Ano 17

48 Festival de Gramado - Curtas 7

Isabela Catão em cena de O barco e o rio (2020), dirigido por Bernardo Ale Abinader
Quinta, 24, foi o último dia de exibição dos filmes concorrentes ao prêmio Kikito do 48o. Festival de Cinema de Gramado, e na seleção de curtas foram apresentadas duas produções, , como nas outras noites.

Trincheira (2020) é uma produção de Alagoas de 14'40" de duração, dirigida por Paulo Silver. Em cena o garoto Gabriel (Gabriel Nunes Xavier) , que a partir de uma realidade dura transforma o real em um mundo possível para si.

Gabriel perambula pelo aterro de lixo, de onde avista um outro mundo inacessível. Daí, vai montando aos poucos o seu lugar no mundo a partir do que encontra nos despejos. A cada nova descoberta, o seu entorno, e onde se refugia, vai se transformando com as cores de um real ressignificado.

Se toda criança é fonte da fantasia, por vezes a realidade em que vivem é tão desoladora, que para elas esse universo não é mais só refúgio ou espaço para vivenciamento daquele mundo, é também a única alternativa possível. Mesmo porque, como nos Coríntios, é como se antevisse, intuitivamente, em um futuro em que cada vez mais teria que se haver com um real ainda mais instalado em detrimentos do sonhos.

"Quando eu era criança, pensava como menino, sentia e falava como menino. Quando cheguei à idade adulta deixei para trás as atitudes próprias das crianças"

Gabriel vai construindo seu mundo, e sua história, a partir de pedaços que não servem mais aqueles do outro mundo  que vê, quer se reconhecer e pertencer, mas não encontra espaço. E quando, por fim, lhe tiram até isso, a saída pode ser mesmo se armar com as armas de Jorge, adentrar ainda mais radicalmente ao mundo fantástico e enfrentar seus inimigos.

Trincheira é belo filme, em que, mais ainda que abordar o papel da fantasia e do fantástico na vida de uma criança, compõe, a partir de belo roteiro e direção, uma possibilidade de saída e de enfretamento para a sobrevivência.

O barco e o rio (2020), dirigido por Bernardo Ale Abinader, é uma produção do Amazonas com  17'12" de duração. É um filme de mulheres, a partir da história e do embate entre duas irmãs que moram em um barco ancorado no porto.

A mais velha, Vera (Isabela Catão), é evangélica. Encara a vida que é possível viver aparentemente com resignação e contrição, ainda que arda em desejo, e se  sinta seduzida pela vaidade que afasta como  se pecado fosse. Josi, a mais nova, é revoltada com a condição de vida que levam, diverte-se com homens e cachaça nas noitadas, e busca outros caminhos para sua vida.

O filme  faz o confronto entre o estar no mundo entre essas duas irmãs, como em um espelho em que ambas se reconhecem e se repelem. E se para uma a liberdade sonhada pode lhe exigir um preço alto, a outra tenta aprender a refazer esse caminho e esse caminhar.

Bernardo Ale Abinader não só dirige como também assina o roteiro desse O barco e o rio. E um dos grandes méritos do filme, além das interpretações de suas atrizes, é a forma como materializa, a partir dos planos elaborados do filme, as ideias e as possibilidades de sua história.

Se a realidade dura das irmãs quer limitar suas vidas, inclusive a partir do confinamento do espaço físico em que vivem, o olhar do cineasta e roteirista vai construindo aos poucos, para cada uma delas, saídas e amplitudes, mesmo que carregadas de medo e de dor.


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48o. Festival de Cinema de Gramado
De 17 a 26 de setembro de 2020 - exibição no Canal Brasil e nas redes sociais
Programação completa - festivaldegramado.net

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior