Ano 17

10º Olhar de Cinema - Longas 6

Rolê - História dos Rolêzinhos (RJ), de Vladmir Seixas
A Mostra Competitiva e a Mostra Mirada Paranaense abrigam mais três longas conferidos pelo Mulheres do Cinema Brasileiro na programação do 10º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba, que começou no dia 6 a vai até o dia 14 de outubro.

São eles: Mostra Competitiva -  Rolê - História dos Rolêzinhos (RJ), Vladmir Seixas; Mirada Paranaense - Bia mais um (PR), Wellington Sari; e Ursa (PR), William de Oliveira.

 Rolê - História dos Rolêzinhos (RJ), de Vladmir Seixas, é importante documentário por si só já pelo seu tema: os explosivos rolêzinhos, como ficaram conhecidos as ocupações de protestos de  jovens da periferia nos grandes shoppings. 

O filme resgata, a partir de material de arquivo, as impressionantes imagens daquele acontecimento histórico de militância e enfrentamento contra o racismo estrutural e a luta de classes, assim como as suas repercussões na mídia e na sociedade.

E é quando se atém a isso, que Rolê - História dos Rolêzinhos cresce e se impõe, tanto pelo tema como pela abordagem que a direção e o roteiro, também assinado por Vladmir Seixas, imprimem. 

O filme, no entanto, traz aquele momento histórico da década passada para os dias de hoje, tanto a partir de suas reverberações, como também de três personagens que dele participaram: Jefferson Luis, coordenador dos rolezinhos no Rio de Janeiro; Thayná Trindade, que prepara um seminário faculdade sobre o tema; e Priscila Rezende, coreógrafa e bailarina.

E é aí que nem sempre o filme consegue coadunar o momento atual com o vigor  das imagens de arquivo. Se há, por exemplo, uma discussão interessante no seminário, na marcante apresentação conjunta com Priscila e integrantes de sua oficina na sua clássica performance Bombril, ou ainda nas imagens de Jefferson procurando emprego, a contextualização da vida atual deles fica, em alguns momentos, dispersas. A notar,  por exemplo, a forma coma a Segunda Preta, movimento negro artístico, reivindicatório e de afirmação de identidade de Belo Horizonte aparece em cena.

Ainda assim, mesmo em descompasso, Rolê - História dos Rolêzinhos é filme que se acompanha com interesse renovado, tanto como registro de uma vigorosa revolta coletiva periférica, quanto como ato de resistência e de, cada vez mais, crescente afirmação de identidade.

Duas produções em longa-metragem do Paraná também foram conferidas: Ursa e Bia mais um.

Dirigida por William de Oliveira, Ursa é um interessante filme sobre a condição da mulher, sobretudo a partir dos deveres imputados a ela pela maternidade.

Viúva, a jovem Viviane cria sozinha os dois filhos pequenos. Funcionária de uma lanchonete de posto de estrada, tem que deixar os dois com a vizinha adolescente quando tem que trabalhar nos finais de semana. Com o ataque de uma pitbull aos seus filhos, ela terá não só de enfrentar a tragédia, como também a perseguição do avô paterno de seus filhos e o Conselho Tutelar do Menor.

William de Oliveira mostra rigor na sua abordagem sobre a condição de uma mulher e mãe periférica. No entanto, fragiliza o contraponto, já que o antagonista na situação, um músico apático e egoísta, não consegue se apresentar como um personagem em complexidade, como é o caso da protagonista.

Além disso, o filme contribui, mesmo que aparentemente sem ser o propósito, na marginalização e no reforço dos estereótipos sobre a agressividade da raça de pitbull. Já que a discussão sobre o papel da condição da mulher está impressa, mas o da perseguição dos cães não.

Ainda assim, Ursa é filme que tem vigor, que acompanhamos com certa aflição, e que conta com boa interpretação de Adriana Sottomaior como a protagonista.

Bia mais um é filme que focaliza os verdes anos, aqui sobre o encontro entre uma jovem que retorna para sua cidade natal e não se reconhece no que havia deixado para trás, e um jovem que vive com o pai e ainda tateia sobre os caminhos para a sua vida.

Dirigido por Wellington Sari, Bia mais um é outra boa produção paranaense, ainda mais levando-se em conta que focalizar esse tema sem se deixar se tomar por estereótipos e vícios de linguagem já é um tento para o filme.

Bia e Jean encontram nos atores Gabrielle Pizzato e Gustavo Piaskoski intérpretes afinados para o que pede a proposta. Ela, com um olhar, sorriso e gestual sempre mezzo gaiato e terno, mezzo triste e deslocado, e ele um tanto atrapalhado em corpo e intenções.

Na apresentação filme, diz-se sobre o cineasta e seu filme que a produção procura não julgar seus personagens, ao mesmo tempo que não os trata com condescendência. 

É uma afirmação acertada, pois realmente os dois protagonistas meio que deslizam pela tela, cada qual a partir do seu ponto de vista, que não são nunca externizados, mas visivelmente adivinhados lá por dentro.

Bia mais um se perde, muitas vezes, em acessórios desnecessários, como nas ambiências tecnológicas, ainda que se mantenha como um recorte de uma geografia e de um estado de coisas pelos quais, cada um a sua maneira, todos nós uma dias passamos e enfrentamos.


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Serviço
10º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba
De 7 a 15 de outubro - filmes exibidos e programação completa no 
site olhardecinema. com.br
Ingresso: R$ 5 por filme

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior