Ano 18

25a Mostra Tiradentes-Aurora 4 Olhos Livres 4

Cena de Bem-vindos de volta (2021), de Marcos Yoshi
A 25a Mostra de Cinema de Tiradentes, que começou no dia 21 e vai até o dia 29, ofereceu em sua programação de sexta-feira dois dos melhores filmes: Os primeiros soldados (ES), de Rodrigo de Oliveira, na Mostra Olhos Livres; e Bem-vindos de volta (SP), de Marcos Yoshi, na Mostra Aurora.

Desde seu primeiro longa, o belo As horas vulgares, que Rodrigo de Oliveira já marcou, mais que um estilo, o seu olhar muito particular de seu universo cinematográfico. Ótimo diretor de atores, esse olhar do cineasta se revela, sobretudo, a partir de sua câmera sempre colada em seus personagens, mesmo que em plano geral. Pois a câmera aqui não vista na sua função de registro e sim de expansão do olhar. E o olhar de Rodrigo é humaníssimo, então essa expansão não é apenas de propósitos, mas de rigor do amor. Sim, porque seu cinema ama seus personagens, personificado, por exemplo, no belíssimo curta que dirigiu, o notável Eclipse solar (2016). Em Os primeiros soldados, ele reúne alguns de seus personagens, dessa vez  em um dos mais dolorosos recortes temporal: os primeiros anos do surgimento da Aids.

Em Os primeiros soldados,  que se passa em Vitória, capital do Espírito Santos, na passagem de 1982 para 1983, o trio de protagonistas, o biólogo  Suzano, a artista Rose, e o videomaker Humberto são os três primeiros a enfrentar, na cidade, a então chamada peste gay, ou câncer gay, sendo os dois gays e ela uma travesti. Os primeiros soldados consegue imprimir na tela o medo, o susto, a dor e a solidão, ao mesmo tempo que materializa o afeto entre os iguais, como na relação entre eles, assim como também entre a irmã de Suzano e o sobrinho Muriel com eles. Se muitos jovens de hoje, por não terem passado por esse período mais cruel da Aids, de preconceito, sofrimento e morte, não têm a dimensão da tragédia, o filme, além de trazer de volta para a cena essa discussão tão importante, vide o crescimento de casos de contaminação, humaniza o que, para muitos hoje, menos os diretamente afetados, pode parecer só fria estatística. E para isso, o filme conta com atores e atrizes de enorme talento e muito bem escalados, como Johnny Massafaro e as extraordinárias Renata de Carvalho, que vem recebendo prêmios pela sua  arrebatadora interpretação, e Clara Choveaux.

A Mostra Aurora apresentou aquele que é um dos mais fortes candidatos a ser o ganhador do troféu Barroco, ao lado de Sessão bruta, do coletivo As Talavistas e ela.ltda: o belíssimo Bem-vindos de volta. Produção paulista dirigida por Marcos Yoshi, Bem-vindos de volta é filme que vai nos pegando pela mão e quando nos percebemos a emoção já está instalada e nos sentimos mais que próximos daquela família, nos sentimos cúmplices. Cúmplices em seus anseios, sua dores, sua alegria por estarem juntos, seus afetos. Sim, porque de ponta a ponta todos aqueles personagens personificam todo um estado de coisas que também a nós, ainda que por caminhos às vezes diversos, é colocado de forma imperativa pelo Grande Negócio, o Capital, cerceando e impedindo nosso existir em plenitude.

Em Bem-vindos de volta, o cineasta Marcos Yoshi filma a sua família, inclusive com ele em cena, de descendência japonesa,  sobretudo a partir da relação com os pais. Há mais de uma década eles haviam partido para o Japão em busca de trabalho e ao retornarem ao Brasil tentam reconstruir os laços familiares com os três filhos - o clã ainda conta com a avó e uma sobrinha, além de outros parentes. Ao mesmo tempo que registra a migração entre Brasil e Japão, chamada de Dekassegui, o filme faz uma radiografia muito mais precisa, e sensível, que mil tratados e compêndios sobre o tema . E nos comove com a materialização extraordinária  da sinopse precisa: "uma família dividida entre a necessidade de garantir o sustento e o desejo de permanecerem juntos". Filmaço!


*******************
25a Mostra de Cinema de Tiradentes
De 21 a 29 de janeiro de 2022
Programação gratuita e exibição on-line mostratiradentes.com.br

::Voltar
Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior