Ano 17

9 Olhar de Cinema - Mostra Competitiva Longa

Cena de Entre nós talvez estejam multidões (2020), de Pedro Maia de Brito e Aiano Bemfica
O 9o. Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba está apresentando, de 7 a 15 de outubro de 2020, uma mostra extensa de 78 filmes, entre curtas e longas, em programação dividida em mostras. Uma delas é a Mostra Competitiva, que exibe dois longas brasileiros: Luz nos trópicos, de Paula Gaitán; e Entre nós talvez estejam multidões, de Pedro Maia de Brito e Aiano Bemfica.

Entre nós talvez estejam multidões é um produção mineira de 99 minutos. Os cineastas  Pedro Maia de Brito e Aiano Bemfica. trazem para o centro da ação o universo da ocupação Eliana Silva, em Belo Horizonte.

A palavra tem poder, diz a máxima que já quase virou clichê. E é ela, com lugar especial também para a música, que permeia todo o documentário, que vai desde a gênese, já de cara registrando uma retratação histórica, que sempre precisa ser ressaltada: aqueles que lutam pelo direito à moradia, que deveria ser garantido, não promovem invasão, mas ocupação.

E é a ocupação Eliana Silva, com toda a sua diversidade, bem explorada pelos depoimentos e conversas registradas pela câmera ou pelas apresentações musicais de vários estilos, que se impõe não só como objeto de foco dos realizadores, mas como sujeito da polarização entre o genocídio praticado pelo Estado e a resistência dos coletivos.

Muitas vezes, pelo seu teor de urgência impactante, as ocupações acabam por homogeneizar o imaginário, fazendo com que quem acompanha a luta de longe ou pelos noticiários, tenham apenas a percepção do todo, invisibilizando nessa apreensão as pessoas que estão no centro da ação.

Como bem sinalizado pelo título, se é no coletivo que está a força para a conquista de todos, isso não quer dizer que cada pessoa que ali está tenha os mesmos olhares para a vida, para além do sonho, que deveria ser direito, da moradia própria.

As filmagens se dão em período pré e pós eleição do fascista que ocupa, atualmente, a presidência do país, e é ao presenciarmos os diálogos sobre o tema, que percebemos essas multidões que ali habitam. Assim como também nas apresentações musicais no palco instalado na rua, em que jovens se apresentam, personificando, em atitude e tônus, a cultura urbana.

As multidões também estão evidenciadas a partir dos diferentes depoimentos dos moradores, que articulam e abrigam várias causas: mulheres, comunidade negra, LGBTQI, cultura urbana, afirmação, sonhos, sucesso, política, militância.

A cada fala de um morador, em junção com as casas sem pintura externa cortadas pela rua central de terra, há tanto o fator comum que levaram aquelas pessoas todas ali, como também as inúmeras possibilidades de ser e de estar no mundo, e que extrapolam e muito aqueles cômodos geralmente pequenos em medidas, mas gigantes em significados e significantes.

As falas de Polyanna e de Leonardo, militantes com profunda consciência dos direitos coletivos, nunca ficam esterilizadas em discurso panfletário, são expressões vivas. E a câmera não desvirtua esse registro.

E uma fala específica, de uma senhora que conta que trabalhava como doméstica em troca por comida e narra quando levou restos de comida dos patrões como se fosse para o cachorro, mas era para os seus filhos, dilacera a alma. Ao mesmo tempo em que essa narração e a forma como a senhora a diz,  revela-se  em altivez verdadeira de um povo, o brasileiro, que sempre esteve milhões de patamares acima desse país genocida, ainda que, atualmente, grande parte dele encontra-se inebriado pela sedução de morte do fascismo.

Entre nós talvez estejam multidões é documentário que, mais que registrar uma das páginas mais pulsantes do país, as ocupações e o descaso do Estado, celebra a conquista e nos faz, sobretudo aos adeptos dos discursos grandiosos, mas com prática zero,  olhar no rosto de quem, verdadeiramente, faz a História.

Dessa forma, aquelas casas todas filmadas de dentro e, em vários momentos, de fora em conjunto, jamais se configuram como cenário, mas como o mundo que de verdade importa.


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Serviço
9º Olhar de Cinema - Festival Internacional de Curitiba
De 7 a 15 de outubro - filmes exibidos e programação completa no 
site olhardecinema. com.br
Ingresso: R$ 5 por filme

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior