Ano 17

48 Festival de Gramado - Curtas 6

Cena de Remoinho (2020), de Tiago A. Neves
A produção da Paraíba e de São Paulo ocupou a sexta noite, na quarta, 23, de exibição dos curtas concorrentes ao prêmio Kikito do 48o. Festival de Cinema de Gramado.

Dirigido por Tiago A. Neves, Redemoinho (2020), da Paraíba, tem 12'27" de duração. Em cena, duas mulheres e uma criança, três gerações de uma família do sertão, em um reencontro a definir rotas de vida.

Maria, depois de anos sem dar notícias, retorna à casa da mãe com o filho a tiracolo. Ela jamais balbucia uma palavra, como a sinalizar que todo o vulcão em que vive no momento está submerso, mas prestes a explodir. Ainda no trajeto, ao jogar o chip do celular pela janela do ônibus, todo o entrecho da sua vida já se anuncia ali. Mais que não querer atender quem lhe procura, seu gesto anuncia rompimento sem volta.

Quando Maria chega, enfim, ao seu destino e avista a sua casa de família e a mãe à porta, seu olhar mais esconde que revela, ainda que sua angústia lateja. A mãe acalanta o neto, reclama a ausência longa da filha e avisa que todos os outros filhos a abandonaram. Maria escuta, mas permanece calada. Como também fica no reencontro com amiga dos tempos de outrora.

Maria se expressa mais claramente apenas duas vezes, quando revisita a murada de pedra da infância, como se a reconhecer em reflexo pretérito, e, sobretudo, quando dança na cozinha da casa da mãe, em gestos que culminam no corpo ao abandono - ficamos sabendo pelo relato da mãe que ela, inclusive, saiu de casa para ser artista. E quando, por fim, Maria está novamente no centro da cena, adivinhamos que, por fim, a erupção se deu.

Remoinho tem direção segura e, sobretudo amplia seu alcance pelas interpretações de Cely Faria, como Maria, e a veterana e esplêndida Zezita Matos como a mãe.

Você tem olhos tristes (2020), curta paulista de 17'50" dirigido por Diogo Leite é, com certeza, um dos belos destaques dessa edição do Festival de Gramado.

Daniel Veiga é Luan, entregador de aplicativo que, a bordo de sua bicicleta, não apenas faz o seu trabalho como está sujeito à mais variada gama de clientes desconhecidos e transitórios. E é nesse embate que, em princípio, seria apenas fugás, mas que vai tecendo um painel virulento de preconceitos, abusos de poder, racismo e luta de classes.

O grande acontecimento na vida de Luan no momento é o encontro com a namorada na casa da tia dela, ou seja, ele será formalmente apresentado à família. E é ali que ele vai vivenciar o que seria uma rotina no trabalho de embates frontalmente exasperantes, agora situado na esfera do afeto e indisfarçavelmente camuflado.

Você tem olhos tristes é muito bem dirigido, e o roteiro suscinto dá conta de apresentar situações completamente críveis e, mais que isso, registrar em cada fotograma as ressonâncias brutas na eipiderme, na alma, no corpo e no coração de seu personagem, como também do lado de cá quem nele se reconhece.

Além disso, o filme tem elenco orgânico e totalmente apropriado para o mostrado, em que Daniel Veiga consegue imprimir as emoções no personagem num crescente e cheios de nuances, e ainda uma Gilda Nomacce em estado de graça e em uma de suas melhores e mais dilacerantes atuações.

Você tem olhos tristes é uma porrada. E é também altivez e impactante e urgente estado de basta.


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48o. Festival de Cinema de Gramado 
De 17 a 26 de setembro de 2020 - exibição no Canal Brasil e nas redes sociais
Programação completa - festivaldegramado.net

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior