Ano 17

48 Festival de Gramado - Longas 6

Andrade Junior arrebatador em cena de King Kong en Assunción (2020), dirigido por Camilo Cavalcante
O 48o. Festival de Cinema de Gramado deixou para o último dia de exibição dos longas brasileiros em competição ao prêmio Kikito do 48o. Festival de Cinema de Gramado um de seus mais fortes concorrentes: King Kong en Assunción (2020), dirigido por Camilo Cavalcante.

Desde a primeira cena deste King Kong en Assunción que um dilema moral se impõe de imediato: Como se identificar com um matador de aluguel?

Dito, isso, dos longas brasileiros é, com certeza, o favorito para o prêmio de Melhor Ator, pois não há páreo para mais ninguém com a excepcional entrega e avassaladora interpretação de Andrade Junior.

A citada primeira cena, de uma execução em pleno deserto, já apresenta, metaforicamente, tanto a amplidão dos cenários pelos quais seu personagem vai transitar, como também todo um universo em ebulição que o habita, marcado por tragédias, fantasmas, perdas e abandonos.

O Velho, personagem sem nome para além de como é chamado, é um matador de aluguel sem limites para o seu ofício: executa homens e mulheres, jovens e velhos, e até mesmo crianças. E estão na mira de sua arma, desde políticos à lideranças indígenas e sindicais. Não há distinção, é como se de uma fome insaciável.

Mas aí o Velho reencontra com personagem de seu remotíssimo passado, ainda da juventude, descobre que a mulher que amou e abandonou está doente e tem uma filha sua. Ele então resolve fazer um último trabalho e com o pagamento partir em busca do encontro com sua história.

O cineasta pernambucano Camilo Cavalcante já tinha chamado atenção com seu longa de ficção anterior, A história da eternidade (2014). Em King Long en Assunción, ele constrói  universo e uma imagética em que seu personagem não só transita, mas incorpora e vivencia em suor, poeira e sangue.

O filme se situa, como também seu protagonista, em cenários de imagens grandiosas como em monumentais locações dos faroestes, em uma geografia de veias abertas da América Latina. Dessa forma, Bolívia e Paraguai, em vilarejos e capital, com suas ruas de terra e barro e estradas, hotéis de beira de estrada e de luxo, e botecos copo sujos e inferninhos, formam uma teia pela qual o personagem se enreda e vai de desvencilhando a seu modo para refazer seu caminho.

O Velho é acompanhado o tempo inteiro por uma voz, que, em guarani, vai comentando não só sobre ele e seu estado, como também, em recurso ótimo do roteiro, vai narrando o destino final de alguns outros personagens que o Velho vai encontrando. Daí, ao mesmo tempo em que vivenciamos o presente deles, vamos sabendo também sendo informados, e sem que eles saibam, qual serão os seus destinos.

Além da atuação de seu protagonista, King Kong en Assunción tem ponto alto na trilha sonora, a original, a cargo de Shaman Herrera, e a adaptada. Uma das mais fortes cenas é o deslocamento automotivo numa BMW do protagonista ao som do hit icônico setentista do grupo Pholhas, She made me cry,

Como dito, o dilema moral se instala. Ainda que O Velho é tão magistralmente encarnado por Andrade Junior - ator falecido no ano passado -, que jamais, e em momento algum, deixamos de nos interessar pelo seu caminho e pelo seu caminhar. 

E nem é por motivo apresentado em flashback que teria forjado a sua personalidade e sua raiva incontida - que ainda assim continuaria injustificável -, mas por ele ser mesmo um personagem vulcão com ramificações assustadoramente desconcertantes.

E também porque Kink Kong em Assunción é mesmo um filme que impressiona.

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48o. Festival de Cinema de Gramado
De 17 a 26 de setembro de 2020 - exibição no Canal Brasil e nas redes sociais
Programação completo - festivaldegramado.net


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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior