Ano 17

48 Festival de Gramado - Curtas 2

Luciana Souza em cena de Inabitável (2020), de Matheus Faria e Enock Carvalho
Neste sábado, 19, foi a vez de conferir o segundo dia da Mostra Competitiva do 48 Festival de Cinema de Gramado, com a exibição de dois curtas e um longa brasileiros.

Inabitável é produção pernambucana de 19 minutos dirigida por Matheus Faria e Enock Carvalho. O filme é, em princípio, sobre a busca de uma mãe pela filha desaparecida. Mas as camadas que o filme sugere sinalizam muito mais, tanto pela radiografia que faz sobre uma política de estado de genocídio como ainda pela chave do ordinário e extraordinário pelas lentes do cinema de gênero.

Desde que Luciana Souza roubou a cena como dona Joana, em Ó Paí Ó (2007), de Monique Gardenberg, como a  síndica evangélica do cortiço que infernizava a vida dos moradores, contracenava com Dira Paes em cena deliciosa de diálogos picantes e hilariantes, e encarnava a mater dolorosa dos filhos executados, que tornou-se impossível não notá-la em cada aparição, seja na telinha da TV  ou no cinema.

Em Inabitável ela é a protagonista, e, mais uma vez, mostra do que é capaz. O desassossego em crescente, mas como que já esperado, que embute em sua mãe da garota desaparecida, diz não só de sua dor, desamparo e abandono, como muito também sobre o mundo em que vivemos.

Ao ser interpelada pela amiga vizinha para avisar o desaparecimento para a polícia, ela, de imediato, diz que a polícia não está nem aí para a vida de sua filha. E por sabê-la negra, trans e periférica, a fala não é lamento, mas constatação enraizada em indignação instalada. Como a fazer coro a como cantou Elza Soares nos versos de Cazuza, "mas que tempo mais vagabundo é esse agora que escolheram para a gente viver".

E esse tempo vagabundo é o nosso mundo atual, de violência, de transfobia, e do genocídio das minorias: LGBTQI, negros, indígenas, mulheres, periféricos. E é a partir desse estado de coisas oficializado que Roberta seria apenas mais uma estatística urbana daqueles que desaparecem, não na cauda do cometa, mas,  sempre, executados cruelmente e com altas doses de gozo sádico.

Cabe então à Marilene se insurgir sobre esse destino cruel como uma crônica de uma morte anunciada. Ao buscar o paradeiro da filha, Marilene encontra nos pertences dela um cilindro misterioso que, vez ou outra, ilumina-se. O estranhamento inicial não impede de Marilene guardar/cuidar do objeto, para o qual vez ou outra se reporta, como se a adivinhar que a presença daquele objeto  fizesse um sentido fundamental para o que estava vivendo.

Marilene percorre a vizinhança e pelo necrotério, acompanhada pela amiga da filha e pela vizinha, presenças luminosas da atrizes Sophia Williams e Erlene Melo, e ao fazer esse trajeto refaz toda uma geografia genocida oficial. 

E quando Inabitável, valendo-se dos elementos de misteriosa ficção científica, instaura essa chave e essa ambiência, abre-se um portal possível, ainda que, para o qual, talvez estejamos mais que atrasados e para travessia indesviável e urgente.

Subsolo é animação de 8 minutos do Rio Grande do Sul dirigida por Erica Maradona e Otto Guerra. O centro da ação é uma academia de ginástica em que homens e mulheres, aparentemente em busca de cuidados saudáveis,  acabam se enredando em outros caminhos.

O premiado Otto Guerra, um dos animadores mais importantes do cinema brasileiro, tem um traço muito particular, e aí não só dos elementos da animação em si, como também a partir do seu olhar para personagens e situações. E esse olhar pontuado por humor corrosivo e pela observação de comportamentos.

Em Subsolo, ele e Erica Maradona miram sua lente para esse microcosmo muito definidor de grande faixa da cultura urbana, que são as academias, em que exercitar o corpo também está subjugado por  forças outras,  como o culto à vaidade, o confronto de imagem propagado e ampliado em tempo real pela ditadura dos  espelhos, o assédio, e o embate entre estados de  auto e baixa-estima.

E a partir do filme,  os cineastas ampliam ainda mais esse recorte, evidenciando como aqueles personagens, sabendo ou não, indulgentes ou convenientes, estão inseridos em toda uma cadeia do grande negócio, que, desde sempre, se sustenta a partir da exploração e apropriação de corpos, suores e sangue em processo contínuo e  autofágico.

Subsolo faz esse mergulho, que também é de alta elaboração sonora, a partir do que é engraçado e risível, mas sem abrir mão da percepção do incômodo instalado.


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48a Festival de Cinema de Gramado
De 17 a 26 de setembro de 2020 - exibição no Canal Brasil e redes sociais.

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior