Ano 17

48 Festival de Gramado - Longas 4

Alcione em cena de O samba é primo do jazz (2020), de Angela Zoé
A música brasileira está presente na seleção de longas concorrentes do 48o Festival de Cinema de Gramado a partir de dois artistas populares: Alcione e Sidney Magal, respectivamente nos filmes O samba é primo do jazz (2020), de Angela Zoé, e Me chama que eu vou (2020), de Joana Mariani.

O samba é primo do jazz foi exibido no quarto dia de apresentação de longas nessa segunda, 21. Documentário carioca dirigido por Angela Zoé, o filme  aborda Alcione, cantora maranhense radicada há décadas no Rio de Janeiro, mas que se manteve reconhecida como referência no Brasil pelo dois estados.

Sim, porque se em solo carioca Alcione fez sua história profissional e se tornou, por exemplo, um dos símbolos da Mangueira, sempre jogou foco na terra natal seja cantando as músicas do Maranhão e seus compositores, como incorporando seus ritmos e seu universo de tradição marcados pelo Boi e pelo tambor de crioula, assim como também saudações para o reggae.

Alcione começou carreira no Rio cantando na noite, fator determinante a moldar sua persona artística a começar pelo domínio de repertório amplo. Filha de músico, aprendeu cedo a ler música e a tocar instrumentos de sopro, como o trompete. Com talento para o canto desde criança, selou seu destino ao substituir músico na banda do pai.

Já no Rio de Janeiro e se apresentado em boates como crooner, foi indicada por Jair Rodrigues para Roberto Menescal, então na Philips, que procurava uma sambista para concorrer com Clara Nunes e Beth Carvalho, que reinavam em outras gravadoras. Bom, a partir daí é história de sucesso desde aqueles anos 1970 até hoje.

O filme O samba é primo do jazz passa por tudo isso, ainda que não aborde fatos importantes. Por exemplo, como se deu sua parceria artística com Maria Bethânia, que, como muitos sabem, mas não todos, começou no arrasa-quarteirão disco "Álibi", da baiana, que convidou a maranhense, até então mais restrita ao universo do samba, para a praia da MPB. Nascia aí longa amizade e várias parcerias com uma fazendo participação em discos da outra. No filme Bethânia está, em belo registro de ensaio entre as duas, mas não há o contexto.

Ainda no material de arquivo, o filme recupera deliciosa entrevista dela para o imenso Grande Otelo, trecho de videoclip dela com Dorival Caymmi e Caetano Veloso, cenas de seu programa de TV "Alerta Geral" - com direito a duo com Beth Carvalho -, um caleidoscópio em vídeos de vários momentos nos mais diferentes programas e emissoras, e ainda um depoimento do apresentador Flávio Cavalcanti, em que ela fez história competindo em seu programa.

Por outro lado, o filme acerta ao fugir do padrão costumeiro de documentários musicais com depoimentos a torto e a direito de colegas e especialistas, centrando fogo na família de Alcione, notadamente nas três irmãs, como também um resgate de fala da mãe.

A partir desse recorte, O samba é primo do jazz aborda lado menos explorado da grande artista popular, o que contribui para revelar a mulher por trás da artista e as reverberações daí em sua música e carreira - as irmãs estão presentes, inclusive, como empresária e cantora de sua banda. 

Outro recorte interessante, ainda que ocupa boa parte dos 70 minutos de duração do filme e poderia ser menos, é Alcione no estúdio com seus músicos e maestro, em que se pode ver como ela conduz suas apresentações, seus shows, os arranjos e as escolhas de suas músicas. Detalhe a se observar é a expressão concentrada e de poucos sorrisos nesses momentos, uma outra face da pública costumeira.

Ainda assim, O Samba é primo do jazz poderia ter investido mais no que diz respeito à estética cinematográfica, pois, muitas vezes, em termos de imagens, fica na corda bamba beirando ao estilo making-off.

O título do filme, aliás, além de remeter a música gravada por ela, faz referência também à sua formação musical e sua paixão pelas vozes das divas do jaz, como conta ao ouvir pela primeira vez Ella Fitzgerald.

O samba é primo do jazz podia ser ainda mais cinema, mesmo que, pelo tamanho da artista focalizada e por escolhas de recortes do roteiro e da direção, mantenha o interesse renovado.


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48o. Festival de Cinema de Gramado
De 17 a 26 de setembro de 2020 - exibição no Canal Brasil e nas redes sociais
Programação completa - festivaldegramado.net

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior