Ano 16

15a Cineop Mostra Histórica Longas

Cena de Wilsinho Galiléia (1978), de João Batista de Andrade
Coube à seleção de longas da Mostra Histórica da 15a Cineop - Mostra de Cinema de Ouro Preto a exibição de um dos maiores destaques de toda a programação: Wilsinho Galiléia (1978), de João Batista de Andrade.

O mineiro de Ituiutaba João Batista de Andrade construiu uma filmografia tão coerente e impressionante que o alçou ao patamar de um dos maiores cineastas da história do cinema brasileiro. Sua obra é incontornável e formada por filmes absolutamente fundamentais, como Gamal, o delírio do sexo (1970), o episódio O filho da televisão de Em cada coração um punhal (1970), Doramundo (1978), O homem que virou suco (1980), A próxima vítima (1983).

O cinema de João Batista é político até a medula, mas sempre partindo de um ponto de vista humanista. A partir de seus personagens e do universo em que habitam e trafegam, ele vai refazendo uma geografia de toda uma cultura, de um povo, de um país.

Em Wilsinho Galiléia, ele faz a reconstituição da trajetória do menino que aos 14 anos já era considerado bandido perigoso e que, aos 18, é, por fim, fuzilado pela polícia. Ao contar essa trajetória, e é impressionante a composição do ator Paulo Eudes para Wilsinho, o filme radiografa todo o seu entorno: as moradias miseráveis, a família arrasada pelo crime, a mãe trágica.

Wilsinho Galiléia mistura em cena os personagens reais e os atores que encenam essa crônica de uma morte anunciada. Paulo Eudes personifica, praticamente sem falas, todo o ideário do seu trágico personagem, que sonhava ser playboy, adorava desfilar em carros de luxo e vibrava com o status de celebridade ao estampar as páginas policiais dos jornais.

João Batista se detém sobre a família real de Wilsinho e ao trazê-la para a cena é como se personificasse em quadro de desespero instaurado uma mãe coragem, mas ao contrário da mítica personagem, esvaída pela miséria, às voltas com seus filhos, todos eles jovens condenados e encarcerados. 

Também ao filmar o casebre miserável da família e o seu entorno, o filme já diz muito sobre quem são aquelas pessoas e o quanto a miséria, o desamparo e o abandono social fizeram da vida e do destino daquelas pessoas.

Wilsinho Galiléia  apresenta toda essa tragédia humana e social sem se valer, um minuto sequer, de qualquer recurso melodramático. As coisas já dizem por si só. E Paulo Eudes, caminhando pela comunidade com o revólver na cintura visível pela camisa aberta ou ainda ensinando o irmão mais novo a atirar em cena imbuída de profunda tristeza, faz de Wilsinho Galiléia um dos personagens mais trágicos do nosso cinema e representativo da tragédia em estado bruto que assola, cotidianamente, o real.

A Mostra Histórica Longa exibiu ainda Avenida Brasília Formosa (2010), de Gabriel Mascaro


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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior