitas vezes não passa de escolha estética de perfumaria ou de evidente registro saudosista. Aqui, em Ruim é ter que trabalhar, ele compõe perfeito 3x4 da geografia que focaliza. Há no relato do operário, e  em falas como "esse trabalho é o que me coube fazer", uma precisão tão grande, que, do lado de cá, a gente não só reconhece a fala como ele próprio.

Exploração, precariedade, alijamento, injustiça social, apagamento, exclusão. Em apenas 10 minutos, Péricles coloca em cena toda a predatória luta de classes que faz do Brasil ser esse fracasso enquanto nação. E como o brasileiro é um povo órfão e abandonado à própria sorte, como um crônica não só anunciada, mas projetada, a apagar e a desaparecer com seus corpos e suas existências

Não à tôa o Nicho Novembro 2 encerrou o festival com o ótimo curta Deusa toda poderosa (BlackStar), produção americana de 2020, dirigida por Chelsea Odufu.

Nessa deliciosa e imagética ficção afro-científica, se o ano é de 2040 e se Deus é, na verdade, uma mulher negra, o fato incontornável é: chegou o dia do Juízo Final.

E apropriadores, preparem-se, pois o dia de vocês pagarem chegou!
E vocês nem vão ter tempo de se arrependerem por ter levantado o açoite, o punhal e o canhão pra cima de nós.


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Nicho Novembro 2
De 9 a 15 de novembro de 2020 
Programação completa e exibição - nichonovembro.com.br

Concepção: Fernanda Lomba, Heitor Augusto, Raul Perez (Nicho 54)
Curadoria – Mostra de Filmes: Heitor Augusto
Produção executiva: Fernanda Lomba
Coordenação de programação: Karen Almeida
Coordenação de comunicação: Mariana John
Identidade visual e design: Lucas de Brito
Tradução e legendagem (filmes): Bruna Barros, Heitor Augusto, Juan Rodrigues
Tradução simultânea (painéis): Henrique Cotrim, Pedro Ribeiro Nogueira
Suporte técnico | Lives: Marian Nunes
Estrutura de transmissão de Lives: Compasso Coolab

A plataforma de streaming do Nicho Novembro 2020 – Mostra de Filmes foi construída pela QUANTA, à qual o Nicho 54 vivamente pela parceria.

Direção de tecnologia: Hugo Gurgel, Diogo Costa Pinto, Tieres Tavares
Desenvolvimento do site: Mandelbrot
Programação: Andrei Thomaz, Marcos Marcelo, Vitor Andrioli
Revisão: Maíra Corrêa Machado


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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior