Ano 17

9 Olhar de Cinema - Olhares Brasil Longas

Cena de Cavalo (2020), de Rafhael Barbosa e Werner Salles Bagetti
A Mostra Olhares Brasil do 9o. Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba - de 7 a 15 de outubro de 2020 - ,é formada por curtas e longas que já circularam em outros festivais. O site Mulheres do Cinema Brasileiro aborda agora a programação de longas desse recorte.

A Mostra Olhares Brasil longas é formada por sete filmes: 

Um Animal Amarelo (Brasil/Portugal/Moçambique, 2020, 115 min.), de Felipe Bragança
Cabeça de Nêgo (Brasil, 2020, 86 min.), de Déo Cardoso 
Canto dos Ossos (Brasil, 2020, 89 min.), de Jorge Polo e Petrus de Bairros
Cavalo (Brasil, 2020, 85 min.), de Rafhael Barbosa e Werner Salles Bagetti
Fakir (Brasil, 2019, 92 min.), de Helena Ignez
Sertânia (Brasil, 2019, 97 min.), de Geraldo Sarno
Yãmiyhex: as mulheres-espírito (Brasil, 2020, 76 min.), da Associação Filmes de Quintal

O Mulheres do Cinema Brasileiro já tinha assistido a cinco filmes da seleção em outros festivais, e, por isso, cobriu os dois títulos que faltavam: Cavalo, de Rafhael Barbosa e Werner Salles Bagetti, e Fakir, de Helena Ignez.

Cavalo é produção alagoana, com roteiro assinado pelo diretores.  O filme coloca em cena sete artistas negros, que vamos acompanhando em seus processos criativos, assim como também em suas individualidades. Se no palco o coletivo se impõe, com a força de alguns solos, em seus recortes individuais vemos a propagação do que é mostrado em conjunto nas vidas de cada um deles.

Todas e todos são negros, e com isso temas e abordagens como ancestralidade, rituais e manifestações de matriz africana não configuram-se em imaginários construídos para a cena, mas são elementos intrinsecos à formação, expressão e afirmação de suas identidades.

Se o roteiro dá conta de espectro grande, como é o de acompanhar todos aqueles personagens, a direção  acerta ao compor planos fortes que, mais que registrar as manifestações performáticas ou vivências cotidianas, configuram-se em estética poderosa e orgânica com o que se descortina à sua frente.

As subjetividades dos artistas, seja nas consultas aos búzios, no derramamento emocional e aconchego no colo da mãe, ou ainda nos movimentos do hip hop em afirmação de identidade, assim como os processos artístico individuais e coletivos, integram-se e se conjugam, sem que uma esfera se sobreponha, anule ou exacerba a outra.

Cavalo está cheio de cenas impactantes, como a dançarina na água e o dançarino na chuva, quando os cavalos realmente se agigantam e toda a cultura de um povo, o negro, irrompe em todo o seu vigor e esplendor de cultura fundante.

Fakir é mais um notável filme dirigido por Helena Ignez, também atriz, que aqui se faz como narradora, com seu timbre de acento e intenções inconfundíveis e que projetam em significados e significantes ainda mais a narrativa que constroi.

Como identificado pelo título, o filme é sobre esse personagem icónico dos circos, feiras, cinemas e teatros que seduziam multidões, cujo auge se deu nas décadas de 1920 a 1950. Fakir vai apresentando vários homens e mulheres que praticaram a modalidade e quebraram recordes, passando dias e dias sem comer, deitados em cama de pregos, cercados de serpentes, fechados em urnas de vidro, e acompanhados pelo público, formado de populares a autoridades.

O roteiro, também de Ignez, é hábil em traçar todo esse panorama e abordar vários personagens, pois vai intercalando histórias sedutoras da época, a partir dos materiais de arquivo e de informações sobre a vida pública e privada de seus protagonistas.

Há, em Fakir, um protagonismo dado às mulheres, que enfrentavam, ainda, os percalços sociais e morais de seu tempo. Ao lado de nomes míticos como Silk e Lookan, fakiresas como Rossana, Susy King, Yone, Mara, Verinha, Sandra e Malba ganham lente ampliada e legítima, não só trazendo seus nomes à luz, como também  feito no livro "Cravo na Carne", de Alberto de Oliveira e Alberto Camarero, uma das inspirações da cineasta, como também por protagonizarem ótimas, e muitas vezes trágicas, histórias.

Outra mulher importante e artista libertária que também vai para o centro da cena é a não menos mítica Luz del Fuego, adepta das apresentações artísticas dançando com serpentes e que se tornou uma das mulheres referenciais no Brasil.

Além dos materiais de arquivos, como filmes, fotos, matérias de jornais e revistas, depoimentos, Fakir apresenta também cenas atuais, como as encenadas com alguns personagens da época em performances imagéticas. O resultado é uma abordagem sobre universo ímpar e impregnado de toda a autoralidade  de sua cineasta.


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Serviço
9º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba
De 7 a 15 de outubro - filmes exibidos e programação completa no 
site olhardecinema. com.br
Ingresso: R$ 5 por filme

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior