Ano 17

9 Olhar de Cinema - Especial e Premiado

Cena de Luz nos Trópicos (2020), dirigido por Paula Gaitán
O 9o. Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba, que aconteceu de 7 a 15 de outubro, apresentou várias mostras de curtas e longas, entre elas a Exibições Especiais e a Competitiva Longas.

Na Mostra Exibições Especiais, o longa brasileiro exibido, ao lado do chileno O Tango do viúvo e seu espelho deformador, de Raul Ruiz, foi Nardjes A. (Argélia/França/Alemanha/Brasil/Catar, 2020, 80 min), de Karim Aïnouz.

Karim Aïnouz é um dos mais importantes cineastas brasileiros de sua geração e realizou filmes impactantes como Madame Satã (2002), O Céu de Suely (2006), Praia do Futuro (2014), e A Vida Invisível (2019). Nardjes A. é uma coprodução Argélia, França, Alemanha, Brasil e Catar, e é bem diferente dos demais filmes citados, assim como outros de sua filmografia. Aqui, um documentário político, ainda que em suas ficções a questão política permeia sempre em sentido mais amplo.

Segundo apresentação do filme, Nardjes A. aconteceu de forma não diretamente planejada, já que o cineasta visitou a terra natal de sua família paterna para um filme autobiográfico e acabou atropelado pelas manifestações políticas que efervesciam no momento contra o governo local. Como se sabe, a Argélia era uma colônia da França até 1962, e depois da independência passou por governos autoritários e contrários aos desejos daqueles que lutaram pela independência.

O filme cola, literalmente, nas andanças da protagonista Nardjes, uma militante que sai à ruas para se juntar à multidão, em manifestações que acontecem toda semana, e aqui no Dia Internacional da Mulher, em protesto contra a tentativa de reeleição do Presidente. A câmera segue sua protagonista durante 24 horas, antes, durante e depois da manifestação, registrando assim a luta coletiva, mas também as inquietações individuais da personagem.

Se Nardjes A. seduz infinitamente menos que outros filmes de Karim, há de se ressaltar que, mais uma vez, o cineasta coloca as mulheres no centro de foco de seu cinema, como fez em Madame, O Céu e A Vida Invisível. Se, muitas vezes, estranhamos a urbe, com um tom nacionalista que assusta um pouco, é interessante ver como mesmo esse nacionalismo reverbera em Nardjes.

E é quando a escutamos, sobretudo na relação com a família e o papel que, aparentemente, pensa estar reservado a si pelo histórico de militância do clã - "é um papel da nossa geração", diz ela - , que o filme, pelas frestas, lança questões que podem reverberar, inclusive, com o que se passa no Brasil e em outros países do mundo assolados pela extrema-direita e pelo fascismo.

Em Nardjes A. o foco está na personagem, mas também na força desse contexto imediato, e, talvez por isso, nos interessamos menos pelas questões existenciais dela, como nas de Suely ou das personagens de A Vida Invisível, por exemplo. Dessa forma, o filme não alcança o patamar dos demais da obra de Karim, ainda que pulse e faz com que o acompanhemos também em estado de atenção.

Luz nos Trópicos (Brasil, 2020, 260 min.) de Paula Gaitan, é filme brasileiro que participou da Mostra Competitiva ao lado de Entre Nós Talvez Estejam Multidões (Brasil, 2020, 99 min.) de Pedro Maia de Brito, Aiano Bemfica, e acabou saindo o vencedor do 9o. Olhar de Cinema.

Produção com 260 minutos, ou seja, 4h20 de duração, Luz nos Trópicos é projeto ambicioso da cineasta Paula Gaitán, que já apresentou filmes de grande impacto como  Diário de Sintra (2008), Vida (2008/11), Exilados do Vulcão (2013) e Noite.

Segundo a produção, Luz nos Trópicos é um mergulho nas memórias das Américas. Em cena, acompanhamos personagens que se deslocam, como o de um jovem que busca sua ancestralidade indígena. O filme tem locações na América do Norte e na América do Sul, com cenas em Nova Iorque e no Pantanal.

Há também personagens de uma expedição europeia, mas é exatamente na primeira parte de Kuikuro (Begê Muniz) que está o melhor do filme, ainda que todo ele seja grandioso em imagens, nítida assinatura de artes plásticas de Gaitán, que amplifica  ainda mais essa imagética a partir de planos elaboradíssimos.

Na troupe dos europeus estão atores como Clara Choveaux, Arrigo Barnabé, Carloto Cotta e Daniel Passi. E a cineasta os filma em planos abertos que exploram a beleza impactante da natureza, como a compor quadros vivos, ressaltando aí a persona especialmente cinematográfica de Clara Choveaux, que já tinha iluminado o cinema de Paula Gaitán em Exilados do Vulcão e, sobretudo, no experimental e acachapante Noite.

Luz nos Trópicos parece querer refazer uma trajetória, que vai da invasão ao retorno às origens fundadoras, como possibilidades de caminhos. É como retrato vivo de uma nação, e de um povo, que sangra em dor, desalento e desorientação.


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Serviço
9º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba
De 7 a 15 de outubro - filmes exibidos e programação completa no 
site olhardecinema. com.br
Ingresso: R$ 5 por filme

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior