Ano 17

9 Olhar de Cinema-Mostra Outros Olhares Curta

Mariah Teixeira em cena de Rafameia (2020), de Mariah Teixeira e Nanda Félix
O 9o. Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba, desde o último dia 7 de outubro de 2020 - e vai até o dia 15, está apresentando, virtualmente, uma programação de longas e curtas formada por 78 filmes. Um dos recortes é a Mostra Outros Olhares, que no cinema brasileiro é formada por três longas e três curtas.

O Site Mulheres do Cinema conferiu os três filmes de curta-metragem:  Manual do Zueiro Sem Noção (Brasil, 16 min.) de Joacelio Batista; Memby (Brasil, 15 min.) de Rafael Castanheira Parrode; e Rafameia (Brasil, 24 min.) de Mariah Teixeira, Nanda Felix.

Memby,  dirigido por Rafael Castanheira Parrode, é filme experimental que, a partir de imagens que vão se formando ou se desintegrando, tece todo um imaginário sensorial ainda a se formar, mas como se estivesse sempre lá, talvez na memória ou em estados fugidios de percepção.

Manual do Zueiro Sem Noção, dirigido por Joacelio Batista, coloca em cena dois garotos aparentemente encenando brincadeiras, mas com um discurso incrustado de questões políticas e sociais em jogo de fricção entre palavras, ações e provocações.

O grande destaque da seleção é Rafameia , de Mariah Teixeira e Nanda Felix. Protagonizado por Mariah, que também é atriz, o filme fala não só da violência, como, e sobretudo, da opressão contínua e cotidiana que as mulheres enfrentam nas mais variadas situações.

Carmen já começa o filme sendo assediada pelo entregador da máquina de lavar que comprou. O que poderia ser  apenas mais um episódio comum nesse tipo de prestação de serviço, como os famosos pedidos para o cafezinho, toma outras proporções num crescendo aparentemente incontrolável. E em poucos minutos, ela não é só assediada, como veladamente ameaçada. 

O roteiro e a direção, já nesse primeiro acontecimento, funciona tão bem, que fica nítido a vulnerabilidade do corpo da protagonista, sensação angustiante  que vai se instalando, e que a interpretação de Mariah, entre medo, susto, indignação  e enfrentamento, dá a medida exata para aquele estado opressor.

Em conversa telefônica com a mãe, que aconselha a ter cuidado ao sair sozinha na rua devido ao estado de violência extrema que atingiu as cidades, vemos Carmen, cada vez mais,  sentindo-se ameaçada frente aos acontecimentos que a rodeiam. E ao cruzar com outras mulheres, entre elas uma criança, ela constatará que nada pode ser mesmo o que aparenta, e daí já vemos o pavor num crescendo tomar conta de si e de seu corpo.

Em tempos crescentes de feminicídio e de misoginia, o filme acerta o tom ao retratar toda a tensão da personagem central, que tem que redobrar o autocuidado para não se tornar uma possível vítima de abuso, violência e mesmo morte, assim como tantas outras mulheres.

A sinopse do filme já lança a questão: "Quais os limites que um corpo feminino precisa evocar cotidianamente?". Durante os 24 minutos de duração do filme, constatamos que as diretoras, a partir dos acertos do roteiro e da direção, nunca se desviam de seu intento e propõem em Rafameia um retrato 3x4 inquietante de uma das questões mais urgentes da atualidade, que é a violência contra a mulher. 

Mariah Teixeira chamou, merecidamente, toda a atenção ao atuar em Baixio das Bestas(2006), dirigido por Cláudio Assis, como a adolescente que era explorada sexualmente pelo avô. De lá para cá intensificou a carreira como atriz, e também com diretora. 

Rafameia é, desde já, capítulo de destaque nesses seus 15 anos de trajetória, como de  sua parceira na direção, Nanda Félix, que também assina o roteiro.


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Serviço
9º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba
De 7 a 15 de outubro - filmes exibidos e programação completa no 
site olhardecinema. com.br
Ingresso: R$ 5 por filme

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior