Ano 17

48 Festival de Gramado - Longas 5

Cena de Me chama que eu vou (2020), de Joana Mariani
O documentário Me chama que eu vou, produção paulista dirigida por Joana Mariani, foi o longa concorrente exibido na quarta, 23, na programação do 48o. Festival de Cinema de Gramado.

Me chama que eu vou é filme que focaliza o cantor Sidney Magal, ídolo popular na década de 1970 que vendeu muitos discos, emplacou hits, bateu ponto em programas de várias emissoras, e esquentou a libido com sua persona explosiva.

Grande parte dos últimos documentários musicais explorou e esgotou o formato de colocar no centro da cena o objeto focado e de ponta a ponta colegas e especialistas em depoimentos - Nelson Motta então parecia que pulava  de um set para outro. Com isso, víamos o artista e os depoentes quase que na função de legitimá-lo, pois controvérsias muitas vezes desapareciam.

Alguns documentários, como o recentíssimo sobre Alcione apresentado nessa mesma edição do Festival de Gramado, O samba é primo do jazz, restringiu esses depoimentos só ao núcleo familiar e mais o maestro da artista e só - outros depoimentos só em material de arquivo.

Esse Me chama que eu vou radicalizou mais ainda, pois deu voz só ao artista, Sidney Magal, e sua família - para além do material de arquivo. Alcione, ainda que involuntariamente foi confrontada, como quando a diretora pergunta se ela "ainda" esperava um amor, quando a sagaz cantora de supetão lhe devolve a pergunta "Por que o ainda? - mas aí também, nas falas de terceiros, as irmãs, o tom é de exaltação..

Pela sua escolha, a diretora  Joana Mariani ficou nas mãos de Sidney Magal, ídolo popular incontestável de sua época quando parecia só querer saber dos seus 20 e poucos anos, e personagem sedutor, carismático, inteligente e saborosíssimo ainda hoje aos 70 anos. Ou seja, praticamente só ouvimos o próprio artista falando sobre sua vida e carreira sem contestação para a sua narrativa. Além dele, há de ressaltar também a presença de sua bela esposa Magali West, paixão fulminante do artista no auge da fama, e o filho afetuoso.

Nada disso embaça o prazer de assistir ao filme, pois Me chama que eu vou é divertido, delicioso de ver, e com amplo material de arquivo. Mas em termos de possibilidades para lançar outros olhares para o personagem fica limitado, cabendo a isso só as intervenções dos seus entrevistadores e apresentadores de programa da época ou pelas manchetes de jornais e revistas.

Esteticamente, Me chama que eu vou é muito atraente, pois explora todo o colorido e a extravagância da latinidade com a qual Magal construiu sua persona artística, compondo um registro fiel daquele universo. Um artista que viveu altos e baixos, nascimento e renascimento, diferente de outros colegas da mesma seara que "sumiram" dos holofotes e também dos palcos, ainda que permaneceram eternizados no imaginário popular

Sidney Magal dá testemunhos ótimos, um de destaque é quando confrontado por seu divulgador à época do auge do sucesso, Roberto Livi, incomodado com a jovem esposa  Magali no estúdio alheia ao que acontecia ao redor, como se ela tivesse que estar extasiada frente ao marido artista e Magal  retruca: "Deixa ela, ela é o que ela quiser ser".

Articulado, afetuoso e totalmente sedutor, Sidney Magal conta histórias ótimas e se expressa com sinceridade. Do lado de cá, a gente fica totalmente em suas mãos, já que assim parece também querer, não só ele, mas também o filme.


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48o. Festival de Cinema de Gramado
De 17 a 26 de setembro de 2020 - exibição no Canal Brasil e nas redes sociais
Programação completa - festivaldegramado.net

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior