Ano 17

9 Olhar de Cinema - Olhares Brasil curtas

Cena de A morte branca do feiticeiro negro (2020), de Rodrigo Ribeiro
O 9o. Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba está exibindo, de 7 a 15 de outubro de 2020, 78 filmes, entre curtas e longas, e em várias mostras temáticas O Mulheres do Cinema Brasileiro já conferiu os curtas da Mostra Olhares Brasil, formada por sete filmes,

A Mostra Olhares Brasil, seja no recorte longas ou curtas, é formada por filmes que já circularam por outros festivais. Dessa forma, o Mulheres já tinha visto dois curtas: o belo Inabitável (Brasil, 2020, 20 min.), de Matheus Farias e Enock Carvalho, que recebeu recentemente o prêmio de Melhor Atriz para Luciana Souza, no 48o. Festival de Cinema de Gramado; e o também ótimo Minha História É Outra (Brasil, 2019, 22 min.), de Mariana Campos, na recente  8a. Mostra de Tiradentes SP.

Agora, no Olhar de Cinema, foi a vez de assistir a cinco curtas:  Enraizadas (Brasil, 2019, 14 min.), de Juliana Nascimento e Gabriele Roza; Mãtãnãg, a Encantada (Brasil, 2019, 14 min.), de Shawari Maxacali e Charles Bicalho; A Morte Branca do Feiticeiro Negro (Brasil, 2020, 10 min.), de Rodrigo Ribeiro; Os Últimos Românticos do Mundo (Brasil, 2020, 23 min.), de Henrique Arruda; O verbo se fez carne (Brasil, 2019, 6 min.), de Ziel Karapotó.

A Morte Branca do Feiticeiro Negro, de Rodrigo Ribeiro, é, sem dúvida, o filme mais acachapante não só da Mostra como também da recente produção brasileira, e não só de curtas.

O filme abre sua lente já nos indicando o caminho ao apresentar a definição do termo banzo, sentimento de tristeza profunda e encravada na alma que acometia pela diáspora os negros e negras escravizadas, ainda que esse caminhar  durante os 10 minutos do filme vai nos impor uma suspensão cada vez mais crescente de dor dilacerante.

Timóteo é negro escravizado no Brasil Colônia que se suicidou, deixando uma carta em que expressa o seu sentimento pela vida que leva em um mundo tenebroso a que não pertence, nunca quis e nem quer mais pertencer. Sua dolorosa despedida  também compõe um retrato vívido em sangue de outras tantas mulheres, homens, velhos e crianças negras assoladas e vilipendiadas pelo regime escravagista e o projeto de genocídio e de invisibilização a que o Brasil impôs sobre eles, sobre a diáspora, e continua fazendo até hoje com o povo negro.

O filme, que parte e retorna para o a entrada do quarto escuro em que Timóteo viveu em Salvador, vai compondo sua teia a partir de inúmeras imagens de arquivo, extratos de filmes e fotografias, a compor um álbum que traduz e eterniza aquele banzo, aquele homem, todo aquele povo, e que nos angustia e dilacera.

Filmes que usam e manipulam material de arquivo podem ser uma armadilha, pois além de, muitas vezes, ficarem reféns desse material, que sobressalta mais que o filme, ainda é habitual o uso de narração, o que também pode ser um desastre, já que é um dos recursos mais difíceis no cinema, ainda que possa parecer ilusoriamente simples e tábua de salvação.

Em A morte branca do feiticeiro negro isso não acontece em um momento sequer. O roteiro, a direção e a montagem acertam em cheio na construção do mostrado, fazendo com que, além do arrebatamento das imagens de arquivo, os planos e as escolhas compõem, fotograma por fotograma, cinema de altíssima cepa.

E como o texto narrado é a própria carta de Timóteo, A morte branca do feiticeiro negro acerta ainda mais ao ecoar aquela e tantas vozes silenciadas, dando visibilidade ao homem e à face mais cruel da história do país.


Enraizadas, de Juliana Nascimento e Gabriele Roza, traz para a cena também a cultura negra, aqui também a partir de sua afirmação e resistência. Mulheres negras de várias gerações vão apresentando  a cultura do trançamento de cabelo, que para além da estética em cabelos de mulheres e homens, configura-se como perpetuação da ancestralidade.

O filme, que  é todo centrado nesses depoimentos e nos resultados da prática artesanal e verdadeiramente artística, vai revelando também a realidade daquelas mulheres, de seus olhares sobre si e sobre a vida, ao mesmo tempo em que um retrato 3x4 de identidade e de afirmação dela vai se materializando.

Em  Mãtãnãg, a Encantada, de Shawari Maxacali e Charles Bicalho, temos outro filme de afirmação, dessa vez sobre a cultura índigena e dos mitos fundadores dos povos originários, aqui sobre história dos Maxacali.

Animação sedutora e de beleza que se impõe quadro a quadro, o filme faz um mergulho profundo no papel fundante do mundo dos espíritos para a cultura e o povo indígena, a partir da relação da viúva com seu marido, um guerreiro morto por picada de cobra. Ao refazer o caminho dele, ela não só redimensiona a sua vida como também reafirma a de todo o seu povo.

Em O verbo se fez carne, de Ziel Karapotó., a cultura indígena também está no centro da ação, dessa vez a partir do projeto de genocídio praticado pela colonização, não só daquele povo, mas também de toda a sua cultura.

A partir da performatividade, o filme apresenta, em impressionantes 6 minutos, todo um ritual em que essa história de sangue, violência e extermínio nos é apresentada, ao mesmo tempo em que fica claro, na mesma medida, que a resistência e a afirmação dessa cultura originária persistirão, custe o que custar.

Os Últimos Românticos do Mundo, de Henrique Arruda, também é um filme de afirmação, aqui do povo e da cultura LGBTQI, a partir de um registro estético que se utiliza dos clichês desse universo, mas os redimensiona.

A cena é o fim do mundo, em que cada um terá que se a ver não só com os sentimentos advindos pelo fim eminente de sua existência, como também a constatação sobre o que fizeram de suas vidas. Aqui, na história de dois homens apaixonados e suas vivências com o mundo glitter das boates e seus personagens, com a família, como também entre si e seus lugares no mundo. Com bom uso de trilha de sonora e da direção de arte, Os últimos românticos do mundo apostam não só no amor como última centelha de vida, como também como o única possível manifesto de enfrentamento ao mundo que, continuamente, se destrói em nossa volta e por causa de nós.


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Serviço
9º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba
De 7 a 15 de outubro - filmes exibidos e programação completa no 
site olhardecinema. com.br
Ingresso: R$ 5 por filme

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior