Ano 16

48 Festival de Gramado - Longas 2

Cena de Todos os mortos (2020), de Caetano Gotardo e Marco Dutra
O segundo longa brasileiro concorrente ao Kikito do 48o. Festival de Cinema de Gramado exibido pelo Canal Brasil, no sábado, 19, foi Todos os mortos (2020), dirigido por Caetano Gotardo e Marco Dutra.

Antes de mais nada é preciso registrar que a exibição do filme foi prejudicada, e muito, pelo som inaudível de vários diálogos em algumas partes do filme. Além disso, o Canal Brasil acelerou os créditos finais do filme, impossibilitando conhecer a ficha técnica do filme e ouvir a bela música composta por Salloma Salomão, que foi também um dos consultores do roteiro e assina a trilha sonora original.

Dito isso, ainda assim, Todos os mortos impactou pela história, pela forma como ela é contada - função essencial e cerne do cinema -, e como ela é interpretada.

Todos os mortos reuniu os talentos dos cineastas e roteiristas Caetano Gotardo e Marco Dutra. Gotardo já impressiona desde os primeiros filmes, sendo a estreia em longas com belo O que se move (2012), que parte do uso da música para configurar sua trama e a personificação de seus personagens, e é um dos grandes momentos do cinema dos anos 2010. Já Marco Dutra, seja dirigindo sozinho como em Quando eu era vivo (2014), ou nas parcerias com Juliana Rojas como em Trabalhar cansa (2014) e As boas maneiras (2017), vem fazendo mergulhos cada vez mais interessantes e potentes no cinema de gênero.

Em Todos os mortos as características dos dois cineastas estão nítidas, assim como também se percebe um embricamento orgânico de propostas estéticas e narrativas. Outra característica palpável é a escalação de elencos nunca manjados e sempre com ótimos resultados.

O filme coloca no centro da ação um grupo de mulheres, brancas e negras, cabendo aos homens papel circundante, ainda que seja por onde elas orbitam, sobretudo a partir do patriarcado estrutural. Assim como é estruturante também o racismo, não só o que as primeiras praticam sobre as segundas, mas também como marco definidor do país.

A trama começa no final do século XIX, mas logo se percebe sua atemporalidade, não só pelo uso de elementos de época deslocados, como, e muito mais ainda, por sabermos que todo aquele estado de coisas permanece varando séculos e com poder devastador inalterado, e, na verdade, ampliado em permanente projeto de nação.

A trama de Todos os mortos  se dá a partir da família Soares, notadamente as três mulheres brancas: a matriarca Isabel ( (Thaia Perez), e as duas irmãs: a freira Maria (Clarissa Kiste) - Kiste lembra muito a atriz Isabel Ribeiro tanto fisicamente como na construção contida e cheia de camadas da personagem - e a jovem musicista Ana (Carolina Bianchi). Já que o patriarca se ausentou, tentando ainda, como o clássico personagem italiano de Lampedusa, se aliar aos novos tempos para não perder sua posição de sujeito nele e tentar manter  privilégios possíveis.

E junto a essas mulheres brancas estão Josefina, ótima surpresa na presença nobre e altiva da cantora Alaíde Costa como a serviçal escravizada que morre e deixa a família ainda mais à deriva, e sua nora Iná (Mawusi Tulani) mais o neto garoto João (Agyei Augusto) - todos os três em trabalhos maravilhosos, sobretudo Mawusi.

A família Soares quer manter, a qualquer custo, sua posição de privilégios colonialistas que veem ruírem a cada dia e cada vez mais com a abolição e a República. Já Iná, que é recrutada para um último "serviço" às Soares, quer, mais que tudo, reunir sua própria família, voltar a exercitar sua identidade cultural, suas práticas de crença, e construir seu caminho longe do jugo escravocata de seus algozes.

Todos os mortos se vale dessa trama densa, em que questões como colonialismo, patriarcado, poder das oligarquias e racismo estruturante compõem uma radiografia fundante de uma nação já parida a forceps pela prática do genocídio, exploração social, e expropriação cultural.

De cara, uma das questões que o filme enfrenta é a cada vez mais discutida atualmente, que é o Lugar de Fala. Afinal, o filme é sobre mulheres, notadamente sobre o feminino, e sobre as questões da negritude, enquanto que os dois diretores são homens  brancos e de classe média.  Desde o primeiro segundo em que o filme se coloca, com a aparição altiva de Josefina com seu trabalho braçal e seu canto ancestral, a questão se faz imperativa. Ainda assim, vamos sendo conduzidos por uma narrativa, em que elementos dispostos aqui e acolá sugerem que uma pesquisa, que adivinhamos profunda, possa ter embasado aquilo tudo, como, por exemplo, o sofisticado tecido sonoro e a corporação gestual.

Todos os mortos fala sobre o que é o Brasil, que insiste em ser o mesmo de ontem e de hoje, e  como se configura continuamente para assim se permanecer. Todos os mortos é sobre todos os que já morreram, morrem e morrerão a partir desse projeto genocida e suicida de nação e como seu tecido social se contorce e se insurge para não cumprir essa trágica sina projetada e regiamente executada.

O filme conta ainda no elenco com ótimas presenças de Teca Pereira, Andrea Marquee, Gilda Nomacce, Tuna Dwek, Leonor Silveira, Thomás Aquino, Rogério Brito, Luciano Chirolli.


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48o. Festival de Cinema de Gramado
De 17 a 26 de setembro de 2020 - exibição no Canal Brasil e nas redes sociais.

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Sala 
 Betty Faria
Com amor profundo pelo cinema, premiada em vários festivais no Brasil e no exterior